Um crime e um castigo | Artigo de Cláudia Gruber APP-Sindicato

Um crime e um castigo | Artigo de Cláudia Gruber


Foto: Divulgação

Um ofício da Seed chegou às escolas estaduais essa semana e, ao lê-lo, automaticamente me veio à lembrança um filme bem antigo:  Fahrenheit 451 (1966), do cineasta francês François Truffaut. O filme conta a história de uma sociedade que vive num regime totalitário e é proibida de ler livros. Caso alguém fosse descoberto com livros em casa, os bombeiros eram acionados para queimá-los em 451 °F (temperatura de queima do papel).

Quanto ao ofício, diz que […] solicita-se que os colégios sob a jurisdição do NRE de Curitiba realize (sic) a entrega da obra “O Avesso da Pele”, até o dia 08/03/2024 no NRE de Curitiba. Informamos que essa obra passará por análise pedagógica e posterior encaminhamentos.

Muito nos estranhou que essa polêmica, iniciada por uma diretora de Porto Alegre (RS), tenha ecos por aqui, pois a história já  havia sido devidamente resolvida e se mostrou uma tentativa frustrada de polemizar o PNLD pela referida obra. Mas o que há de errado com o referido livro para causar tamanho rebuliço?  Se é que há algo errado com ele. Só lembrava que o mesmo havia ganho o Prêmio Jabuti há algum tempo atrás. 

Escrito pelo professor e pesquisador Jeferson Tenório, O avesso da Pele (2020) conta uma história que, infelizmente , é muito comum em nosso país: a discriminação racial. Narrado pelo personagem Pedro, conta a trajetória de uma família negra que vive em Porto Alegre. 

Usando  flash-backs, o narrador relata a  morte do pai, numa abordagem desastrosa da polícia, bem como a vida de Henrique (o pai) e de Martha (a mãe), durante a infância e juventude. Como se conheceram, casaram, os problemas que enfrentaram por causa da cor de suas peles. A relação conflituosa entre pai e filho.  O protagonista é Henrique e sabemos de sua vida por uma espécie de  conversa imaginária que poderia ter ocorrido entre pai e filho, logo depois da sua morte. O leitor também fica sabendo o que é ser negro na voz de um negro.

“A sua grande obra foi continuar levantando, dia após dia. Apesar de tudo, você continuou desafiando a possibilidade de morrer. No sul do país, um corpo negro será sempre um corpo em risco. A sua obra foram seus alunos, mesmo aqueles que nem se lembram de você. Sua obra foram as suas aulas tristes. Suas aulas sérias, suas aulas apaixonadas. Eu queria ter morado num pensamento teu.” (p.138, grifo nosso)

O autor, ao dar voz a um jovem de 22 anos, sugere um leitor modelo e para ele, vai adequando sua narrativa. Por um enredo necessário às discussões  raciais e pelo trabalho literário de Tenório, entre outras questões, o livro recebeu o Prêmio Jabuti em 2021. Aqui, vamos retornar um pouco no tempo  e falar sobre o Jabuti para quem não conhece a história do Prêmio, que neste ano entra em sua 65ª edição.

Criado em 1959 por Edgard Cavalheiro quando presidia a Câmara Brasileira do Livro (CBL), tinha a intenção de premiar as obras literárias que se destacaram naquele ano. Livreiros, editores, gráficos, ilustradores e autores concorriam em modalidades específicas, assim divulgando e consolidando o mercado literário brasileiro. O Jabuti cresceu e se tornou a premiação literária máxima do Brasil. Hoje,   está dividido em quatro eixos e 20 categorias, sendo a principal premiação a do melhor livro do ano. Nomes como: Jorge Amado, Clarice Lispector e Dalton Trevisan já foram ganhadores do Prêmio. Tenório já tem uma trajetória invejável. Seu primeiro livro, O Beijo na Parede (2013) foi eleito o Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores, tem também contos e textos teatrais traduzidos para o inglês e espanhol e O avesso da pele (The Dark Side of Skin) já ganhou tradução para o inglês este ano. 

Sua temática, de modo geral, gira em torno de racismo, pobreza, desigualdade social, violência e estes são temas que sempre incomodam àqueles que não querem ou não conseguem enxergar o racismo estrutural que  permeia nosso cotidiano, sobretudo nos espaços escolares. Sendo que o fato de termos um protagonista professor, torna o espaço da narrativa ainda mais familiar para os estudantes e ainda desvela algumas das muitas contradições e angústias da carreira. 

