Uma data de luta, memória e resistência
Há anos construímos uma resistência diária contra a violência, a desigualdade e o desrespeito. O objetivo da APP-Sindicato é promover espaços para que estudantes e a comunidade escolar aprendam, reflitam e produzam seus próprios conteúdos sobre como as mulheres são vistas, tratadas e inseridas em todos os contextos da sociedade. Para a criatividade e a conscientização não existem regras. Unir-se à luta pela superação da violência contra a mulher e avançar no caminho da igualdade de gênero é um desafio de toda a sociedade.
O “8 de março – Dia Internacional da Mulher” remonta às mobilizações de mulheres trabalhadoras que, ao longo da história, enfrentaram exploração, desigualdade e violências para garantir direitos fundamentais, como trabalho digno, educação, participação política e igualdade social.
Reconhecida oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, a data reforça que a violência contra as mulheres não é um problema individual, mas estrutural, resultado de desigualdades históricas de gênero. Combatê-la exige ações coletivas, políticas públicas e, sobretudo, educação comprometida com a igualdade e os direitos humanos para fortalecer uma cultura de respeito, solidariedade e proteção à vida das mulheres.
Links diretos:
Artigo – 8 de Março e as Mulheres Trabalhadoras Insubmissas!
Educação e prevenção caminham juntas
Violência é crime. Denunciar é um direito.
Artigo – Violência contra as mulheres: um olhar das mulheres que educam e transformam no Paraná
Temas para trabalhar nas escolas
Literatura e cinema
Mulheres negras
Mulheres LBTI+
Artigo
8 de Março e as Mulheres Trabalhadoras Insubmissas!
Por Marilda Ribeiro da Silva, assessora da Secretaria Educacional da APP-Sindicato, advogada, militante feminista e secretária de Mulheres do PT do Paraná
A origem do Dia Internacional da Mulher está diretamente relacionada ao contexto da luta das mulheres trabalhadoras, especialmente na Revolução Russa durante o século XIX.
Mulheres que ousaram lutar, lideraram greves, pegaram em armas, enfrentaram a prisão, a tortura, o exílio e a morte. Mulheres que ousaram denunciar as precárias condições de trabalho nas fábricas, as extensas jornadas de trabalho, a baixíssima remuneração e toda exploração que serve à acumulação capitalista.
Mulheres que ousaram gritar ao mundo como se organiza e se constitui a divisão sexual do trabalho e a dupla exploração por serem mulheres trabalhadoras: força de trabalho servil ao sistema produtivo capitalista e serva na relação de poder exercido pelos homens. A combinação perfeita entre Capitalismo, Racismo e Patriarcado.
No desenvolvimento do capitalismo, a classe trabalhadora foi moldada à disciplina do trabalho, mão de obra obediente às normas patronais. O corpo humano foi recurso produtivo essencial à produção e acumulação capitalista antes do desenvolvimento tecnológico. Corpos servis com comportamentos uniformes, controláveis e totalmente subordinados ao trabalho. O corpo como mera força de trabalho, uma máquina sem emoções, sem subjetividades. E no caso do corpo das mulheres, servil também às violações sexuais, aliadas à imposição do trabalho reprodutivo da própria massa de trabalhadores, seja pela gestação, seja pelos cuidados domésticos.
Contextos como a caça às bruxas na Idade Média, que torturou e matou centenas de milhares de mulheres e perduraram até o surgimento do capitalismo mercantil, não estão isolados da luta de classes e dos históricos genocídios. As mulheres eram condenadas pelo próprio Estado e pela Igreja, com leis e ordens que criaram o crime de bruxaria. Eram torturadas, queimadas vivas ou enforcadas.
A maioria delas eram camponesas pobres, curandeiras, parteiras, conhecedoras da natureza, das plantas e desafiavam a ordem do corpo não pensante. Eram as “mulheres sábias”, desprezíveis à classe política que se beneficiava com o aumento da população pobre como mera força de trabalho. A perseguição às bruxas desenvolveu-se no contexto de intensa luta social, foi uma guerra de classes direcionada a quem transgrediu a ordem social e sexual. O resultado foi, além das centenas de milhares de mulheres assassinadas, o fortalecimento do regime patriarcal.
Esse contexto de perseguição às mulheres e de desenvolvimento do capitalismo, com destaque à divisão sexual do trabalho e que configuram a formação da classe trabalhadora, é o foco central da obra Calibã e a Bruxa, de Silvia Frederici.
Um salto histórico para o ano de 1917, nos remete à luta das mulheres russas por melhores condições de trabalho e contra a fome. Luta que, entre outras mudanças sociais, levou ao processo revolucionário em meio a uma convulsão social e política. Mulheres exploradas pelo sistema produtivo e pela supremacia masculina, mas que ousaram resistir e produziram intervenções sociais pela emancipação da mulher e da classe social explorada, reconhecendo as estruturas do capitalismo e do patriarcado como fontes de exploração e acumulação.
Os temas do feminismo, da luta pela emancipação das mulheres e da classe trabalhadora compõem a coletânea de textos A Revolução das Mulheres, organizada pela pesquisadora Graziela Schneider.
Ela reúne textos escritos pelas próprias mulheres revolucionárias no período da Revolução Russa (1917), com tradução diretamente para a língua portuguesa e que permitem a imersão na trajetória das escritoras e nas mudanças históricas provocadas pelo feminismo no mundo do trabalho.
