Prioridade à interação humana e não à tecnologia coloca dois colégios brasileiros entre melhores do mundo APP-Sindicato

Prioridade à interação humana e não à tecnologia coloca dois colégios brasileiros entre melhores do mundo

Escolas públicas de Minas Gerais e Ceará se destacam com propostas opostas às do Paraná, que desvaloriza a autonomia docente e impõe a plataformização nas escolas

O envolvimento com a comunidade e a atenção à saúde mental dos(as) estudantes, sempre priorizando a interação humana no lugar da tecnologia, colocaram duas escolas públicas brasileiras entre as finalistas de um prestigiado prêmio internacional, o “Melhores Escolas do Mundo”, da T4 Foundation.

A Escola Municipal Professor Edson Pisani, de Belo Horizonte, e a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Joaquim Bastos Gonçalves, de Carnaubal (CE), concorrem nas categorias Colaboração Comunitária e Apoiando Vidas Saudáveis. 

As duas finalistas implantaram concepções opostas às do Paraná, onde a educação tem sido encarada como um grande negócio, com a imposição de plataformas digitais e o desrespeito à autonomia pedagógica dos(as) professores(as). 

O Prêmio Melhores Escolas do Mundo foi criado em 2022 e neste ano há a modalidade Escolha da Comunidade, em que as pessoas podem votar em uma das 15 escolas selecionadas nas cinco categorias em disputa. https://vote.worldsbestschool.org/vote/entries

Os(as) vencedores(as) de cada categoria serão escolhidos por uma banca especializada e anunciados em novembro. As categorias são Ação Ambiental; Inovação; Superação de Adversidades; Colaboração Comunitária e Apoiando Vidas Saudáveis. Cada vencedor(a) receberá US$ 50 mil.  

A Escola Municipal Professor Edson Pisani está localizada no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, uma das maiores e mais antigas favelas do Brasil. A unidade tem uma série de ações para melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem na vizinhança, como organizar a coleta de lixo e até articular para criar uma linha de ônibus até o metrô. 

“As pessoas que moram aqui têm que lutar muito para ter inclusão e aí eu acho que já entra a importância da nossa escola aqui dentro dessa favela”, diz a diretora Eleusa Fiuza. “Não somos uma escola separada dessa comunidade, a gente é inserida no espaço, é uma escola que extrapola seus muros”, acrescenta.

A promoção da saúde mental dos estudantes é destaque na Escola Joaquim Bastos Gonçalves. Cerca de 6% dos(as) estudantes foram diagnosticados com problemas emocionais graves, incluindo automutilação. O projeto identifica os(as) estudantes vulneráveis, oferece assistência de um psicólogo e ajuda a trabalhar as competências socioemocionais nas salas de aula. 

“A escola tem uma responsabilidade não apenas com educação, mas com a formação cidadã, com a parte social do aluno, com as emoções. Nossa escola formou praticamente toda a população de Carnaubal, que é uma cidade jovem”, diz o diretor da escola, Helton Souza Brito.

Prêmio  

O prêmio Melhores Escolas do Mundo (World’s Best School Prizes) foi criado pela T4 Education para compartilhar boas práticas que transformam a vida dos(as) estudantes e das comunidades onde as escolas estão inseridas. Nesta edição, 108 países participaram. 

“No momento em que o mundo procura enfrentar uma crise educacional cada vez mais profunda, essas escolas brasileiras excepcionais iluminam o caminho para um futuro melhor. Chegou a hora de os governos de todo o mundo ouvirem as suas vozes e aprenderem com a sua experiência”, diz o fundador da T4 Education e do World’s Best School Prizes, Vikas Pota.

Acerto

As indicações das escolas do Ceará e de Minas Gerais como finalistas do prêmio internacional confirmam o acerto do posicionamento da APP sobre a plataformização da educação no Paraná.

Pesquisa realizada neste ano mostra que os problemas causados pelo uso indiscriminado de tecnologias começam já na chamada de presença no início da aula.

O governo Ratinho Jr impôs a chamada por reconhecimento facial, com a promessa de que facilitaria a vida dos(as) professores(as). Nas salas de aula, o que se vê na prática é que a tecnologia atrapalha até que os(as) professores(as) saibam os nomes de seus alunos

O método digital, que consiste em uma fotografia da turma, dificulta memorizar os nomes e reduz o tempo de interação pessoal, já prejudicado pelo excesso de plataformas digitais impostas.

Outro problema grave do sistema é a dificuldade de reconhecer pessoas de pele escura. Com isso, estudantes negros e pardos podem acabar levando falta mesmo estando em sala de aula.

A APP defende uma política que priorize a interação humana e a autonomia, mantendo as tecnologias como ferramentas que auxiliem o trabalho pedagógico e não como instrumentos de controle e substituição do papel dos(as) professores(as).

Em manifesto publicado na Edição Pedagógica do Jornal 30 de Agosto, a APP propõe a regulamentação do tempo de estudo e trabalho diante das telas, a oferta de plataformas públicas, o respeito à autonomia e à gestão democrática como princípios inegociáveis e uma educação universal, diversa, plural e inclusiva, em contraponto à sua determinação por interesses do mercado.

Pesquisa

A pesquisa “Plataformização da Educação”, realizada pela APP-Sindicato e o Instituto IPO em julho deste ano com educadores(as) de todo o Paraná, aponta que apenas 16,9% dos(as) professores(as) da rede estadual avaliam que as plataformas tecnológicas melhoraram a aprendizagem dos(as) estudantes. Para 40,3%, a aprendizagem piorou. Já 42,7% disseram que os resultados não são positivos nem negativos.

A percepção dos(as) professores(as) da rede encontra eco no relatório “Tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, publicado pela Unesco, que aponta prejuízos à aprendizagem causados pelo uso excessivo de tecnologias na sala de aula.

Professores(as) identificam ao menos 20 aplicativos e programas utilizados nas escolas públicas paranaenses. Alguns apoiam o trabalho pedagógico e a gestão de sala de aula. Boa parte deles é de uso obrigatório. A adesão é monitorada de perto pelo governo, que cobra metas e estimula a competição entre escolas com políticas como o “Desafio Paraná”.

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