Aqui, na construção do personagem tornam-se também interessantes as intertextualidades trazidas à baila: por se tratar de um professor de literatura, que tem uma paixão inexplicável por Crime e Castigo, de Dostoievski; Henrique, em alguns momentos,  perambula pelas ruas de Porto Alegre como fazia o personagem Raskólnikov em São Petersburgo. Ele ainda tem um aluno que foi pego enrolando um cigarro de maconha em sala de aula chamado John Lennon. Sem contar a referência a várias músicas da nossa MPB. 

“Um ser esquecido entre o quadro e o giz. Na sala de aula, você desaparece para as pessoas. Todos acham que, se você está ali, tendo de aturar os desaforos de crianças e adolescentes, é porque você não deu certo na vida. Dar aulas foi o que sobrou para os perdedores. Mas no fim das contas você sabe que não é bem assim. (p.114)”

Fizemos uma leitura da mesma e o que encontramos foi um texto ágil, rápido, dinâmico que prende rapidamente o leitor pela forma com que a história é contada. Deparamo-nos com trechos que nos incomodam, que nos causam mal estar. Mas, esta, segundo Antonio Cândido, é uma das funções da literatura. Colocar-nos em confronto com a realidade. Realidade esta que pode não ser a nossa, mas, que se tivermos um pouco de empatia, poderemos nos colocar no lugar do personagem e entenderemos suas dores, seus medos de pessoa negra. Como nos trechos a seguir:

Então, no início da rua, você viu uma viatura com as sirenes tocando, e àquela altura da sua vida, aos catorze anos, você já havia aprendido que aquela visão era um problema, não que você tivesse consciência de que a polícia te abordava porque você era negro, mas sua experiência já te dizia para se manter longe das viaturas. (p.107, grifos nossos)

Ainda: 

“Num desses dias, você estava sozinho, esperando o ônibus corujão chegar. Você estava novamente cansado, com sono. Não via a hora de chegar em casa. Então você viu as cores vermelhas de uma sirene se aproximarem. Você rezou para não ser abordado mais uma vez. No entanto, sua reza não funcionou. Eles desceram de arma em punho, não apontaram para você, apenas mandaram você se virar e pôr as mãos na cabeça, perguntaram para onde você estava indo. (p.110, grifos nossos)”

Voltemos ao ofício: Sem dar um motivo plausível (se é que há), apenas é dito nele que a  obra  “passará por análise pedagógica e posterior encaminhamentos”. Até onde sabemos, o livro não caiu do céu em nossas bibliotecas. Pois entrou no rol  do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) e passou por avaliação por mais de uma comissão técnica do Ministério da Educação e Cultura (MEC), sendo que cada comissão destas tem integrantes selecionados criteriosamente e indicados por diversas instituições, como o Conselho Nacional de Secretários de Educação, a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, o Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação e a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, dentre outros. 

Após avaliação da obra, a nota técnica Nº 4009370/2024/CGPLI/DIRAE, emitida pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), diz: No caso em tela, dentre os objetos do Edital do PNLD 2021, estavam as obras literárias (Objeto 5 do edital). 

Assim, entre 12 e 23 de abril de 2021, as editoras puderam inscrever as suas obras literárias para participarem daquele edital e as equipes constituídas naquela gestão no MEC finalizaram a avaliação pedagógica e publicaram o seu resultado no Diário Oficial da União (SEI 3140766) no dia 14 de setembro de 2022, no qual consta como aprovada a obra O AVESSO DA PELE, da empresa HSF COMERCIAL LTDA. (grifos nossos)

Ficam, portanto,  aqui alguns questionamentos: será que estes integrantes não têm competência técnica e pedagógica para tal análise? Qual será o real motivo para o recolhimento do livro? Por que ele está incomodando tanto? Há uma tentativa de desqualificar o PNLD deste governo? Seriam algumas cenas de sexo e palavras ditas de “baixo calão” que poderiam levar à retirada do livro de nossas bibliotecas?  Lembrando que o livro é destinado a alunos do Ensino Médio e estes já devem saber um pouco (ou até bastante) sobre sexo e também ouvido termos de “baixo calão”.  Ou seria a reflexão a que o texto nos leva? A percepção mais aguçada dessa realidade brutal em que vivemos? Pois, ao terminarmos a leitura, também temos um nó na garganta e uma vontade de chorar junto com o narrador.

“Olhei para minha própria pele. E era mais clara que a de meu pai e minha mãe. E talvez por isso eu tivesse sido parado pela polícia duas vezes até ali. E fiquei pensando na crueldade de tudo aquilo. E tive vontade de chorar (p.135, grifos nossos).”

TENÓRIO, Jeferson. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. 

por Cláudia Gruber, mestra em Estudos Literários pela UFPR e secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato.

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