“O fim do professor”: pesquisadores(as) da UFPR fazem alerta sobre plataformas impostas pela Seed

“O fim do professor”: pesquisadores(as) da UFPR fazem alerta sobre plataformas impostas pela Seed

Em artigo, especialistas também denunciam que a gestão Ratinho Jr. tem pressa em formar alunos(as) superficialmente alfabetizados(as)

Já são mais de 20 plataformas e aplicativos educacionais impostos pela Secretaria da Educação do Paraná a professores(as) e estudantes - Foto: reprodução

Um artigo elaborado por pesquisadoras e graduandos(as) do curso de Letras da Universidade Federal do Paraná (UFPR) elenca questões preocupantes sobre as plataformas digitais impostas pelo governo na rede estadual de ensino. As conclusões referendam o posicionamento e a luta que a APP-Sindicato tem pautado sobre esse tema.

O trabalho apresenta uma análise preliminar sobre as plataformas Leia Paraná e Redação Paraná. Com base em informações divulgadas pela Secretaria de Estado da Educação (Seed) e relatos de professores(as) da rede, os(as) especialistas(as) concluíram que a iniciativa do governo promove o fim da função do(a) professor(a) e uma formação superficial dos(as) estudantes.

“Essas constatações básicas e preliminares sobre o Leia Paraná comprovam mais uma vez o fim: da função do professor (…); da formação de um leitor crítico e competente, que aprenda a pensar e questione os caminhos da própria educação”. O texto também afirma que a gestão de Ratinho Jr. “tem pressa em formar alunos superficialmente alfabetizados que saibam usar um computador”.

Já são mais de 20 plataformas e aplicativos educacionais impostos pela Secretaria da Educação do Paraná a professores(as) e estudantes

Acervo reduzido

Sobre o Leia Paraná, ferramenta que segundo o governo visa “fomentar o gosto pela leitura”, o artigo destaca que a apresentação sequer menciona o(a) professor(a). “Quem tem objetivo é a ‘ferramenta’, que faz tudo sozinha sem necessidade de professor: basta usá-la e o ‘gosto pela leitura’ e a ‘competência leitora’ se desenvolvem”, diz o texto.

Também chamou a atenção dos(as) pesquisadores(as) o fato de que o acervo oferecido para todos(as) os(as) estudantes do estado é composto de apenas 60 títulos, “quase nenhum de literatura portuguesa, africana ou indígena, nem de poesia ou teatro, contrariando o destaque dado à diversidade e aos gêneros literários nas OCNs e na BNCC, por exemplo”.

Outra falha grave apontada é a de que, apesar de ter uma categoria denominada de “literatura e vestibular”, não estão presentes nenhuma obra da lista da UFPR. Por outro lado, a plataforma disponibiliza vários títulos de autoajuda, os chamados “best-sellers”.

“Os ‘exercícios’ são corrigidos automaticamente pela plataforma. Isso significa que são de múltipla escolha, do tipo certo ou errado, verdadeiro ou falso: ‘Vovô viu a uva. O que vovô viu?’ Como se avalia ‘análise crítica’ com apenas uma resposta correta?”, questionam os especialistas.

Leia Paraná tem apenas 60 títulos, nenhuma obra da lista do vestibular da UFPR, mas oferece vários títulos de autoajuda

Correção falha

Quanto ao Redação Paraná, o governo diz que a ferramenta “oferece aos estudantes oportunidades de praticar a digitação necessária para o mundo do trabalho” e que o objetivo é treinar os(as) estudantes para que possam “elaborar produções textuais cada vez melhores”. Mas, na avaliação dos(as) especialistas, novamente a plataforma tem o protagonismo em detrimento da função do(a) professor(a) e apresenta problemas preocupantes. 

Os(as) alunos(as) elaboram os textos, um sistema de inteligência artificial faz a correção de erros de ortografia, sintaxe e semântica, cabendo aos(às) professores(as) a correção da parte chamada de subjetiva. Mas, segundo relatos, a correção automática é bastante falha e direciona os(as) estudantes para fontes duvidosas quando escolhem a opção para ver a explicação para algum erro.

“Relegar a “subjetividade” ao professor desmerece o trabalho deste, rotulando-o como “arbitrário”, desprovido de critério, quando, na realidade, é balizado, sim, por uma série de pressupostos teóricos e metodológicos”, diz o texto. 

Para os(as) pesquisadores(as), a ferramenta brinca com o imaginário das pessoas e manipula a compreensão dos(as) usuários(as) com a ideia de que o governo quer o bem dos(as) professores(as) e alunos(as). 

Questionamentos

Além de apontar os problemas, o artigo questiona a falta de debate sobre uma questão tão importante e quais as justificativas pedagógicas para essas escolhas. O texto menciona o concurso público aberto pelo governo, com apenas 1.200 vagas, como mais um exemplo de descaso com a educação pública.

“A postura do governo para com a categoria: descaso total; aqueles que não são substituídos pelas tecnologias (como em alguns cursos técnicos, em que apenas um professor dá aulas online para milhares de alunos) são reduzidos a meros instrumentalizadores de plataformas digitais”, destaca a produção.

