“Niemeyer recomenda leituras”, por Pedro Eloi


A Gazeta do Povo publicou em 21.12.2012 interessante matéria, assinada pelo jornalista Breno Baldrati, um aluno do qual todo o professor sente orgulho, sobre as leituras que empresários curitibanos vem fazendo. Vou citar aqui os empresários entrevistados e as suas indicações:
 
Artur Grynbaum – do grupo Boticário. A estratégia do Oceano Azul. Ed. Campus. A palavra estratégia indica o espírito do livro. Estratégia é uma palavra de origem militar que foi transportada para as teorias de administração, em referência ao mundo competitivo em que vivemos.
 
Karlis Krulis – do grupo Ouro Verde. Endurance – A Lendária Expedição de Shakleton à Antártida. A maior recomendação do livro é ser ele editado pela Companhia das Letras, seguramente a mais criteriosa das editoras brasileiras, na escolha dos títulos que publica.
 
Fábio Araújo – da Brain Consultoria. O Mundo em queda livre, do economista Joseph Stiglitz. Simplesmente um Nobel de economia. O livro também é editado pela Companhia das Letras. O sub-título do livro é muito interessante: Os Estados Unidos, o mercado livre e o naufrágio da economia mundial. Stiglitz é um economista liberal, porém,. não neoliberal.
 
Luiz Alberto Lenz César – do World Trade Center Curitiba. O verdadeiro Poder. A autoria é de um professor de Teorias da Administração, Vicente Falconi. É editado por indg. Tecnologia e Serviços (Fonte Google), da qual nunca ouvi falar.
 
Leonardo Frade Maciel – da Endeavor. O andar do bêbado. A publicação é da Jorge Zahar, a minha editora preferida para livros relacionados à filosofia.
 
Se fosse para escolher um entre esses livros, sem dúvida nenhuma, eu escolheria o livro de Stiglitz. Uma observação a fazer é a de que os livros indicados são livros relacionados à área de atuação dos empresários. Nenhum deles avança para a área da literatura em geral. Não critico isso, mesmo porque só foi solicitado pela reportagem a indicação de um único livro.
 
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E por falar em leitura…
 
O que eu quero fazer e aproveitando o momento histórico da morte de Niemeyer é mostrar o que efetivamente o tornou um ser humano imortal. Em seu livro de memórias As Curvas do Tempo ele nos traça um roteiro completo de leituras, que foi o seu guia e que o tornou, além de um dos maiores e mais renomados arquitetos do mundo, um pensador humanista de primeira grandeza. Vamos às recomendações dadas. Aliás, as recomendações foram dadas por um amigo seu, Rodrigo M. F. de Andrade, crítico, historiador de arte e escritor mineiro, e seguidas por Niemeyer.

O livro de Oscar Niemeyer As Curvas do Tempo – Memórias. Editora Revan. 318 páginas. R$ 52,00. Suas reflexões sobre a leitura estão nas páginas 61 e 62.
 
“Oscar, leia os gregos e os clássicos portugueses”, lhe recomendava o amigo. “E li. Li muito. Li como quem nada sabe e tudo quer aprender. Li com a devoção com que lera, anos antes, a obra de Le Corbusier”, lhe responde Niemeyer. Uma observação interessante a fazer. Eis uma concepção de formação, de educação, quando se junta a formação profissional (Le Corbusier) com a formação humanista, cidadã (os gregos e os clássicos portugueses).
 
Niemeyer prossegue no seu relato de leituras, sempre seguindo a orientação do mestre. Comecei pelos gregos (Sócrates e Platão) e continuei com os clássicos portugueses (Diogo do Couto, Fernão Lopes, Padre Vieira, Herculano e Eça de Queiroz). De Machado de Assis, já na literatura brasileira, faz a seguinte observação: “Machado de Assis, a fazer ironias, o invadir a alma de seus personagens” e nos relata o objetivo de suas leituras: ” Não tinha pretensões literárias. Queria apenas poder explicar meus projetos de forma clara e simples”. Olha de novo a questão da formação, pela incorporação do não pragmático e  utilitário e a utilização da literatura a agir e impactar o imaginário e a criação.
 
E Niemeyer continua o seu relatório de leituras e seus impactos sobre sua formação: “E li, de Machado aos novos escritores dos dois países, entusiasmado com a simplicidade de alguns, com a imaginação e espontaneidade de outros, com a preocupação política e social dos que trazem a miséria dentro do peito”. Vejam aí a formação do pensador marxista, que foi ao longo de toda a sua longa existência. E o arquiteto prossegue:
 
“E passei aos estrangeiros, surpreso com a unidade literária de Camus; a inteligência e cultura de André Malraux, a invasão do ser humano de Freud, Kafka e Graciliano; a pureza de Gide e Tchekhov, o realismo de Henry Miller, a agilidade e o talento de Proust; a grandeza dos escritores russos como Tolstoi, Tchekhov, Dostoiévski e Gorki” e ainda não satisfeito ele fala: “Mas sempre pela rama, sentia que a literatura não me bastava, que precisava conhecer melhor o mundo em que vivemos, o porquê da nossa presença neste velho planeta”.
 
E ainda insatisfeito, ele buscava mais: “E os ensaios sobre a vida, a genética e o cosmo me atraíram. Muito aprendi ao ler Jacob e Monod, a obra de Sartre a nos induzir que toda a vida é um fracasso, a nos explicar seu existencialismo: ‘A precedência da existência da criatura sobre a essência’ ” e conclui: Nas horas vagas, lia os livros didáticos de Celso Cunha – e os grandes mestres da poesia, Baudelaire a falar de amor, Neruda a cantar a revolução”.
 
Li nestes meus dias de ócio este livro maravilhoso das memórias de Niemeyer As curvas do tempo e tomei a decisão de retomar o meu blog com este roteiro de leitura traçado pelo amigo e seguido pelo aluno gênio, que se formou e se reformou com as suas leituras. Enquanto embelezava o mundo com a sua obra fantástica da arquitetura, embelezava também a si mesmo, com as suas leituras, incorporando em si aquilo que a humanidade produzira de melhor.
 
Com este ânimo e este otimismo é que retomo este meu blog no ano novo que se inicia e desejando a todos que este espírito, ou este estado de espírito acompanhe a todos nas lutas a serem empreendidas ao longo deste ano de 2013. Um ano pleno de alegrias plenas a todos.

Fonte: Blog do Pedro Eloi