Resultado do Ideb é como um ‘museu de grandes novidades’, opina educador

Mérito da melhora nos índices deve ser dado aos professores, diz Daniel Cara

Foto: Agência Brasil

A divulgação, nesta terça-feira 15, do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), foi comemorado por alguns governadores como um indicativo de que o País caminha, a passos lentos, para um futuro consolidado de melhores índices na educação básica.

Porém, o crescimento dos índices sem atingir metas é comparado a “um ‘museu de grandes novidades’, como dizia Cazuza”, opina o educador e membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação Daniel Cara.

Medido a cada dois anos, o Ideb é o principal indicador de qualidade da educação brasileira. O índice registrado nos anos iniciais no país passou de 5,8 em 2017 para 5,9 em 2019, superando a meta nacional, de 5,7, considerando tanto as escolas públicas quanto as particulares.

Nos anos finais do ensino fundamental, do 6º ao 9º, avançou de 4,7 para 4,9. No entanto, ficou abaixo da meta fixada para a etapa, 5,2. No ensino médio, passou de 3,8 para 4,2, ficando também abaixo da meta, que era 5.

Apenas Goiás conseguiu atingir a meta estipulada há dois anos, e os índices apontam para um problema que se aprofunda ao longo da trajetória dos estudantes.

Em entrevista a CartaCapital, Daniel Cara afirma que isso demonstra como a educação, apesar do esforço contínuo dos professores dentro e fora do período da pandemia, não consegue sustentar ao longo dos anos os avanços que anteriormente conseguiu atingir.

“A gente patina e perde a qualidade do esforço porque não se faz investimento dedicado na maioria das condições nas escolas. São medidas temporárias, mas isso não sobrevive ao cotidiano, e o cotidiano só muda quando o ambiente for mais adequado para o aprendizado, incluindo melhorar a remuneração dos profissionais da educação”, diz Cara.

Leia a entrevista completa:

CartaCapital: Os governos têm comemorado aumentos nos índices do Ideb. O que você acha disso? É possível comemorar sem ter atingido uma meta? 

Daniel Cara: Os governadores são os que menos podem comemorar, pois muitos deles, inclusive, vieram de processos de reeleição e os resultados são muito baixos. Só Goiás cumpriu a meta, e a gente em Goiás tem um fenômeno muito parecido com o RJ: uma ascensão artificial que não deve se sustentar.

Ao longo do tempo, vários gestores que não entendem nada de educação se especializaram em aumentar o Ideb. Você procura constituir turmas, desestimula alunos a participarem da prova da Prova Brasil, melhora o fluxo dentro da rede. Ao que tudo indica, em Goiás, a subida é inexplicável, mas teria que se analisar o caso com calma para ser responsável.

O ponto concreto é que nenhum estado cumpriu a meta do ensino médio, sete cumpriram a dos anos finais do ensino fundamental e é sempre importante lembrar que o Ideb mede Ideb, e não qualidade. Se existe alguém que quem tem que comemorar são os professores, porque são eles que enfrentam condições péssimas e mesmo assim mostram resultados.

Outro aspecto é que os dados do Ideb não são dos governadores que não estão em processo de reeleição, mas sim dos professores e de estratégias de gestão de governos anteriores. Educação não é uma corrida de 100 metros em que você consegue obter grandes avanços em um ano. É um processo complexo que envolve uma série variáveis e precisa de estabilidade para que se realize.

O Ideb que irá analisar o ano de 2020 deve vir cheio de desafios, mas, antes disso, quais serão os pontos principais para ficarmos de olho nos próximos anos? Por qual caminho seguir para ter uma melhora concreta? 

A gente tem que continuar olhando para o Plano Nacional de Educação (PNE). A postura de muita gente é que o plano está sendo descumprido, mas, sendo assim, vamos abandoná-lo? A lei está certa, a execução das leis é que está equivocada. A gente precisa ter como referência o PNE e a Constituição. Nós tivemos uma vitória gloriosa com a aprovação do Fundeb, vencendo batalhas contra as fundações e as mídias empresariais.

Claro que a educação tem um prejuízo enorme com a pandemia, mas o que vai diferenciar os países é muito mais o que vem depois do que o que acontece durante a pandemia.

