O Golpe Militar e as mentiras contadas no Brasil

O Golpe Militar e as mentiras contadas no Brasil

Por Hermes Silva Leão*

Submetido ao mando de Jair Bolsonaro, militar que deixou o Exército Brasileiro acusado de atos de indisciplina e deslealdade, o recém-empossado ministro de Estado da Defesa Braga Netto assinou a “Ordem do Dia Alusiva ao 31 de março de 1964”.

Esse documento é uma verdadeira afronta ao processo histórico e a sempre capenga democracia brasileira. A nota é carregada de mentiras, dentre elas a data precisa do evento, que foi 1 de abril e não 31 de março. A data foi distorcida para não ficar atrelada ao popular dia da mentira.

A Ordem do Dia deste ano começa com uma afirmação teórica de que os “eventos ocorridos há 57 anos, assim como todo acontecimento histórico, só podem ser compreendidos a partir do contexto da época”.

Como contexto da época, o texto afirma que, “A Guerra Fria, envolveu a América Latina, trazendo ao Brasil um cenário de inseguranças com grave instabilidade política, social e econômica. Havia ameaça real à paz e à democracia.” Mentira deslavada, toda a articulação golpista se deu por conta das propostas programáticas previstas nas Reformas de Base do Governo de João Goulart, o Jango, pela independência do Brasil nas relações internacionais que incomodava diretamente a banca imperialista estadunidense e sua dominação latino-americana.

A equivocada Ordem do Dia prossegue: “Os brasileiros perceberam a emergência e se movimentaram nas ruas, com amplo apoio da imprensa, de lideranças políticas, das igrejas, do segmento empresarial, de diversos setores da sociedade organizada e das Forças Armadas, interrompendo a escalada conflitiva, resultando no chamado movimento de 31 de março de 1964.”

A descrição lembra diretamente as mesmas articulações realizadas pela elite do atraso no atual período golpista brasileiro. Exatamente os mesmos setores citados neste documento que foram às ruas para derrubar o legítimo presidente Jango é algo possível de ser comparado com a metáfora do pato amarelo que arrastou uma parcela do povo brasileiro ao golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

Lógico que é preciso registrar que neste atual período a operação Lava Jato cumpriu papel central no golpismo que ainda permanece intenso no atual contexto conjuntural. O descalabro é vergonhoso: “As Forças Armadas acabaram assumindo a responsabilidade de pacificar o país, enfrentando os desgastes para reorganizá-lo e garantir as liberdades democráticas que hoje desfrutamos.” Que horror histórico! É mundialmente reconhecido o desastre da experiência da ditadura civil-militar no Brasil e nos demais países latino-americanos submetidos ao mesmo golpismo imperialista estadunidense. Chamar de garantias das liberdades democráticas um período marcado pela censura, sequestros, torturas, execuções com desaparecimento de centenas de corpos, aumento das desigualdades sociais, endividamento público do país, carestia com aumento da inflação, além das denuncias de corrupção?

A nota traz também um balanço sobre o papel da Lei da Anistia: “Em 1979, a Lei da Anistia, aprovada pelo Congresso Nacional, consolidou um amplo pacto de pacificação a partir das convergências próprias da democracia. Foi uma transição sólida, enriquecida com a maturidade do aprendizado coletivo. O País multiplicou suas capacidades e mudou de estatura.” Vomitei! Esse amplo pacto foi mais uma ilusão.

Não responsabilizou os criminosos do regime e abriu espaço para que nos dias de hoje tenhamos de ver a ‘celebração’ dessa herança golpista que continua capturando permanentemente a democracia brasileira. A ditadura civil-militar entregou o país para a chamada década perdida que foram os anos 1980.

O balanço daquele período é todo negativo, seja do ponto de vista econômico, cultural, científico, educacional, ambiental e político. A nota conclui aludindo que: “A Marinha, o Exército e a Força Aérea acompanham as mudanças, conscientes de sua missão constitucional de defender a pátria, garantir os poderes constitucionais, e seguros de que a harmonia e o equilíbrio entre esses poderes preservarão a paz e a estabilidade em nosso País”.

Com a palavra, o general Eduardo Villas Boas, que em 03 de Abril 2018, ameaçou o STF às vésperas do julgamento de pedido de habeas corpus da defesa de Lula contra a prisão eminente. Por 6 votos a 5, Lula foi entregue à sanha golpista de Sergio Moro, que imediatamente expediu ordem de prisão ao ex-presidente.

No livro: General Villas Boas: Conversa com o comandante”, lançado pela Editora FGV, o general admite que a nota lançada na noite da véspera do julgamento no STF foi trabalhada no alto comando das forças armadas. Segundo ele tinha o objetivo de alertar o STF e não ameaçar! Malditos sejam golpistas, que mesmo diante do negacionismo que coloca milhares de vidas a perder por efeito da pandemia se mantêm atrelados ao poder. Esses setores das forças armadas que chafurdam na lama do governo miliciano de plantão são dignos da nossa vergonha e repulsa.

Hermes Silva Leão é professor da rede pública estadual e presidente da APP-Sindicato

Fonte: Brasil de Fato