É possível compreender o Dia Internacional da Mulher, 08 de março, como um marco na luta pela emancipação das Mulheres Trabalhadoras e pelo fim da exploração humana pelo trabalho que produz a acumulação de riqueza. A data traz elementos para demonstrar que é parte dessa exploração, o acúmulo do trabalho doméstico e trabalho reprodutivo. Assim como expressa que a participação política das mulheres está diretamente ligada às conquistas históricas de sua emancipação, mas também de toda a classe trabalhadora.
E nos desafia ao que ainda há de ser feito pela plena liberdade e autonomia das mulheres e de toda a humanidade.
As obras citadas são leituras importantes para a retomada do verdadeiro sentido do Dia Internacional da Mulher, das relações de trabalho e do próprio Feminismo.
FREDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
URSO, Graziela Schneider Urso (Org.). A Revolução das Mulheres – Emancipação feminina na Rússia soviética: Artigos, atas, panfletos, ensaios. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017.
Educação e prevenção caminham juntas
Quem educa para a igualdade protege vidas. A educação é uma ferramenta poderosa de transformação social. Ensinar igualdade de gênero, respeito às diferenças e direitos humanos é uma forma concreta de prevenir a violência desde cedo. A defesa de uma escola pública, democrática, inclusiva e segura, como historicamente faz a APP-Sindicato, é também a defesa da vida das mulheres.
A violência contra as mulheres é uma grave violação de direitos humanos e pode acontecer em qualquer espaço: em casa, no trabalho, na rua e também na escola. Muitas vezes, ela começa de forma silenciosa, por meio de discriminação, humilhações, controle e desigualdade.
Alguns exemplos de violências:
Física: agressões, empurrões, lesões.
Psicológica: ameaças, humilhações, controle.
Sexual: assédio, abuso, estupro.
Patrimonial: controle financeiro, destruição de bens.
Moral: xingamentos, calúnias, difamação.
Violência é crime. Denunciar é um direito.
A violência contra as mulheres é uma ferida aberta em nossa sociedade. Nos últimos anos, registros oficiais do Brasil mostram que centenas de mulheres são vítimas de estupro e feminicídio todos os dias. Sendo que as mulheres negras são as que mais sofrem violência física e sexual (60,4% dos casos registrados em 2024).
Entre janeiro e julho de 2025 os dados foram alarmantes: houve mais de 86 mil denúncias de violência contra mulheres no Ligue 180. Porém, esses números podem ser muito maiores, estudos apontam subnotificações de 98,5% para violência psicológica, 89,4% para sexual e 75,9% para a física.
É fundamental que toda a sociedade se una para combater a violência contra as mulheres e conheça as medidas protetivas.
>> Lei de Assédio Sexual (Lei 10.224/2001)
>> Lei do Acompanhante no Parto (Lei nº 11.108/2005)
>> Lei Maria da Penha (11.340/2006)
>> Lei Carolina Dieckmann (Lei nº 12.737/2012)
>> Lei do Minuto Seguinte (Lei nº 12.845/2013)
>> Lei do Feminicídio (13.104/2015)
>> Lei da Importunação Sexual (13.718/2018)
>> Lei da Dignidade Menstrual (Lei nº 14.214/2021)
>> Lei da Violência Política contra a Mulher (Lei nº 14.192/2021)
>> Lei da Igualdade Salarial (Lei 14.611/2023)
Abra a mente. Questione. Transforme. Previna a violência!
Ligue:
100 – Direitos Humanos
153 – Patrulha Maria da Penha
180 – Central de Atendimento à Mulher
181 – Disque-Denúncia no Paraná
190 – Polícia Militar
Artigo
Violência contra as mulheres: um olhar das mulheres que educam e transformam no Paraná
Por Tatiana Nanci, secretaria da Mulher Trabalhadora e LGBT+ e professora da rede estadual
A violência contra as mulheres continua sendo uma ferida aberta na nossa sociedade – uma realidade que se encontra nas casas, nas ruas e nas escolas. Nos últimos anos, registros oficiais no Brasil mostram que, mesmo com algumas variações, centenas de mulheres continuam sendo vítimas de estupro todos os meses, com uma média que chega a dezenas de casos por dia.
Só em 2024, foram documentados mais de 71 mil casos de estupro de mulheres, o equivalente a cerca de 196 mulheres violentadas por dia e mais de 1.450 feminicídios foram registrados no país. Além disso, as desigualdades raciais somam-se a essa violência: 60,4% das mulheres vítimas de violências física e sexual eram negras.
Em 2025, novos levantamentos apontaram que a violência contra as mulheres segue em níveis extremamente preocupantes, com centenas de feminicídios ocorrendo nos primeiros meses do ano e milhares de denúncias registradas pelo Ligue 180 – o canal oficial de acolhimento e orientação. Entre janeiro e julho de 2025, foram mais de 86 mil denúncias de violência contra mulheres, com destaque para as violências física e psicológica como formas predominantes de agressão.
Os números representam vidas interrompidas, sonhos quebrados, não são apenas estatísticas. São mulheres que sofreram a violência de gênero. Dentro da educação, essas mulheres são professoras e funcionárias de escola que estão na linha de frente da transformação social, lidando com múltiplas jornadas, desigualdades salariais e ainda com a tarefa de educar sobre questões que abordam respeito, igualdade e direitos humanos.