O Brasil está indo mal no processo de tentativa de controle da Covid-19 e estamos sofrendo demais por conta da educação, que é prejudicada pelos erros na economia e saúde. É uma área mais frágil porque sofre mais com sub-investimento, é onde se expressa de forma mais clara a desigualdade.

O segredo vai ser o que fazer quando for seguro o retorno. A prioridade do País é construir condições para um retorno seguro. No caso da educação, é preciso manter os vínculos com os alunos e alimentação do ano letivo possível, e os professores estão fazendo isso com primazia – eu nunca vi uma mobilização tão grande de professores para enfrentar todas as dificuldades, principalmente com gestores que desconhecem a dificuldade pedagógica.

Quando forem várias as condições para o retorno, aí a gente vai ter que fazer um trabalho grande de educação integral, caminhar para fazer com que o ano de 2020 seja unido ao ano de 2021. Essa é uma ideia antiga, em março já se falava disso.

Quais pontos da desigualdade mostrada pelo Ideb em relação às escolas públicas e privadas devem ser considerados?

Os dados do Ideb são dados de média – mas, mesmo nas médias, a gente verifica a desigualdade. A rede privada tem um desempenho assim [também abaixo da meta] porque as pessoas pautam a rede privada do jeito que elas conhecem. Em São Paulo, apenas 15 escolas, mais ou menos, que são de alto custo, têm um ótimo rendimento. O resto das escolas são fracas, a diferença é muito pequena em relação ao aprendizado.

O que acontece é que a média em alguns locais é alta porque existem algumas escolas de alto nível, mas as desigualdades entre rede pública e privada são mais explicadas pela renda e desigualdade das famílias do que pelo o que entrega a escola. O problema é mais complexo do que a média do Ideb consegue aferir.

Nesse meio, como o Fundeb e o Custo Aluno Qualidade [CAQ], que você defendeu, podem ajudar na melhoria do cenário?

Se você melhorar o padrão das escolas, na prática, as escolas públicas vão ficar tão boas ou melhores do que muitas privadas. O que diferencia as escolas públicas e privadas hoje não é o professor, salvas exceções, mas as condições. Não é um efeito imediato. Os estados que avançaram aproveitam o ciclo dos alunos que estavam antes sob melhores condições e chegaram no patamar de completar a prova.

A gente patina e perde a qualidade do esforço porque não se faz investimento dedicado na maioria das condições nas escolas. São medidas temporárias, mas isso não sobrevive ao cotidiano, e o cotidiano só muda quando o ambiente for mais adequado para o aprendizado, incluindo melhorar a remuneração dos profissionais da educação.

Em termos pedagógicos, de didática e neurociência, todo aluno é capaz de aprender, e a capacidade de aprendizado humana ainda não teve um limite. A educação é resultado de engajamento. Quanto maior for o engajamento dos atores do processo educativo – professores, estudantes, familiares, gestores – e quanto maior for o engajamento pautado na ciência da educação, especialmente na pedagogia, o resultado tende a ser sempre bom. Essa é a maravilha da capacidade humana.

Qual índice mediria de fato a melhora na educação? 

O Ideb é como se fosse um semáforo, e nenhum estado está na luz verde. Alguns atingiram a luz amarela e outros continuam com a luz vermelha. Esses estados que avançaram e descumpriram a meta continuam com a luz vermelha. Mesmo diante do fato de que a maioria das metas não estão sendo cumpridas, a qualidade da educação continua baixa.

A minha impressão é que a própria opinião pública já incorporou, o Ideb já não informa mais nada de novo. Não vejo nenhum gestor público perdendo o emprego por não cumprimento de meta, o que acontecia em algum grau com níveis de pressão no passado. São avaliações que servem mais para um debate enviesado.

O Brasil teve um investimento mais sólido no ensino fundamental desde o Paulo Renato [governo FHC], com programas mais bem estruturados a partir do governo Lula, o que gerou uma política de educação para os anos iniciais que é melhor elaborada do que para o ensino médio, mas isso não se sustenta.

Com isso, o Ideb é um indicador que demonstra, como outras análises, que o Brasil não mantém o fôlego. A gente sabe trabalhar ‘bem’ com as crianças, mas não com adolescentes. Isso revela muito o que é o Brasil, porque os adolescentes são cidadãos cada vez mais autônomos, que sofrem mais pelas pressões econômicas, que já estão na situação de começar a implementar o seu projeto de vida.

Fonte: Carta Capital