“Somos crianças, não ratos de laboratório”; estudantes usam redes para denunciar excesso de plataformas APP-Sindicato

“Somos crianças, não ratos de laboratório”; estudantes usam redes para denunciar excesso de plataformas

Publicações e comentários no tiktok, twitter e outras redes sociais mais se assemelham a pedidos de socorro

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Educadores(as) não são os(as) únicos(as) indignados(as) com a avalanche de plataformas digitais que assumiram a centralidade da rotina escolar na rede estadual do Paraná. Em redes sociais como o twitter e o tiktok, são inúmeras as reclamações de alunos(as). Com linguagem irônica ou direta ao ponto, as publicações mais se assemelham a pedidos de socorro.

As críticas reproduzem muitas das impressões da categoria; sobrecarga de tarefas dentro e fora da escola, relatos de adoecimento, falta de estrutura para atender às exigências, cobrança e pressão para entregar resultados, dificuldades técnicas no uso das plataformas e incompreensão sobre os objetivos da transição digital abrupta imposta pelo governo do estado.

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Erros em aplicativos como o Leia Paraná, Inglês Paraná, Redação Paraná e Quizziz chamam atenção entre os relatos. Estudantes reclamam de perder o progresso nas avaliações e, por já terem iniciado a sessão, não conseguirem realizar a tarefa novamente. Além do transtorno, os bugs podem prejudicar a nota segundo os(as) estudantes.


POV: você é um estudante do Paraná

Os conteúdos vão além da sátira e do desabafo. Há vídeos ensinando a burlar plataformas como o Inglês Paraná e relatos de uso de inteligência artificial para criar textos para a plataforma Redação Paraná, o que reforça a posição crítica da APP em relação aos problemas de aprendizagem gerados pela plataformização.


Para 83% dos(as) professores(as) da rede estadual, as plataformas digitais não melhoraram o aprendizado, segundo dados da pesquisa “Plataformização da Educação”, realizada pelo Instituto IPO e a APP. Já 72,3% dos(as) educadores(as) afirmam que suas escolas não têm equipamentos em quantidade suficiente no laboratório de informática para atender às metas de uso estabelecidas pela Secretaria da Educação.

A carência estrutural é agravada pela exclusão de estudantes que carecem de recursos próprios para realizar as tarefas fora do ambiente escolar.

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Segundo 81% dos(as) educadores(as), os(as) alunos(as) utilizam dispositivos digitais particulares para cumprir as exigências quanto ao uso de plataformas. Mas o caráter diverso das condições socioeconômicas dos(as) estudantes torna inevitável a desigualdade de acesso.


Prejuízos à saúde

Também preocupa o número de publicações que relacionam as dificuldades com o aumento da ansiedade e outros sinais de prejuízo à saúde mental. Em todo o mundo, o debate sobre os danos à aprendizagem e à saúde causados pelo uso intensivo de tecnologias no ambiente escolar está em ebulição.


O órgão dos Estados Unidos que equivale à Anvisa, o CDC, aponta que o excesso de tempo de tela aumenta o risco de obesidade, problemas de sono e ansiedade, além de prejudicar o desenvolvimento cognitivo, aumentar a incidência de Alzheimer e reduzir a frequência de atividades físicas. Para a faixa etária que frequenta as escolas estaduais, o CDC recomenda no máximo duas horas por dia de exposição a dispositivos digitais.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orienta que crianças entre 6 e 10 anos utilizem de uma a duas horas por dia. Já as de 11 aos 18 não devem ultrapassar três horas diárias. Mas o governo do Paraná não só obriga os(as) estudantes à exposição contínua em sala de aula como também fora dela.



A política se expressa em imposições como a atribuição de parte significativa da nota ao uso do Quizziz, aplicativo de perguntas e respostas de múltipla escolha utilizado em lições de casa. A adesão é monitorada de perto pela Seed, que cobra metas e estimula a competição entre escolas com programas como o “Desafio Paraná”.


Plataforma zero

Em protesto contra o uso obrigatório de plataformas e para denunciar o assédio e a pressão no ambiente escolar, a categoria desligará as máquinas no dia 30 de agosto. A greve digital, chamada de Plataforma Zero, foi uma das deliberações da última Assembleia Estadual da APP, realizada no dia 12 de agosto.

A APP trabalha para abrir debate com a Secretaria da Educação sobre o tema e propor o estabelecimento de uma política que priorize a interação humana e a autonomia, mantendo as tecnologias como ferramentas que auxiliem o trabalho pedagógico e não como instrumentos de controle e substituição do papel dos(as) professores(as).

Em manifesto publicado na Edição Pedagógica do Jornal 30 de Agosto, a APP propõe a regulamentação do tempo de estudo e trabalho diante das telas, a oferta de plataformas públicas, o respeito à autonomia e à gestão democrática como princípios inegociáveis e uma educação universal, diversa, plural e inclusiva, em contraponto à sua determinação por interesses do mercado.

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