Um projeto social coordenado por um professor da rede estadual de ensino do Paraná tem proporcionado acolhimento e dignidade para migrantes em Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba. A iniciativa, realizada pela Associação HESED Transformando Vidas, em parceria com o Educare, um coletivo de professores(as), atende atualmente cerca de 40 jovens e adultos. O sucesso do projeto expõe também o descaso do poder público no atendimento de demandas desta população. Mais de 80 inscritos(as) aguardam na fila de espera por uma oportunidade para frequentar as aulas.
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A maioria dos(as) migrantes atendidos(as) é de origem venezuelana, haitiana e cubana. “Ajudar esses alunos a se comunicarem melhor no cotidiano significa municiá-los para acessar de forma autônoma o posto de saúde, matricular seus filhos em uma escola regular, buscar vagas de trabalho e participar com segurança da vida em comunidade”, destaca o professor Rafael da Costa que, além de coordenar o projeto, é secretário de Igualdade Racial e Combate ao Racismo do Núcleo Sindical Metronorte da APP-Sindicato.
A segunda turma do projeto iniciou as aulas no mês de abril e terá duração de seis meses. As atividades são conduzidas por uma equipe multidisciplinar voluntária que, além do ensino da língua portuguesa, trabalha na promoção de integração cultural e inclusão social. Para consolidar a estrutura pedagógica construída pela equipe, a coordenação do projeto está em tratativas avançadas com organismos internacionais para estabelecer parcerias estratégicas e viabilizar uma futura certificação oficial aos(às) alunos(as).
O professor Rafael também afirma que o aperfeiçoamento do corpo docente é um pilar da iniciativa. Ele relata que, atualmente, integrantes do projeto participam de uma formação articulada com especialistas na Universidade Federal do Paraná (UFPR), estreitando laços institucionais e aprimorando as ferramentas aplicadas nas salas de aula de Piraquara.
Com base na sua bagagem prática no projeto, Rafael defende que esse acolhimento linguístico e cultural sirva de modelo para a educação pública e seja transformado em uma política permanente no Estado. “Entendemos que o estado do Paraná deveria implementar na rede básica um programa semelhante ao que acontece na UFPR, chamado ‘Ano Zero'”, propõe o professor.
A proposta prevê um período de cerca de seis meses de adaptação intensiva para o(a) estudante recém-chegado(a), contando com o suporte de mediadores(as), inclusão digital e orientações sobre direitos antes da inserção definitiva na grade regular de ensino.
Omissão do poder público
A necessidade de uma estrutura voluntária desse porte revela lacunas profundas do poder público. O educador observa que a grande procura pelas turmas comunitárias e o crescimento da lista de espera acentuaram-se após o encerramento de salas de apoio e turmas descentralizadas que atendiam migrantes matriculados(as) na rede estadual de ensino por meio do Projeto de Monitoramento e Acompanhamento (PMA).
O professor Rafael ressalta que o desfalque gerou graves queixas da categoria, recebidas pelo Núcleo Sindical Metronorte. “O PMA não tinha uma finalidade exclusiva para migrantes, mas em algumas escolas, mesmo que de maneira precária e insuficiente, ainda existia algum tipo de atendimento”, pontua. “Com o fechamento dessas turmas, muitos migrantes da região ficaram sem qualquer suporte básico para áreas humanas e de vida.”
Segundo o professor, atualmente, o modelo vigente nas escolas da rede estadual insere o(a) estudante migrante diretamente na sala de aula regular, sem etapas prévias de nivelamento linguístico ou mediação cultural. Na avaliação do docente, a falta de uma transição estruturada tem provocado isolamento pedagógico e, consequentemente, o avanço da evasão escolar.
Para Rafael da Costa, a realidade evidencia como a ausência de políticas estatais robustas acaba sobrecarregando o terceiro setor e a dedicação dos(as) próprios(as) professores(as) voluntários(as). “A verdade é que o projeto acaba tendo que ‘tapar um buraco’ e assumir uma responsabilidade de acolhimento linguístico que foi inteiramente negligenciada pelo Estado do Paraná”, declara o educador.
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