Pandemia de racismo: Covid-19 agravou disparidades raciais da saúde à educação

Pandemia de racismo: Covid-19 agravou disparidades raciais da saúde à educação

Em todas as áreas, população negra sofre com mais intensidade os impactos da Covid-19 e da desastrosa condução da pandemia pelo poder público

Foto: Midia Ninja

Negra, hipertensa, diabética e empregada doméstica. No dia 16 de março de 2020 veio a óbito Cleonice Gonçalves, uma das primeiras vítimas da Covid-19 no Brasil. Ela contraiu o vírus da “patroa”, que voltava da Itália para o Rio de Janeiro. Sua história é emblemática da tragédia que, 20 meses depois, contabiliza mais de 600 mil mortes no Brasil.

As vidas ceifadas em maior proporção são vidas pretas. No país, o risco de mortalidade por Covid-19 é 50% maior entre a população negra, apesar da taxa de incidência da doença ser superior entre brancos. Menos doentes, mais mortos. O dado é do relatório Health at a Glance 2021, da OCDE, publicado em novembro. 

Foto: Midia Ninja

Para além das doenças diretamente relacionadas ou que atingem em maior número a população negra, o racismo estrutural é chave para compreender a discrepância. Na saúde, a chaga se revela por uma maior dificuldade de acesso, pelo tratamento desigual dentro do SUS e pela invisibilidade no planejamento e implementação de políticas públicas.

À mercê de um governo negacionista, desconhecedor das questões raciais e da própria doença, o abismo se agiganta e reflete, também, na vacinação. Reportagem da Agência Pública de março deste ano aponta que, à época, negros(as) imunizados(as) com a primeira dose eram em 1,7 milhão contra 3,2 milhões – quase o dobro – de brancos(as).

Trabalho e exclusão

O racismo estrutural mata, mas também precariza, marginaliza, exclui e desemprega. Homens e mulheres negros(as) sentiram com mais potência os danos do isolamento e da redução do nível de atividade econômica durante a pandemia. Em tempos normais, já são maiores os obstáculos; negros(as) ganham menos e têm, frequentemente, inserção frágil e vulnerável.


De acordo com dados da PNAD contínua, analisados pelo Dieese, a proporção de trabalhadores(as) negros(as) que perdeu ou saiu do trabalho entre o começo de 2020 e o período da pandemia foi maior do que a dos não negros. Cerca de 15% dos(as) negros(as) nos primeiros três meses de 2020 estavam sem trabalho no segundo trimestre, diante de 10% dos não negros(as).

foto: Midia Ninja

Das 8 milhões de pessoas que perderam o emprego entre o 1º e o 2º trimestre de 2020, 6,3 milhões eram negros(as), o equivalente a 71% do total. 

Outros(as) fatores implicados(as) são mais complexos: em situação precária de moradia, sem possibilidade de aderir ao isolamento ou condições de adquirir equipamentos adequados para postos remotos, trabalhadores(as) negros(as) foram obrigados(as) a continuar a busca por ocupação diante da necessidade de sobrevivência, muitas vezes em longas travessias em transportes públicos.

O uso de transporte público, aliás, aumentou o estigma de categorias proporcionalmente mais ocupadas por negros(as), como o trabalho doméstico de Cleonice Gonçalves, cujo óbito abre esta matéria. Em sua maioria mulheres negras de baixa renda e escolaridade, estes(as) trabalhadores(as) foram considerados(as) um risco para a propagação da pandemia devido à exposição no trajeto até o trabalho, perdendo o serviço e ficando à míngua.

Educação fraturada

Outra consequência da pandemia que deixará profundas marcas, incluindo a ampliação das já imensas desigualdades, é a evasão escolar. Com suas famílias assoladas pelo desemprego e o desamparo, sem aulas presenciais nem equipamentos adequados ao ensino remoto, inúmeros(as) jovens e crianças se viram forçados(as) a abandonar os estudos para buscar fontes de renda.

Novamente, a balança pende contra os corpos negros. Levantamento do Banco Mundial demonstra que o percentual de crianças negras sem acesso a atividades escolares no Brasil chegou a 12,5% em novembro de 2020, praticamente o dobro das brancas, indígenas e asiáticas (6,4%).

Soma-se à evasão escolar os cortes orçamentários na educação por parte do governo Bolsonaro, a destruição de políticas como o FIES e proposital desorganização do ENEM, que dificultou o acesso para isentos(as) da taxa de inscrição. Em 2020, o ENEM registrou 771,8 mil candidatos(as) negros(as). A queda foi brutal em 2021: apenas 362,3 mil inscritos(as), representando 53,10% a menos.

Foto: Midia Ninja


Não há outro caminho: cabe à educação o papel de desconstruir as raízes do racismo estrutural, além de nivelar as chances e o acesso a oportunidades. A reversão desta pandemia de desigualdade depende de políticas públicas sérias, abrangentes e de longo prazo, concentrando investimentos em quem mais precisa: os(as) pretos e pretas do país.


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