Como não falar da violência de gênero quando a escola, muitas vezes, celebrada como espaço de acolhimento e formação, pode espelhar as tensões do mundo exterior, incluindo relações abusivas que alunas e até colegas de trabalho enfrentam em casa e na comunidade?
As educadoras, em sua maioria mulheres, sofrem com a carga emocional intensa, enfrentam microagressões, desrespeito e, em alguns casos, violência verbal ou física no ambiente escolar, unindo suas lutas contra o machismo na sociedade e dentro das instituições de ensino.
Não podemos deixar que a educação seja neutra diante da violência. Ela precisa ser um território de resistência e transformação, onde dialogamos abertamente sobre machismo, patriarcado e violência de gênero. É preciso valorizar as mulheres que educam, reconhecendo suas vozes e experiências. Exigimos políticas públicas que protejam mulheres dentro e fora das escolas, além de promover redes de apoio para quem denuncia e para quem ainda tem medo de denunciar, incluindo a Lei Maria da Penha e seus mecanismos de proteção, com estrutura e recursos reais nos territórios.
A violência contra as mulheres não é natural, não é normal – é política, é estrutural e tem raízes em relações de poder que precisamos desconstruir desde as salas de aula até os corredores das nossas instituições. O compromisso de educadoras e funcionárias de escola com uma sociedade mais justa e igualitária é também uma luta contra a violência machista.
Para nós, mulheres que somos professoras e trabalhadoras da educação pública do Paraná, essa realidade é ainda mais sentida porque carregamos na pele, na rotina e no compromisso pedagógico a missão de educar meninas e meninos para o respeito, a igualdade e a vida livre de violência. Ao mesmo tempo, sabemos que a educação reflete as desigualdades que queremos transformar.
No Paraná, as mulheres já são maioria no serviço público estadual, representando aproximadamente 60% dos servidores públicos. Sendo que a presença feminina concentra-se fortemente na educação, com grande participação de professoras e funcionárias de escola.
Mesmo com essa presença majoritária, a valorização salarial e as condições de trabalho da nossa categoria estão longe de serem dignas. Há décadas, professoras e funcionários de escola lutam por salários mais justos e equiparação com outras categorias do serviço público estadual de mesmo nível de formação, em uma realidade em que, muitas vezes, recebem menos do que servidores de outras carreiras com exigência equivalente de qualificação.
Essa combinação de violência de gênero na sociedade com a desvalorização profissional mostra que nossa luta não é apenas por direitos salariais ou reconhecimento profissional, mas por dignidade integral no trabalho, no salário e na vida.
A violência contra mulheres, seja física, psicológica ou simbólica, manifesta-se dentro e fora das escolas. São em nossas mãos que tantas meninas encontram acolhimento, escuta e exemplos de respeito. Ainda assim, muitas profissionais da educação vivenciam jornadas extenuantes, baixos salários e, sobretudo, a responsabilidade de ensinar igualdade de gênero e respeito aos direitos humanos em um país onde as estatísticas continuam altas.
Enquanto mulheres educadoras, afirmamos que:
1) Violência contra mulheres é uma questão estrutural de gênero – e precisa ser enfrentada de forma transversal em políticas públicas, educação e cultura;
2) A escola pública deve ser um espaço de resistência, acolhimento e combate ao machismo e à violência contra mulheres e meninas;
3) A valorização das mulheres que trabalham na educação é condição indispensável para uma educação pública de qualidade – um salário digno é uma questão de justiça social;
4) Não aceitaremos que a educação seja neutra diante da violência e da desigualdade – ela precisa ser lugar de transformação e empoderamento das mulheres;
5) Em nome das professoras, funcionárias de escola e de todas as mulheres que constroem o cotidiano da educação pública do Paraná: resistimos, resistiremos e vamos transformar essa realidade – pelas nossas vidas, pelos nossos corpos, pelos nossos direitos.
Educar para a igualdade, é prevenir contra a violência!!!
>> Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio — Planalto
Temas para trabalhar nas escolas
Apresentamos aqui cinco temáticas sobre o assunto abordado acima para serem trabalhados em sala de aula. Ao discuti-los, é importante criar um ambiente seguro e acolhedor para estudantes compartilharem experiências, sempre com a presença de um (a) educador(a) responsável, apoio psicológico e contatos de rede de proteção – garantindo que a educação atue tanto na prevenção da violência quanto no apoio às vítimas.
1. Igualdade de gênero e direitos humanos:
1.1) O que é igualdade?
1.2) Como estereótipos de gênero alimentam a violência.
2. Violência contra as mulheres: reconhecer para prevenir
2.1) Tipos de violência.
2.2) Sinais de alerta.
2.3) Como e onde buscar ajuda.
3. A escola como espaço de proteção e acolhimento
3.1) Cultura de paz.
3.2) Resolução não violenta de conflitos.
3.3) Combate ao bullying e ao assédio.
4. Legislação e direitos das mulheres
4.1) Lei Maria da Penha.
4.2) Importância da denúncia e da rede de proteção.
