Sobrecarga de trabalho e desvalorização elevam casos de ansiedade e depressão entre educadores(as)

Sobrecarga de trabalho e desvalorização elevam casos de ansiedade e depressão entre educadores(as)

Competição exacerbada, descarte dos diferentes, exigências incompatíveis com a realidade e desvalorização estão entre as principais causas

Relatos de ansiedade, depressão e outros problemas relacionados a saúde mental são cada vez mais frequentes entre professores(as) e estudantes no Brasil.

O retorno presencial pós-pandemia e problemas na estrutura educacional (no Paraná, leia-se: plataformização, sobrecarga, desvalorização e ataques a direitos) são os principais fatores de adoecimento.

A professora do Departamento de Piscologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Marilda Gonçalves Dias Facci, explica que a principal causa está na superexploração do trabalho acompanhada da desvalorização do(a) educador(a).

“Há muito tempo a classe trabalhadora vem sofrendo com a exploração e com as condições de trabalho. No caso dos professores, nós temos realizados pesquisas que apontam que muitos professores estão adoecendo e quando a gente vai conversar com eles, fazer uma entrevista ou preencher um questionário, a gente vê o que está acontecendo e o que está provocando esses adoecimentos, como a precarização do trabalho e o pouco investimento na educação”, salienta Facci.

A constatação dos riscos à saúde mental no ambiente escolar é pauta constante da APP-Sindicato, atestada por estudos como a pesquisa “Novas formas de trabalhar, novos modos de adoecer”, realizada com 714 trabalhadores da educação pela CNTE.

“Trabalhadores hiperativos, competição exacerbada, descarte dos diferentes, exigências incompatíveis com a realidade, desvalorização das entregas, falta de autonomia, opressão burocrática, disponibilidade plena e flexibilidade total, tomando a máquina como ideal da produtividade humana, foram alguns dos sintomas verificados nesse novo modelo de trabalho”, diz trecho do estudo, que teve como objetivo central conhecer os impactos do trabalho remoto na saúde emocional nos trabalhadores e nas trabalhadoras em educação.

Danos físicos e psicológicos

No topo da lista de danos físicos relatados pelos(as) docentes estão problemas nas cordas vocais, distúrbios osteomusculares, lesão por esforço repetitivo e doenças do aparelho respiratório foram os danos físicos.

“Com a pandemia as condições de trabalho só pioraram porque o professor ou a professora teve que trabalhar por conta própria, utilizar os seus recursos e equipamentos, sua própria casa para dar aula”, reitera a pesquisadora.

Nos danos psicológicos, destacam-se o estresse crônico, ansiedade, depressão e síndrome de Burnout. Os danos sociais que se sobressaíram relacionam-se a sobrecarga, hiperatividade, solidão por ausência do coletivo e assédio moral.

Com sair desta

A Dra. Marilda defende ainda que é importante fazer um trabalho coletivo para ajudar a saúde dos professores e professora, tanto física como psicológica.

“No espaço da sala de aula, nós da psicologia podemos ajudar bastante porque nós podemos criar espaços de acolhimento, de escuta, espaço onde a gente junte os professores em grupo e eles com auxílio de psicólogos, equipe pedagógica e assistente social, de pensar em estratégias para enfrentar toda essa situação de sofrimento”.

O estudo também aponta algumas recomendações, como aprimorar processos de escuta, atuar no chão da escola, elencar as carências nas organizações do trabalho, estabelecer estruturas mínimas de tecnologia, definir cursos necessários, entre outras.

Alunos(as) também enfrentam crise

Estudos revelam que com a pandemia e as novas formas de ensinar, impostas pela necessidade de distanciamento social, geraram isolamento e solidão também entre alunos.

Essa realidade ganhou um novo elemento com o retorno das aulas presenciais. Em abril deste ano, por exemplo, três casos de crise de ansiedade chamaram atenção em Recife, no qual 26 estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Ageu Magalhães, em Casa Amarela, Zona Norte da capital, passaram mal com falta de ar, tremor e crise de choro.

Para a psicóloga, se o professor está adoecido, com os alunos também não é diferente. Ela diz ainda que tem realizado pesquisa com alunos de universidades de psicologia em relação a ensino remoto e, o resultado aponta ainda que, os alunos afirmam ter “um sentimento de insegurança”, de não saber até que ponto o conhecimento que eles tiveram nos últimos dois anos está realmente preparando-os profissionalmente.

“É esse sentimento que as crianças têm, dois anos afastados da escola. O professor sofre porque quer ensinar e o aluno sofre porque quer aprender. Sofre os dois, professor e aluno”, finaliza a professora e psicóloga.

Editado de: CNTE

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