O artigo é um desdobramento das discussões feitas durante uma mesa organizada na Semana de Letras da UFPR, com o título “Pra que professor? O que se espera do aluno? As plataformas digitais e o ensino de português no Paraná”. 

A produção é assinada pela doutora em Literatura, Renata Praça de Souza Telles, pela doutora em Linguística, Teresa Cristina Wachowicz, e pelos(as) estudantes do curso de licenciatura em Letras da UFPR, Matheus Leschnhak, Monique Isabelle Costa, Victor Valentim Teixeira.

:: Leia a íntegra do artigo: Plataformas digitais e o ensino de português no Paraná 

Enfrentamento

Para a secretária executiva Educacional da APP-Sindicato, Margleyse Adriana dos Santos, as constatações dos(as) pesquisadores(as) são mais uma evidência científica de que as denúncias feitas pela APP-Sindicato estão corretas.

“Esse artigo tem um valor muito importante, pois traz o olhar da teoria e da prática pedagógica sobre uma política educacional que tem sido imposta pelo governo estadual sem nenhum critério científico. O que está acontecendo na educação pública do Paraná é muito grave”, diz.

Com implantação acelerada durante a pandemia, as plataformas educacionais no Paraná têm sido utilizadas pelo governo Ratinho Jr. como instrumentos de pressão, controle, vigilância e de retirada da autonomia pedagógica dos(as) docentes. A prática ainda transforma a educação pública em mercadoria, transferindo recursos públicos e o fazer pedagógico para empresas privadas.

Em julho deste ano a APP promoveu o seminário “Plataformização da educação: um debate necessário”. O evento reuniu educadores(as) de todo o estado e pesquisadores(as) para debater o avanço da plataformização nas salas de aulas. A atividade foi transmitida ao vivo pena internet. Confira no vídeo abaixo.

“A planificação e a burocratização escamoteiam a privatização. São atores privados que decidem quais plataformas serão usadas, o que vai ser ensinado e como vai ser ensinado”, disse uma das convidadas, Carolina Batista Israel, professora doutora da UFPR. 

Problematizando a questão, o pesquisador Roberto Moraes Pessanha aprofundou o debate sobre a inserção das plataformas no atual cenário do capitalismo, marcado pela precarização das relações de trabalho.

“Mas os aplicativos e plataformas não são um problema em si. Não vamos nos transformar nos ludistas que tentaram quebrar as máquinas na revolução industrial. O problema é o uso da tecnologia controlado por grupos empresariais”, alertou.

 

Em protesto contra o uso obrigatório das plataformas e para denunciar o assédio e a pressão no ambiente escolar, no último dia 30 de agosto, escolas de todo o estado aderiram a um protesto organizado pela APP. O movimento, chamado de “Plataforma Zero”, viralizou entre estudantes e chamou atenção da imprensa nacional, com destaque na Folha de São Paulo.

Em manifesto publicado na Edição Pedagógica do Jornal 30 de Agosto, a APP propõe a regulamentação do tempo de estudo e trabalho diante das telas, a oferta de plataformas públicas, o respeito à autonomia e à gestão democrática como princípios inegociáveis e uma educação universal, diversa, plural e inclusiva, em contraponto à sua determinação por interesses do mercado.

“Somos crianças, não ratos de laboratório”; estudantes usam redes para denunciar excesso de plataformas – Foto: reprodução

Pesquisa

A APP-Sindicato também contratou um estudo para compreender a percepção da categoria sobre os impactos do uso intensivo de plataformas digitais na qualidade do ensino-aprendizagem, nas condições de trabalho e no adoecimento dos(as) educadores(as).

A pesquisa “Plataformização da Educação” foi realizada pelo Instituto IPO entre os dias 28 de junho e 7 de julho de 2023, com 300 professores(as), pedagogos(as) e diretores(as) da ativa sindicalizados(as) à APP. 

De acordo com o levantamento, com alto grau de confiabilidade, mais de 70% dos(as) professores(as) relatam adoecimento pelo uso de plataformas digitais e para 83% as ferramentas não melhoraram o aprendizado dos(as) estudantes. 

Os dados resultaram em uma série de reportagens que foram publicadas semanalmente ao longo do mês de agosto. Confira abaixo.

>> Exclusivo: mais de 70% dos(as) professores(as) da rede estadual relatam adoecimento pelo uso de plataformas digitais, revela pesquisa

>> Para 83% dos(as) professores(as), plataformas digitais não melhoraram aprendizado de estudantes no Paraná

>> Governo cobra metas abusivas, mas não oferta estrutura adequada para uso de plataformas digitais

>> Educação violada: governo entrega dados de um milhão de paranaenses à exploração de agentes privados

Pesquisa Plataformização da Educação

:: Acesse a parte I do relatório do IPO sobre a pesquisa “Plataformização da Educação” (sobrecarga e adoecimento)

:: Acesse a parte II do relatório do IPO sobre a pesquisa “Plataformização da Educação”

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