5. Educação, democracia e justiça social
5.1) Relação entre desigualdade, violência e exclusão
5.2) Papel da educação pública na transformação social
Sugestões de como trabalhar os temas acima:
1) Rodas de conversa com estudantes, trabalhando situações cotidianas de violências e sugestões de como enfrentá-las.
2) Redações e textos reflexivos abordando um ou mais temas, buscando relacioná-los;
3) Teatro ou intervenções artísticas que, por exemplo, retratem os tipos de violência que não são “percebidos” no cotidiano;
4) Campanha escolar no 8 de Março abordando a violência contra a mulher, usando cartazes ou mural;
Literatura e cinema
Ler, além de ser conhecimento é um ato de liberdade e ler obras que abordam a temática feminista é um mergulhar em histórias de luta e resistência, que nos ajudam a romper estereótipos e a desmistificar determinados conceitos sociais. Vozes que foram silenciadas agora se libertam e trazem para o debate o quanto é necessário haver além de igualdade, equidade entre as pessoas. São vozes que nos ajudam a desenvolver senso crítico e consciência; que nos fazem refletir e desconstruir o machismo de cada dia.
Elencamos aqui 23 obras que discutem o feminismo em diversos níveis de entendimento. Obras que podem, inclusive, serem trabalhadas com nossas crianças, em sala de aula. O mesmo vale para os 12 filmes que separamos aqui, pois ver filmes que abordam questões feministas é uma forma de adentrar na temática de maneira mais acessível, criando empatia e identificação imediatas.
Além de aumentar o repertório sobre o tema, filmes despertam visão crítica e quebram estereótipos já que trazem uma perspectiva feminina sobre os mesmos, um olhar mais sutil e subjetivo sobre os problemas cotidianos, sobre as contradições enfrentadas pelas mulheres numa sociedade machista e excludente.
Livros
1) 50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer, Débora Thomé (Galera) – Biografias de 50 brasileiras pouco citadas nos livros mas, que foram heroínas da vida real, e com suas histórias inspiram meninas e meninos a não desistirem de seus sonhos.
2) As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo, Rachel Ignotofsky (Blucher) – Biografias de 50 mulheres cientistas, da antiguidade até a contemporaneidade, que se destacaram nos campos das ciências, da tecnologia e das engenharias. A obra traz também infográficos com taxas de mulheres que trabalham atualmente em campos da ciência e um glossário científico ilustrado.
3) As Meninas, Lygia Fagundes Telles (Companhia das Letras) – Romance que traz as histórias de Lorena, Ana Clara e Lia, moradoras de um pensionato, durante a ditadura militar, falando de vida, amor, política e liberdade.
4) Canto de rainhas: o poder das mulheres que escreveram a história do samba, Leonardo Bruno (Agir) – Relato de histórias reais sobre a trajetória de mulheres sambistas, como Dona Ivone Lara, Alcione, Elza Soares, dentre outras, traçando um panorama da história da música brasileira nos últimos 50 anos.
5) Clube da luta feminista: um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista), Jessica Bennett (Fábrica231) – Mistura de manual e manifesto, a obra discute como combater e sobreviver ao machismo na sociedade. Há histórias pessoais, pesquisas, estatísticas, dicas práticas e conselhos de como fugir e denunciar armadilhas do mundo do trabalho.
6) Coisa de menina, Pri Ferrari (Companhia das Letras) – Obra infantil que discute a ruptura de regras entre coisas de meninas e coisas de meninos, mostrando que crianças precisam apenas descobrir o mundo sem barreiras ou limitações.
7) Explosão feminista, org. Heloisa Buarque de Hollanda ( Companhia das Letras) – Pesquisa que aponta e analisa pontos de convergência e divergência nos diversos feminismos que compõem o cenário barsileiro na última década.
8) Extraordinárias, de Aryane Cararo, Duda Porto de Souza (Seguinte) – Perfis de mulheres brasileiras que revolucionaram suas épocas mas, raramente são citadas. A obra traz “extraordinárias” que viveram desde o século XVI até a atualidade.
9) Guia prático antimachista: para pessoas de todos os gêneros, Ruth Manus (Sextante) – Guia introdutório ao debate para a construção de uma sociedade mais justa, mostrando como reconhecer e lutar contra práticas machistas que permeiam a sociedade.
10) Histórias de ninar para garotas rebeldes, Elena Favilli e Francesca Cavallo (VR Editora) – 100 histórias no estilo contos infantis (Era uma vez…) que trazem histórias de mulheres inspiradoras, do passado e do presente, de todo o mundo para que as crianças sintam-se motivadas e inspiradas em transformar o mundo em um lugar melhor.
11) Mulheres incríveis, Kate Schatz (Astral Cultural) – Perfis de 44 mulheres que começa em 430 a.C e chega à atualidade. Há piratas, astronautas, espiãs, presidentas, jogadoras de futebol. Mulheres que subverteram leis e padrões impostos pela sociedade para fazerem aquilo que gostavam e também ajudar a construir um mundo menos desigual.
12) Mulheres na luta, de Jenny Jordahl e Marta Breen (Seguinte) – HQ que traz lutas históricas de mulheres por educação, igualdade no mercado de trabalho, na política, traçando um panorama da luta feminista em 150 anos.
