Ratinho obriga até servidores(as) com conjuntivite e dor crônica a trabalhar

APP-Sindicato cobra soluções do governo para o atendimento da Perícia Médica; situação que já era ruim, piorou durante a pandemia do novo coronavírus

Professora Débora tem dores crônicas e toma morfina, mas governo tem recusado seus atestados médicos - Foto: Arquivo pessoal

O professor José de Souza Filho (51), de Cianorte, recebeu um atestado médico de afastamento do trabalho por 15 dias, para se recuperar de uma uma conjuntivite alérgica e do agravamento de um glaucoma. Para sua surpresa, o governo Ratinho Junior autorizou apenas sete dias. Assim como ele, outros(as) servidores(as), de todas as regiões do Paraná, estão procurando a APP-Sindicato para denunciar dificuldades com a Perícia Médica do funcionalismo estadual.

De acordo com o secretário de Saúde e Previdência da APP-Sindicato, professor Ralph Charles Wendpap, o atendimento já era ruim e piorou neste período de pandemia, agravando os problemas de saúde da categoria. “Estão demorando para dar resposta, não concedendo o tempo de afastamento prescrito pelos médicos e negando pedidos de readaptação com a alegação de que neste período as atividade podem ser realizadas de forma remota, mas isso não é verdade”, comenta.

O dirigente explica que é necessário analisar cada caso, mas que, provavelmente pela falta de profissionais, a Perícia estaria aplicando respostas iguais ou semelhantes para todos os pedidos. “Não é culpa nossa (a falta de funcionários na Perícia Médica) e o governo precisa resolver. Não é justo que soframos pela incompetência do governo”, disse.

Para Wendpap, a situação é desumana. Ele informa que os(as) trabalhadores(as) da Educação estão recebendo assessoria jurídica do sindicato e que uma reunião entre a APP-Sindicato e a chefia da Perícia Médica foi agendada para a próxima segunda-feira (25), com o objetivo de cobrar soluções.

Dar aula com conjuntivite

“Eu me sinto revoltado e desrespeitado, pois normalmente não obtemos os dias necessários para o tratamento, conforme as orientações médicas prescritas, e, ao retornar às atividades antes do complemento do tratamento, pode-se ter um prejuízo maior na saúde”, conta o professor José de Souza Filho, que tem 30 anos de carreira.

Ele também está preocupado porque o problema que possui nos olhos provoca sensibilidade à luz e, segundo ele, os sintomas têm piorado com a necessidade de utilizar o computador para trabalhar no ensino a distância imposto pelo governo. De acordo com o site do médico Drauzio Varela, se o glaucoma não for tratado adequadamente, pode levar à cegueira.

Dar aula com dores crônicas

No caso da professora Débora Timoteo de Oliveira, de Curitiba, que faz tratamento para conter dores crônicas, a Perícia Médica negou pedido de afastamento e de readaptação e ainda determinou seu retorno ao trabalho. Como não conseguiu realizar as atividades exigidas, ela pediu férias para conseguir tratar da sua saúde.

“As dores estão constantes e piorando. O médico pediu pra que eu voltasse a tomar morfina e me receitou algumas injeções. Como eu não consigo continuar trabalhando, eu pedi férias. Eles me concederam, mas eu acho injusto, sabendo que é meu direito ter o tratamento de saúde”, desabafou a professora.

No processo enviado ao governo, a professora Débora anexou uma declaração onde seu médico, especialista em ortopedia e traumatologia descreve seu histórico de saúde e declara que a paciente “deverá ser readaptada para outra função que não exija esforço físico de nenhuma espécie”.

Segundo a professora, seu problema de saúde surgiu após uma atividade, na escola, que causou uma lesão na coluna e o enfraquecimento dos membros inferiores. Depois de duas cirurgias, no início deste ano ela iniciou um tratamento particular em busca de melhoras.

Débora afirma que Secretaria de Estado da Educação também retirou suas aulas extraordinárias, reduzindo seu salário e criando outra preocupação, já que seu tratamento custa cerca de R$ 1.300,00 por mês. “Eu sofri uma defasagem muito grande no meu salário. Com essa perda, como eu vou continuar meu tratamento?”, perguntou.

Governo prejudica tratamento médico de servidores(as) – Foto: Pixabay

Dar aula com depressão

Em Umuarama, a professora Rosemar Aparecida Alves (53) também enfrenta problemas. Com a voz embargada e até chorando em alguns momentos da entrevista, ela relatou ter sido diagnosticada com depressão e que está ansiosa devido a incerteza, a demora e a falta de assistência do governo. Segundo a professora, seu médico atestou a necessidade de se afastar do trabalho por mais 60 dias. Ela diz que protocolou o pedido no dia 12 de maio, mas ainda não obteve resposta.

“Eu amo dar aula, mas eu não sei o que acontece. De repente começa me dar uma coisa, assim, e aumenta a minha pressão, me dá uma tremedeira. Já passei muito mal e muito medo. Fico deprimida também porque não consigo voltar a trabalhar”, conta a professora de História, com 13 anos de carreira. Ela diz que enfrenta o problema de saúde desde 2015 e não sabe o que vai fazer caso seu atestado seja rejeitado.

Ratinho prometeu

Eleito com o discurso de respeitar e valorizar os servidores públicos do Paraná, os projetos e ações do governador Ratinho Junior tem retirado direitos e, na avaliação da APP-Sindicato, aumentado o adoecimento do funcionalismo público.

Além de ter os pedidos negados, servidores(as) de várias cidades do interior precisam viajar centenas de quilômetros para conseguir atendimento. Em 2019, Ratinho prometeu solucionar o problema, mas até hoje, as regiões de Apucarana, Campo Mourão, Cascavel, Cianorte, Jacarezinho, Paranaguá, Paranavaí e União da Vitória permanecem sem postos de atendimento da Perícia Médica.

A demanda faz parte da pauta de reivindicações dos sindicatos que representam os(as) servidores(as) públicos(as) do Paraná, que inclui a realização de novos concursos públicos para contratar peritos médicos, a instituição de uma comissão de saúde e a realização de conferência estadual sobre a saúde do servidor.