O 30 de agosto de 1988 e a violência do Estado

*Por Hermes Silva Leão

Foto: APP-Sindicato Acervo

“Nesse país, quando se fala a realidade dizem que é protesto”. 

(Bezerra da Silva. Jornal do Brasil, 05 agosto 1997)

Ninguém poderia supor que, às vésperas da promulgação da nova Constituição brasileira, uma manifestação de professoras/es em greve, acompanhadas/os de centenas de apoiadores/as pudesse ser recebida com violência pelo governo do Paraná.

Afinal, naquele período de transição, Álvaro Dias havia sido escolhido pelo voto da maioria do povo para governar o Paraná. Estávamos na década da retomada democrática após a vigência do Ato Institucional nº 5 da ditadura civil/militar. Mas não! Policiais talhados para o uso da violência como método de gestão do estado passaram a agir como que comandados por uma voz surgida das trevas do autoritarismo. Foi um cenário de horrores que marcou a história da educação e das lutas sociais no Estado do Paraná.

Nesta semana em que faremos memórias dos 32 anos passados desde aquela terça-feira violenta é importante refletirmos o significado do Estado e o papel de sucessivos governantes da História recente do Paraná. Afinal, governadores como o próprio Álvaro Dias, Jaime Lerner, vide a extrema violência utilizada contra as manifestações em favor da reforma agrária, nos anos 2000, mais tarde Beto Richa e o chamado “Massacre do Centro Cívico”, em 29 de abril de 2015, ainda mais violento que a do 30 de agosto, se tornaram reconhecidos pela truculência e impunidade. De onde provém essa forma violenta de tratar manifestações reconhecidas como legítimas no Estado Democrático de Direito?

Se formos buscar num dos pensadores mais conhecido da sociologia, o alemão Max Weber (1864 – 1920), encontraremos a definição de que ao Estado cabe o monopólio do uso da força/violência. Se considerarmos o desfecho de impunidade dessas lideranças autoritárias, esse conceito de Estado moderno poderia ser aplicado.

Ou o comportamento dos poderosos do poder político paranaense estaria mais adequado à interpretação apontada em o manifesto comunista, redigido por Marx e Engels em 1848: “O governo do Estado Moderno é apenas um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”? Importante ressaltar que o mesmo manifesto aponta o estudo de que “a história de todas as sociedades até aqui, é a história da luta de classes: Na Roma Antiga temos Patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; Na Idade Média: Senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, servos. No capitalismo a escravidão seguida da exploração da classe trabalhadora para acumulação de riquezas”.

História de lutas

A história das lutas no Paraná, bem como da república do Brasil é repleta de tragédias, cuidadosamente silenciada pela historiografia oficial, assim, lamentavelmente também apagada em nossos currículos escolares. A título de ilustração vale registrar a magistral pesquisa do Professor Ricardo Costa de Oliveira da UFPR, que em sua tese “O Silêncio dos Vencedores”, registra: “Nesse sentido, uma das medidas do príncipe regente Dom João foi a Carta Régia de novembro de 1808 declarando guerra para a conquista dos campos de Guarapuava e legalizando a posse dos ‘bárbaros índios’ como prisioneiros de guerra”.

Desse capítulo esquecido da história dos territórios paranaenses, registra a mesma obra: “O cronista da expedição, o Padre Chagas, relatava que depois da guerra, em 29 de agosto de 1819 puseram, a peito descoberto, os selvagens de Guarapuava à expedição que entrava nesses campos e a perderam, sendo vencidos pelos portugueses de tal maneira que se recolheram ao interior dos sertões, que no decurso de um ano e meio, se não encontrava uma só pessoa desta gente pelas vizinhanças do nosso abarracamento, no lugar que se intitulou Atalaia”.

Essa matança de indígenas teria dado título à Lagoa das Lágrimas, um dos cartões postais da cidade de Guarapuava (Lobo Bravo na linguagem nativa indígena). Narra a lenda que a nascente teria surgido a partir do choro contínuo das mulheres indígenas pelo não retorno de seus maridos ou filhos executados na guerra imperial.

Assim, as violências, seja pela conquista de território ou contra manifestações por uma pauta de valorização salarial e melhores condições de trabalho, caso da greve de 1988, ou mesmo os atuais ataques a direitos pelos atuais governantes Ratinho Jr (PSD), e Bolsonaro (sem partido), em plena pandemia demonstra a gênese do Estado paranaense e brasileiro: Violento. Portanto, valorizemos as memórias das lutas para prosseguir trabalhando no presente para a superação dos atrasos e a construção de um estado verdadeiramente democrático.

*Hermes Silva Leão, professor e presidente da APP-Sindicato

Edição: Pedro Carrano / Fonte: Brasil de Fato Paraná