13) Mulheres negras inspiradoras, Moreira de Acopiara (Principis) – No formato de literatura de cordel, o poeta apresenta 20 mulheres brasileiras conhecidas por suas lutas e conquistas, que mostram que a cor da pele não pode ser um impeditivo para termos um mundo melhor.
14) Mulheres, raça e classe, Angela Davis (Boitempo) – Ensaios que discutem questões relacionadas à intersecção de raça, classe e gênero, passado escravocrata, opressões, violências, racismo, oferecendo uma perspectiva não tradicional sobre conceitos de liberdade e emancipação feminina.
15) O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras, bell hooks (Rosa dos Tempos) – Cartilha que traz uma visão original sobre assuntos como: políticas feministas, direitos reprodutivos, beleza, luta de classes feminista, feminismo global, trabalho, raça e gênero e o fim da violência. Aborda também temas como educação feminista para uma consciência crítica, masculinidade feminista, maternagem e paternagem feministas, casamento e companheirismo libertadores, dentre outros.
16) O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, de Naomi Wolf (Rosa dos Tempos) – Ensaio que discute a tirania do mito da beleza ao longo dos tempos; como o patriarcado fez da beleza uma função opressora nas relações entre homens e mulheres e entre mulheres e mulheres. Discute também temas como a indústria da beleza, distúrbios alimentares e mentais, as indústrias da cirurgia plástica e da pornografia.
17) O segundo sexo, Simone De Beauvoir (Nova Fronteira) – Ensaio minucioso que inaugurou uma nova forma de pensamento sobre as mulheres na sociedade. São abordados fatos e mitos sobre a condição feminina em diversas dimensões: social, política, sexual, histórica e psicológica.
18) Para educar crianças feministas, Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras) – Manifesto com conselhos básicos e preciosos de como ofertar uma formação igualitária para todas as crianças, preparando-as para construírem uma sociedade mais justa.
19) Parque Industrial, Pagu – Patrícia Galvão (Companhia das Letras) – Romance que denuncia as condições precárias das operárias de fábricas têxteis de São Paulo nas décadas de 1920 e 1930.
20) Ponciá Vicêncio, Conceição Evaristo (Pallas) – Romance que relata a história da personagem Ponciá, da infância até a vida adulta, estabelecendo um diálogo entre passado e presente, entrelaçando memórias, fantasia e fatos históricos.
21) Por um feminismo afro-latino-americano, Lélia Gonzalez (Zahar) – Ensaios e artigos produzidos entre 1979 a 1994 que mostram os anseios democráticos do Brasil e de outros países da América Latina e do Caribe. A autora transita da filosofia às ciências sociais, da psicanálise ao samba e aos terreiros de candomblé.
22) Quem tem medo do feminismo negro? Djamila Ribeiro (Companhia das Letras) – Seleção de artigos publicados pela autora na revista Carta Capital (2014-2017)que discutem silenciamento, discrimiação, machismo, feminismo, dentre outras temáticas, a partir de suas experiências pessoais.
23) Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras) – Ensaio, a partir de experiências pessoais da autora, que discute o muito que precisa ser feito para se alcançar a igualdade de gênero.
Filmes
1) A Cor Púrpura
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 1985
País: EUA
Duração: 2h21
Gênero: Drama, comédia musical
Direção:Blitz Bazawule
Roteiro: Marcus Gardley
Elenco: Fantasia Barrino, Taraji P. Henson, Danielle Brooks
Sinopse: A jovem afro-americana Celie, que vive no sul dos Estados Unidos, resolve escrever cartas para Deus. Nessas cartas, conta sua história de vida, começando a partir dos 14 anos quando se casa. Fala de suas dificuldades e violências sofridas numa sociedade racista e machista do começo do século XX, que via as mulheres negras como cidadãs inferiores em todos os sentidos.
2) Estrelas Além do Tempo
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2016
País: EUA
Duração: 2h07
Gênero: Drama
Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Allison Schroeder
Elenco: Taraju P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe
Sinopse: Durante a guerra fria entre EUA e URSS, funcionárias negras da NASA, são obrigadas a trabalharem separadas dos demais por causa da cor. Dentre elas, três amigas se destacam por suas capacidades e qualificações profissionais e precisam provar diariamente que são tão ou mais competentes que os demais.
3) Frida
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2002
País: EUA
Duração: 2h
Gênero: Drama, Biografia
Direção: Julie Taymor
Roteiro: Gregory Nava
Elenco: Salma Hayek, Alfred Molina, Geoffrey Rush
Sinopse: Um dos principais nomes das artes plásticas do México, Frida Khalo teve uma vida intensa. Passando por seu acidente, ao casamento conturbado com o também pintor Diego Rivera até sua consagração com uma das maiores pintoras do mundo. Frida torna-se símbolo do feminismo e da resistência política de sua época.
4) Histórias Cruzadas
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2011
País: EUA
Duração: 2h26
Gênero: Drama
Direção: Tate Taylor
Roteiro: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Jessica Chastain, Viola Davis
Sinopse: Na década de 1960, Skeeter decide tornar-se escritora e começa a entrevistar mulheres negras da cidade que trabalham como empregadas de famílias brancas. A proximidade da protagonista branca com mulheres negras desagrada à sociedade local, mas ela não abre mão das novas amizades.
