Tchau, Unicesumar: triunfo da luta no CEEP Cascavel mostra o caminho para o estado

Tchau, Unicesumar: triunfo da luta no CEEP Cascavel mostra o caminho para o estado

CEEP Pedro Boareto Neto é um exemplo para outras escolas que lutam para ter professores(as) em sala de aula no Ensino Médio

“A gente conseguiu, agora temos professores em sala de aula. Nossos filhos já estão tendo aulas normalmente, com professores. A Unicesumar deu tchau para o nosso colégio, graças a Deus”. A declaração entusiasmada é de Helena Pereira da Luz, mãe de aluna do CEEP Pedro Boareto Neto, de Cascavel.

No final de março, depois de um intenso processo de luta e mobilização, estudantes, pais e mães do Ceep de Cascavel conseguiram reverter decisão do Governo Ratinho Jr de substituir aulas presenciais do curso técnico por aulas à distância ministradas pela Unicesumar.

“A gente está muito feliz, pois fomos pioneiros. Quando começamos diziam que não era possível, mas conseguimos”, diz Helena.

A mobilização iniciada em Cascavel se espalhou pelo Paraná, revelando o descontentamento generalizado com a terceirização do Ensino Médio. A APP mapeia protestos e mobilizações em ao menos 25 cidades.

“Quando iniciamos os protestos, falaram que era só o Ceep que estava descontente, mas depois a gente foi vendo que é em todo o Paraná. É o Paraná inteiro que está descontente com isso”, relata Helena.

O Governo Ratinho Jr decidiu contratar a Unicesumar por R$ 38,4 milhões para ministrar aulas à distância nas disciplinas técnicas de cursos de formação profissional. A alegação inicial era que não haveria professores capacitados para dar essas aulas, o que logo se revelou uma mentira.

“O Ceep tem professores que se preparam, que são qualificados, têm condições de assumir sala de aula e não podiam, porque o Governo está privatizando a Educação. R$ 38 milhões para a Unicesumar é muito dinheiro para colocar uma televisão para dar aula”, afirma Helena.

Case de sucesso

O sucesso da mobilização no Ceep Cascavel é atribuído por Helena à união da comunidade escolar, à construção de uma rede de apoio e à boa comunicação de pais e estudantes. Montar grupos de WhatsApp, criar perfis nas redes sociais para divulgar o que estava sendo feito, fazer abaixo-assinados e enviar cartas às autoridades fizeram parte da estratégia bem sucedida.

“A gente se organizou de uma forma tão legal. Formamos um grupo no WhatsApp com 180 pais do colégio. Os estudantes formaram outro grupo com 200 nomes. Eles se organizaram de uma maneira que foi de arrepiar. Isso mostra que nossos filhos não vão aceitar qualquer coisa calados. Eles vão lutar e é com isso que o Governo está preocupado”, diz Helena.

A resistência começou assim que os pais foram informados de que as aulas técnicas seriam à distância, uma inovação bizarra que só interessa aos que querem fazer da educação um negócio lucrativo. “Fomos surpreendidos na primeira reunião do ano letivo, quando fomos informados que as aulas seriam online. Num curso técnico, aula online? Isso não faz nenhum sentido”, afirma Helena.

O CEEP é referência de qualidade de ensino na região. “Tem alunos que vêm de longe, de outras cidades, saem de casa às 4h30 para vir estudar nesse colégio, tendo em vista que é um dos melhores de Cascavel”, relata Helena.

O esforço desses estudantes e suas famílias em busca de boa educação foi sabotado pelo Governo Ratinho Jr, que viu no Novo Ensino Médio uma brecha para direcionar recursos públicos para empresas privadas.

Desde os primeiros dias de aula ficou claro para os estudantes que as aulas à distância eram uma farsa, aponta Helena.  “Os alunos já vinham reclamando desde o começo e minha filha até sonhava com isso. Eles estavam saindo de uma pandemia, quando já tinham aulas online. Aí voltam para o colégio e quando chegam lá se deparam com uma televisão dando aula. Não faz nenhum sentido isso”, dispara Helena.

Reação do Estado

O Núcleo Regional de Educação exerceu forte pressão para desmobilizar os estudantes, segundo Helena, mas não conseguiu quebrar o pacto entre pais, mães e estudantes na luta pelo direito à educação de qualidade. 

“Pedimos uma reunião e eles tentaram fazer lavagem cerebral nos pais, só que não conseguiram. Já de início disseram que nossos filhos iriam receber três certificados. Eu me levantei e perguntei aos pais: é isso que vocês querem? Um papel na mão dos filhos de vocês? Ou querem conhecimento? Porque o que Unicesumar e o Governo estão querendo fornecer é papel. Todos os pais se levantaram nessa hora”, relata Helena.

“Foram lá para fazer uma lavagem cerebral e não era isso que nós queríamos. A gente estava estudando a situação, a gente sabia o que estava acontecendo. Não adianta dizer que é bonito ficar assistindo televisão na escola, pois não é, ainda mais numa sala de aula com 40 alunos. É um crime isso que está acontecendo no Paraná”, afirma Helena.

“Graças a Deus a gente pode respirar aliviado porque os alunos estão tendo aulas de verdade, pois não fazia sentido eles acordarem cedo para ficarem lá assistindo televisão durante seis horas seguidas”, diz Helena.

Hoje todas as aulas do Ceep Cascavel são presenciais. “Com isso os alunos passaram a ter aulas no contraturno, mas eu prefiro assim. Adolescentes precisam de contato com outros adolescentes, com pessoas, não com televisão”, conclui Helena.

União é chave para a vitória

A união de pais e alunos é o mais importante para reverter a terceirização no Ensino Médio, concorda Olívia da Luz Tonkiel, filha de Helena e estudante de Desenvolvimento de Sistemas. “Os alunos, que eram os mais prejudicados, todos nos unimos e nos ajudamos. Não ficamos com medo ou com preguiça, fomos para a luta, e os pais ajudaram muito. Sem essa união não teria dado certo”, diz.

Importante também, segundo Olívia, é os estudantes se conscientizarem sobre seus direitos. “Para os alunos de outras escolas que estão começando o protesto agora, é muito importante pesquisar e entender que é direito dos alunos protestar e falar que não está gostando. É direito deles terem professores presencialmente”, afirma. 

A conscientização sobre seus direitos vai fortalecer a resistência dos estudantes às pressões para desistirem da luta. “Precisamos entender que, se qualquer pessoa vier dizer que não podem protestar na escola, que são obrigados a ficar dentro da sala de aula, mesmo não gostando, não é assim. Os estudantes têm direito de protestar, de dizer se estão satisfeitos ou não estão, e porque não estão”, indica Olívia.

Resistir às pressões e manter o foco na luta é o caminho para derrotara terceirização nas escolas. “Isso é muito importante: não parar enquanto não conseguirem tirar essas teleaulas da Unicesumar, porque não tem ninguém satisfeito. Essas aulas não têm nada de bom, não tem nada para os estudantes ali, é impossível aprender com uma TV numa sala de 40 alunos”, afirma Olívia. “Assim como o CEEP conseguiu, as outras escolas também vão conseguir trazer de volta os professores e as aulas práticas”, aposta.

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