Retorno às aulas presenciais com vacinação e garantia da efetivação das condições estruturais para a volta

Retorno às aulas presenciais com vacinação e garantia da efetivação das condições estruturais para a volta

Por Hermes Silva Leão*

Foto: Divulgação

Já são mais de 20 mil mortes e 900 mil infectados(as) pela COVID-19 no Paraná. Uma verdadeira tragédia que não nos pode ser indiferente. A taxa de ocupação de leitos exclusivos para COVID-19 de UTI/SUS para adultos é superior a 90% em todas as regiões do estado (conforme Boletim da SESA de 19/4/2021). Muitos de nós tivemos familiares e amigos(as) que faleceram em decorrência da COVID-19, o que nos afeta profundamente. No memorial dedicado aos professores(as) e funcionários(as) de escolas mortos pela COVID-19, aparecem mais de 100 nomes (https://memorial.appsindicato.org.br/).Vidas dedicadas à educação que se perderam. A desejada vacinação está longe de ser uma realidade para a população. Até o momento (19/4/2021, segundo dados do portal G1) a população vacinada foi de apenas de 12,6% no Brasil e um pouco menos no Paraná, 12,4%. O governo estadual não adotou, em tempo, as medidas sanitárias que pudessem controlar a circulação do vírus no estado. O plano de vacinação estadual restringe-se a replicar o plano nacional. As tratativas para vacina Sputnik V com coparticipação das agências de pesquisa do Paraná não avançaram. Além disso, não tem feito esforços, como faz outros estados, para adquirir número maior de vacinas com laboratórios estrangeiros.

Abrir as escolas nesse momento é pôr em risco a vida dos(as) estudantes, professores(as), funcionários(as) de escola e a vida de pais, mães e responsáveis. É contribuir para o aumento de casos e, infelizmente, de mortalidade. Escolas no estado, que mesmo sem abrir para estudantes, durante um curto retorno para a distribuição de aulas e semana pedagógica, apresentaram surto de COVID-19. Imaginem o que acontecerá com a circulação de meio milhão de pessoas por dia nesses estabelecimentos.

A circulação e aglomerações causadas pelo retorno às aulas certamente impactarão no aumento de casos, como foi no caso de Manaus, alertado pelo pesquisador Lucas Ferrante et all em artigo publicado em 7/8/2020 na revista Nature Medicine (Brazil’s policies condemn Amazonia to a second wave of COVID-19) e na nota técnica do INPA ao MPAM (Avaliação e diretrizes para tomada de decisão frente a pandemia da COVID-19 em Manaus). Estudos feitos por pesquisadores(as) da INPA/UFMG/UFAM/UFSJ em 11 das principais cidades do Paraná (Curitiba, Ponta Grossa, Guarapuava, Cascavel, Francisco Beltrão, Toledo, Foz do Iguaçu, Maringá, Londrina, Paranavaí e União da Vitória) e que foi apresentado Lucas Ferrante (INPA) na Frente Parlamentar do Corona vírus da ALEP, no dia 19/4, indicam que não é hora do retorno às aulas.

Não há garantias de não contaminação. Têm-se falado muito de protocolos e que seriam a garantia para a abertura. No entanto, as estruturas de nossas escolas e as condições sanitárias estabelecidas não são garantias de um retorno seguro. Vejamos:

– a falta de ventilação suficiente nas escolas;

– os cuidados com o manuseio e troca de máscaras pelos(as) estudantes;

– o distanciamento social exigido (de 1,5 m) à(aos) estudantes que estão a meses sem se ver ou se tocar;

– as gotículas de saliva, de espirros ou tosse que contém COVID-19 podem ficar suspensas no ar por até 4 horas e viajam a distâncias superiores a 1,5 m;

– a higienização de ambientes comuns, que deve ser semelhante o que se faz nos hospitais, postos de saúde e UPAS, não é tarefa fácil e exige todo um procedimento de equipes especializadas, algo que nossos(as) funcionários(as) de escola não foram preparados(as) para realizarem;

– a maioria dos colégios não possuem o número suficiente de funcionários(as) nem para atender  as demandas em situações normais do dia a dia escolar, imagine numa situação de excepcionalidade pandêmica;

– os banheiros dos colégios (espaço altamente contaminante), quando em bom estado de uso, precisam de higienização constante;

– algumas medidas de controle na entrada, como a aferição de temperatura, não funcionam em 100% dos casos pela ação diferenciada do vírus na fase inicial de incubação ou em situações de pessoas assintomáticos(as) (e as crianças, adolescentes e jovens apresentam um número altíssimo de assintomáticos(as));

– os municípios não oferecerão transporte escolar e os(as) que precisarão utilizar transporte público urbano (ônibus) estão sujeitos a um alto grau de contaminação pela circulação do vírus em um ambiente de aglomeração.

Mesmo se garantíssemos todos os protocolos, o que é impossível, há aglomeração na entrada e saída dos estudantes das escolas e no deslocamento, onde não existem protocolos seguros e que podem expor as crianças, adolescente e jovens à contaminação. Serão 500 mil pessoas entre estudantes, professores(as) e funcionários(as) circulando diariamente em todo estado.

Quem arriscaria a vida seu/sua filho(a) sabendo destas condições? Além disso, estaria se expondo e expondo a contaminação outros(as) familiares, muitos destes(as) familiares são pessoas mais velhas ou com doenças crônicas. O mesmo vale para professores(as) e funcionários(as) de escola e seus/suas familiares que estariam submetidos(as) a este ambiente.

Sabemos que há muitos desafios que precisam ser superados no campo educacional. A a pandemia escancaro-os. O aumento das desigualdades educacionais, que reflete o fosso histórico e estrutural das desigualdades sociais, afeta de forma brutal as camadas mais pobres. O  retorno das aulas numa condição de pandemia cujo resultado perverso tem sido empobrecimento populacional, resultado da ausência de políticas sociais, só aumentará o grau de contaminação entre os mais pobres, o que tornará o fosso das desigualdades ainda mais fundo.

Não somos contrários a volta presencial das aulas. É o que mais desejamos. Anos de formação somados aos anos de atuação que muito de nós profissionais da educação temos, nos fazem desejosos de retornarmos ao ambiente escolar. Amamos o que fazemos e é no chão da escola que nos sentimos bem e nos realizamos profissionalmente. Mas é preciso, para além de que as condições protocolares de segurança sanitária estejam efetivamente garantidas, a remissão da pandemia e que ocorra a vacinação dos(as) trabalhadores(as) em educação de imediato.

**Hermes Silva Leão, pedagogo e professor de Educação Física da Rede Estadual do Paraná e presidente da APP-Sindicato.