5) Nise: O Coração da Loucura
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2015
País: Brasil
Duração: 1h48
Gênero: Drama, Biografia
Direção: Roberto Berliner
Roteiro: Flávia Castro, Maurício Lissovsky
Elenco: Glória Pires, Luciana Fregolente, Simone Mazzer
Sinopse:Depois de sair da prisão, Nise vai trabalhar num hospital psiquiátrico no subúrbio carioca. Lá, ela é isolada por seus colegas de trabalho que não concordam com seus métodos. Por causa disso, a médica assume um setor abandonado que era o de Terapia Ocupacional, dando início a uma forma pioneira de tratamento focado na arte e no amor.
6) Olga
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2004
País: Brasil
Duração: 1h39
Gênero: Drama, Histórico, Romance
Direção: Jayme Monjardim
Roteiro: Rita Buzzar
Elenco: Camila Morgado, Caco Ciocler, José Dumont
Sinopse: Olga é uma jovem judia e comunista que, após passar por treinamento militar fica responsável pela segurança de Luís Carlos Prestes quando este volta para o Brasil. Na viagem, os dois se apaixonam e terão que viver muitos riscos e desafios por suas próprias sobrevivências.
7) Pureza
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2022
País: Brasil
Duração: 1h41
Gênero: Drama
Direção: Renato Barbieri
Roteiro: Renato Barbieri, Marcus Ligocki Jr
Elenco: Dira Paes, Flavio Bauraqui, Matheus Abreu
Sinopse: Baseado numa história real, o filme conta a história de uma mãe solo que tem seu único filho desaparecido quando ele sai em busca de trabalho num garimpo. Após alguns meses sem notícias do rapaz, Pureza sai em busca do filho e encontra uma fazendo que alicia trabalhadores e depois os mantém em cárcere privado.
8) Que Horas Ela Volta?
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2015
País: Brasil
Duração: 1h52
Gênero: Drama
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Michel Joelsas
Sinopse: Val é babá e empregada em tempo integral para uma família de São Paulo enquanto sua filha fica sob os cuidados de parentes. A garota decide ir atrás da mãe e passa a morar junto com ela na casa dos patrões que a recebem muito bem, mas o comportamento da jovem cria atritos familiares.
9) Silêncio das Inocentes
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2010
País: Brasil
Duração: 52 min
Gênero: Documentário
Direção: Ique Gazzola
Roteiro: Rodrigo Azevedo
Sinopse: – Documentário que retrata a vida e a história de Maria da Penha bem como da lei que leva seu nome. Retrata as múltiplas violências domésticas e como a lei pode proteger essas mulheres.
10) As Sufragistas
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2015
País: França/Inglaterra
Duração: 1h47
Gênero: Drama, história
Direção: Sarah Gavron
Roteiro: Abi Morgan
Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Meryl Streep
Sinopse: A protagonista (Maud Watts) é uma jovem sem formação política que se vê envolvida no movimento sufragista, que exigia o direito ao voto feminino no Reino Unido no início do século XX. Como táticas para chamar a atenção sobre o movimento, as personagens coordenam atos de insubordinação e rebeldia, desde quebrar vidraças até explodir caixas de correio.
11) Thelma & Louise
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 1991
País: EUA
Duração: 2h09
Gênero: Comédia dramática
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Callie Khouri
Elenco: Geena Davis, Susan Saradon, Harvey Keitel
Sinopse: Duas amigas, cansadas da vida que levam, resolvem sair em viagem deixando tudo para trás. O que era para ser uma simples viagem, transforma-se numa mirabolante fuga policial devido a um crime cometido por elas.
12) What Happened, Miss Simone?
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2015
País: EUA
Duração: 1h42
Gênero: Documentário
Direção: Liz Garbus
Roteiro: Liz Garbus
Elenco: Nina Simone, James Baldwin, Walter Cronkite
Sinopse: Documentário com gravações inéditas, imagens raras e trechos de cartas, entrevistas de pessoas ligadas à cantora e ativista da causa negra, Nina Simone A vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone (1933-2003). Traça o cenário das dificuldades, boicotes e frustrações profissionais que ela enfrentou em sua carreira.
13) Valentina
Ficha técnica:
Ano de lançamento: 2020
País: Brasil
Duração: 1h35
Gênero: Drama
Direção: Cássio Pereira dos Santos
Roteiro: Cássio Pereira dos Santos
Elenco: Guta Stresser, Rômulo Braga
Sinopse: A protagonista, Valentina, é uma garota trans de 17 anos que se muda para o interior do país com sua mãe (Márcia) para começarem uma nova vida. Para não sofrer, esconde a história de sua identidade de gênero, mas problemas na escola levam mãe e filha a encarar o machismo e o preconceito da comunidade local.
Mulheres negras
O racismo estrutural apresenta-se no silenciamento e na ausência de representatividade para mulheres e meninas negras. Uma educação comprometida com a igualdade racial é aquela capaz de construir espaços de resistência, reconhecer contribuições históricas, culturais e intelectuais, bem como promover uma escola acolhedora, democrática e antirracista.
O racismo estrutural apresenta-se em sala de aula das mais variadas formas, manifestando-se principalmente pelo apagamento e silenciamento dos conhecimentos produzidos por africanas(os) e afrodescendentes.
