Mulheres são a maioria das vítimas fatais dos ataques em escolas, mostra levantamento da APP

Mulheres são a maioria das vítimas fatais dos ataques em escolas, mostra levantamento da APP

Especialistas traçam o perfil dos assassinos e apontam machismo, extremismo e internet como alguns dos agravantes e incentivadores desses tipos de crime

Karoline Verri, 19 anos, Elisabete Tenreiro, 71 anos, e Giovanna da Silva, 17 anos, são três das 23 mulheres assassinadas em ataques contra escolas no Brasil - Fotos: reprodução

Na última segunda-feira (23), o Brasil foi surpreendido com mais um terrível ataque contra uma unidade escolar e que terminou na morte de uma jovem e deixou outras três feridas. Giovanna Bezerra da Silva tinha 17 anos e foi atingida na cabeça por um disparo de arma de fogo. A bala que tirou a vida da estudante também engrossa as estatísticas de um levantamento feito pela APP-Sindicato, onde as mulheres aparecem como as principais vítimas fatais desta violência.

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De 2002 até outubro deste ano, já ocorreram 29 ataques contra escolas no país. Nesse período, 38 pessoas, entre estudantes, professores(as) e funcionários(as) de escola foram mortas pelos autores dos atentados. Desse total, 23 são mulheres e 15 são homens. Considerando esses números, elas representam mais de 60% das vítimas fatais e têm uma probabilidade 53% maior do que os homens de serem mortas pelos assassinos.

Ainda de acordo com a apuração feita pela APP, 11 dos 29 atendados resultaram na morte de pessoas inocentes. Nesses números estão contabilizados os assassinatos de 5 docentes e 1 funcionária de escola, todas mulheres. 

No atentado ocorrido em 2009,  em Suzano (SP), entre as oito pessoas mortas constam a agente de organização escolar, Eliana Regina de Oliveira Xavier, 38 anos, e a coordenadora pedagógica, Marilena Ferreira Vieira Umezo, 59 anos.

No ano passado, das quatro pessoas assassinadas em Aracruz, no Espírito Santo, três eram educadoras. Maria da Penha Pereira de Melo Banhos, de 48 anos, Cybelle Passos Bezerra Lara, de 45 anos, e Flávia Amoss Merçon Leonardo, de 38 anos, lecionavam na Escola Estadual Primo Bitti.

 

O levantamento utilizou como referência o estudo “Ataques de violência extrema em escolas no Brasil”, do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, e notícias veiculadas na imprensa sobre cada um dos ataques ocorridos no país ao longo desse período de 21 anos. Os dados não fazem  referência aos feridos(as) porque nem todas as fontes encontradas trazem informações sobre a identificação dessas pessoas.

Masculinidade adoecida

Enquanto a maior parte das vítimas pertencem ao gênero feminino, 100% dos autores destes crimes no Brasil são homens. Para a doutoranda em Saúde Mental e Gênero e especialista em criminologia, Aline Xavier, essa constatação está associada ao fato de que o comportamento violento é uma expressão da virilidade masculina em uma sociedade estruturada de forma binária e patriarcal.

“Quando um homem não consegue performar de uma forma que é considerada viril na nossa sociedade, uma das possibilidades é que esse homem acabe atuando agindo de uma forma que é violenta”, disse ela em entrevista para a UnBTV.

Segundo Aline, o aumento de grupos neonazistas, a falta de regulação da internet e a cultura armamentista são outros fatores que contribuem para agravar o problema, tornando os adolescentes mais vulneráveis a essas ideologias. 

Ao invés de medidas populistas, a exemplo da militarização de escolas, a especialista defende o aumento de psicólogos(as) nas instituições de ensino e que as escolas sejam espaço de troca, de convivência e de debate sobre temas como racismo, misoginia, etarismo e outros tipos de violência.

“A masculinidade no Brasil está extremamente adoecida. Temos que pensar em trabalhar com o vetor principal da violência no Brasil, que são os homens. Se a masculinidade está adoecida, a gente tem que pensar em outras formas de expressar essa masculinidade, que não seja pela via da violência”, afirmou.

Perfil dos agressores

Outra pesquisadora, a professora Telma Vinha, coordenadora do grupo “Ética, diversidade e democracia na escola pública”, do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, e responsável pelo estudo “Ataques de violência extrema em escolas no Brasil”, também aponta as características da masculinidade e a facilidade de acesso a ideologias extremistas na internet como elementos que encorajam e facilitam o planejamento dos crimes.

Quanto ao perfil dos agressores, Telma afirma que são predominantemente jovens, do sexo masculino, brancos e demonstram gosto pela violência e pelo culto às armas. 

“Eles apresentam, ainda que não diagnosticado, provavelmente distúrbios psiquiátricos, uma característica de isolamento social, muitas relações online, mas não tanto presenciais. Eles têm uma falta de perspectiva, de propósito, em termos de futuro. Alguns apresentam violência doméstica e uma característica de masculinidade tóxica, de misoginia, agressividade”, afirmou em entrevista para a TV Unicamp.

Ranking por estado

Os atentados, incluindo aqueles em que não houve morte de pessoas inocentes, foram registrados em 12 estados. São Paulo lidera a lista, com 8 ocorrências. No Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia aconteceram três casos em cada. No Ceará, Goiás, Minas Gerais e no Paraná foram dois. No Amazonas, Paraíba, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, uma ocorrência.

Mesmo com os esforços dos governos federal, estaduais e municipais para conter o avanço desses crimes, o ano de 2023 já acumula o maior número de ataques contra as escolas. O ocorrido na última segunda-feira, na Escola Sapopemba, em São Paulo, é o nono deste ano, superando a marca de oito registrada em 2022.

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Um dessas tragédias ocorridas neste ano, disseminadas e articuladas pela internet e ideologias extremistas, aconteceu no Paraná. No dia 19 de junho, um ex-aluno foi até o Colégio Estadual Helena Kolody, em Cambé, tendo efetuado disparos com uma arma de fogo que atingiram Karoline Verri Alves, de 17 anos, e Luan Augusto, de 16 anos. Os dois eram estudantes e morreram.

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