O liberalismo não prevê distribuição igualitária de medicamentos

O liberalismo não prevê distribuição igualitária de medicamentos

Por Raphael Fagundes*

Foto: Divulgação

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, instou a comunidade internacional a tomar ações para garantir uma distribuição mais equitativa das vacinas contra o coronavírus e disse que o mundo está “à beira de uma catástrofe moral”, em meio ao processo desigual de imunização, destaca a notícia de O Globo.

Os jornalistas das grandes corporações midiáticas discutiram a questão como um fenômeno ético, sem nenhuma crítica ou expansão do tema (como é habitual), apenas corroborando o comunicado do diretor da ONU.

É muita hipocrisia da ONU, da mídia, dos maiores defensores do liberalismo, chocarem-se perante o fato de que membros da elite querer tomar a vacina, com empresários quererem vacinar seus funcionários na frente de outros cidadãos para manter a produção, e com o fato de os países europeus concentrarem as reservas de imunização, enquanto os países pobres ainda nem começaram a vacinar.

Qual seria a ética que vigora num modo de produção capitalista, com uma sociedade fundamentada na competição e no individualismo? Não há nenhuma crise ética, o que há é o que sempre houve: a desigualdade.

O capitalismo não foi desenvolvido para distribuir riquezas às pessoas que necessitam, muito menos remédios. Muito pelo contrário. A principal ideologia que fundamenta o capitalismo liberal é a meritocracia.

Quer ideologia mais hipócrita? Em uma sociedade em que uns tem privilégios, é possível falar em meritocracia?

Mas se trata de ética. Ao não distribuir as vacinas de acordo com as necessidades das pessoas, as indústrias farmacêuticas estão seguindo o princípio básico do capitalismo: aquele que paga mais tem acesso aos recursos.

Sempre foi assim, por que seria diferente agora? Esse é o princípio liberal capitalista. O sistema nos concede a liberdade. A partir daí, é cada um por si. A liberdade está acima da igualdade. Neste sentido, é impossível não haver desigualdade.

Uns vão dizer: “mas é constitucional o direito à saúde”. Os aspectos humanistas das constituições nos países capitalistas são formalidades. São constitucionais a educação, saneamento básico, moradia. Aliás, não estamos falando apenas da Constituição brasileira, mas de prerrogativas da ONU, tratados internacionais, emendas promulgadas pela UNESCO. No entanto, tudo isto é negado para grande parte da população dos países pobres.

Como mostra o filósofo Slavoj Zizek, ao analisar a ética de Joseph Stalin, a ética “trata da minha coerência comigo mesmo, da minha fidelidade aos meus desejos”. Stalin seguia sua ética, pois efetuava sua as ações a partir de princípios traçados. Inclusive, para Zizek, o stalinismo é demasiado moral, se entendermos a moral numa perspectiva nietzchiana, como a “simetria das minhas relações com os outros”.

Do mesmo modo, seria uma crise ética, Israel já ter começado a vacinar menores de 18 anos, enquanto os idosos dos países vizinhos ainda não foram? Acho que não. Isso é parte dos princípios do sistema capitalista. Há anos que os países europeus comem fartamente, esfregam comidas caras nos seus realities shows de gastronomia, enquanto que nas periferias da América Latina, Ásia e África, muitos não há o que comer.

É muita hipocrisia dizer agora que passamos por uma crise moral e ética. Como disse o professor Roberto Romano, “a ética de um povo pode ser excelente, mas ela também pode ser horrenda, pois trata-se do conjunto de hábitos, atitudes, pensamentos, formas culturais adquiridas durante longo tempo”. Ou seja, a ética da sociedade liberal é a horrenda, desenvolvida ao longo da história ocidental por meio do individualismo.

Não vivemos uma crise ética, pelo contrário, vivemos em seu período de esplendor. Presenciamos, na verdade, o apogeu da hipocrisia, já que esta é parte da ética liberal. Essa ética é representada pela ONU e pelos liberais que têm o direito de fala nos maiores veículos de comunicação, usados para a manutenção da (des)ordem atual.

*Raphael Fagundes é Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

Fonte: Revista Fórum