As mulheres negras periféricas enfrentam uma série de obstáculos no acesso à educação de qualidade, e, dentre os principais desafios enfrentados, encontram-se a ausência de políticas públicas adequadas e a falta de representatividade e diversidade no corpo docente da própria escola.
A história que é marcada pela escravidão e pela exclusão de negras e negros das instituições educacionais, revela o sistema de desigualdades enraizado nas relações sociais, que historicamente se condiciona pela limitação de oportunidades. Os obstáculos apresentam-se também na diversidade econômica, evidenciando que o acesso à educação e o racismo estrutural estão diretamente vinculado à desigualdade social.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mostra que o atraso escolar é maior entre as pessoas pretas e pardas. As(os) entrevistada (os), da faixa-etária de 18 a 24 anos de idade, correspondiam a 37,6% de pessoas brancas que estavam estudando, e 37,4% que estavam na etapa ideal de ensino. No caso de pessoas pretas ou pardas, a taxa de escolarização foi de 27,1%, com 20,6% na etapa ideal.
Jovens pretas(as) ou pardas(os) que não frequentavam e não haviam concluído a etapa ideal foi de 70,0%, enquanto entre as(os) brancas(os) foi de 56,2%. Os números mostram a desigualdade social, mostrando que 6,2% das(os) brancas(os) já haviam concluído a graduação, contra apenas 2,9% das(os) pretas(os) e pardas(os).
A frequência escolar líquida no ensino superior, prevista na meta 12 do Plano Nacional de Educação era de 33% até 2025 e os números, mais uma vez, revelam o desequilíbrio, com um percentual alcançado de 27,1%, sendo uma meta superada apenas entre pessoas brancas. Entre pessoas pretas e pardas, os números permanecem abaixo do esperado.
Dados: Indicadores educacionais avançam em 2024, mas atraso escolar aumenta | Agência de Notícias
Violência contra a mulher e o racismo estrutural em sala de aula
Preconceitos étnicos, de gênero e machismo são reflexos de uma sociedade historicamente patriarcal, que reproduz continuamente a segregação de mulheres negras. O racismo estrutural apresenta-se no bullying, nos estereótipos, na discrimação, no silenciamento e na ausência de representatividade para meninas negras, onde professoras também são colocadas a provar constantemente sua competência.
A violência contra a mulher e o racismo tornam-se multifacetados em torno de uma sociedade preconceituosa. Desde a promulgação da Lei do Feminicídio, instituída em 2015, a morte de mulheres em função do gênero cresceu 176%, de acordo com a pesquisa “Quem são as mulheres que o Brasil não protege? apresentada pela Câmara dos Deputados em 2025. A pesquisa apontou um declínio no feminicídio de mulheres brancas, mostrando que a violência para mulheres pretas e pardas aumentou significativamente, com um percentual de 68% em dez anos.
A educação torna-se então uma ferramenta necessária para o rompimento desses ciclos de violência, pois pode conscientizar e indicar caminhos que rompam o machismo e o racismo estrutural.
Trabalhar com princípios de fortalecimento de identidades e de direitos em sala de aula contribui significativamente para o pertencimentos de meninas e mulheres negras. Uma educação comprometida com a igualdade racial é capaz de construir espaços de resistência, reconhecendo contribuições históricas, culturais e intelectuais, valorizando a diversidade e a interseccionalidade racial promovendo uma escola acolhedora, antirracista e democrática.
A secretária de Promoção de Igualdade Racial e Combate ao Racismo da APP-Sindicato, Celina Wotcoski, destaca que a implementação real da Lei 10.639/03 é mais do que uma obrigação legal; é uma ferramenta de sobrevivência. “A valorização da história é primordial numa educação antirracista. Porque a gente tem sempre nas escolas essa valorização das contribuições europeias para a cultura e a ciência, ao mesmo tempo em que são ocultadas as contribuições africanas”, afirma.
Celina alerta que essa omissão não é um erro casual, mas uma forma de exclusão sistêmica que se reflete na vida adulta: “Quando a escola falha em apresentar a riqueza da ancestralidade africana, ela nega o direito à memória e reforça preconceitos que se desdobram em desigualdades profissionais no futuro. Precisamos de uma prática diária que não se limite a datas comemorativas, pois a educação antirracista é o único alicerce para uma sociedade que não apenas tolera a diversidade, mas a celebra como fonte de conhecimento e inovação.”
SUGESTÕES DE ATIVIDADES PARA SEREM TRABALHADAS EM SALA DE AULA
- Afirmação de identidades
Trazer para a sala de aula histórias de mulheres negras que contribuíram das mais variadas formas para sociedade, transformando o ensino em um campo de reflexão crítica sobre identidades que nasceram na luta contra o racismo. Tal atividade fortalece o reconhecimento de figuras importantes para a história, quebrando o ciclo do silenciamento, abrindo espaço para o pertencimento racial em sala de aula. Sugerimos aqui três grandes nomes: bell hooks (Gloria Jean Watkins), Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo.
bell hooks: Conhecida pelo seu pseudônimo bell hooks, Gloria Jean Watkins, foi autora, professora, teórica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense. Deixou uma marca profunda na educação contemporânea, por propor uma pedagogia focada na libertação, no afeto e na crítica interseccional das estruturas de poder
- E eu não sou mulher? Mulheres Negras e Feminismo (1981): A obra discute a intersecção entre raça, gênero e classe e seu impacto na vida de mulheres negras, argumentando a habilidade de indivíduos de perpetuaram em sistemas de opressão e dominação.
- O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras (2015): O livro defende que para alcançar uma sociedade mais justa, o feminismo precisa ser abraçado por todos indivíduos, independente de gênero ou idade. A obra debate temas como direitos reprodutivos, beleza, luta de classes e violência.
- Olhares negros: Raça e representação (1992): Coletânea de ensaios críticos analisa a subjetividade pessoas negras e a branquitude através de produtos culturais.
Lélia Gonzalez: Intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira é uma das maiores referências nos estudos de debates de gênero, raça e classe no Brasil e no mundo. Lélia foi pioneira nas pesquisas sobre Cultura Negra no Brasil, reconhecida por ser co-fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ) e do Movimento Negro Unificado (MNU) criou o conceito de “amefricanidade” em 1980.
- Festas Populares no Brasil (1987): A obra apresenta as marcas da herança africana na cultura brasileira através de fotografias de festas populares.
- Lugar de Negro (1982): O livro reúne três textos escritos por Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg, sintetizando a questão racial brasileira, contribuindo significativamente para o fortalecimento da luta do movimento negro. A obra analisa os principais aspectos acerca da configuração do racismo e das estruturas sociais no Brasil.
- Por um feminismo Afro-Latino-Americano: Em um só volume, a obra reúne textos produzidos entre 1979 a 1994 sobre os anseios democráticos no Brasil e na América Latina.
Conceição Evaristo: Maria da Conceição Evaristo de Brito é uma das mais influentes literatas do movimento pós-modernista no Brasil. A escritora que perpassa por diversos gêneros literários trabalhando com temas como a discriminação racial, de gênero e classe, hoje ocupa a cadeira número 40 na Academia Mineira de Letras.
- Ponciá Vicêncio (2003): Romance que mostra a força de um povo que sofreu/sofre com o processo de escravidão, opressão de classe e o racismo estrutural. O livro traz a memória identitária do avô de Ponciá que estabelece um diálogo entre o passado e o presente.
- Canção para Ninar Menino Grande (2018): Na obra, Conceição discute as contradições em torno da masculinidade de homens negro e os efeitos nas relações com mulheres negras. A autora traz a solidão afetiva como reflexão sobre o impacto do racismo estrutural.
- Insubmissas lágrimas de mulheres (2011): Composta por 13 contos, a obra tem como protagonistas mulheres negras que explicitam a resistência da mulher negra através de suas dores e anseios.
Trabalhar com autoras negras como afirmação de identidade traz a necessidade de compreender que o racismo é uma linguagem social presente em vários espaços através de expressões e ditados popularizados como “brincadeiras”, mas que reafirmam estereótipos que revelam violência verbal e social.
Em sala de aula, podem ser trabalhadas além das biografias das autoras, trechos de algumas de suas obras que abordem diretamente a problemática do racismo em espaços de construção do saber.
- Letramento Racial: Palavras que revelam o racismo estrutural da sociedade
Certos ditados populares e expressões reforçam o racismo e, nesse contexto, a educação torna-se mais uma vez protagonista e aliada contra o racismo estrutural. Modificar a linguagem racista para uma linguagem antirracista é uma das ferramentas para a construção de equidade na educação, criando uma prática social e pedagógica menos violenta.
Confeccionar um mural de com vocabulário antirracista para afixar em sala de aula é uma das propostas que trazemos aqui. Ele terá o objetivo de alertar as(os) estudantes sobre o uso de palavras que revelam esse racismo estrutural.
Exemplos:
A coisa da preta: Expressão associa a população negra a algo desagradável e perigoso.
Substituir por: A coisa está difícil.
Denegrir: Algo de tornar negro/preto uma coisa, um objeto e/ou situação que opera no simbólico como algo extremamente negativo.
Substituir por: Difamar.
Criado Mudo: O termo faz referência à pessoas escravizadas que seguravam objetos dos senhores e deveriam ficar caladas.
Substituir por: Mesa de apoio, mesa de cabeceira.
Ovelha Negra: Exprime a ideia de uma pessoa de má índole e de má conduta em um ambiente familiar e/ou social.
Substituir por: pessoa não querida ou pessoa ruim.
Vitimismo: Termo usado para tentar silenciar, anular ou boicotar discursos antirracistas, o uso do termo significa afirmar que o racismo não existe.
>> Cartilha da APP-Sindicato antirracista
>> Dicionário Antirracista: termos para eliminar do seu vocabulário
>> Dicionário Antirracista – Volume II
>> Glossário Antirracista
>> Expressões racistas: por que evitá-las (Tribunal Superior Eleitoral)
>> Por uma educação antirracista: conteúdos para trabalhar em sala de aula
Mulheres LBTI+
Desde sua criação, a escola é historicamente compreendida e organizada através dos padrões da heteronormatividade, debruçando-se e valorizando o padrão masculino, branco e heterossexual como símbolo de privilégio e sabedoria.
Neste contexto, o silenciamento e o preconceito negam identidades lésbicas, bissexuais, transsexuais, travestis e intersexos, impactando no aprendizado, na autoestima e na permanência de mulheres LBTI+ em sala de aula. É preciso romper esse padrão.
A realidade feminina é um grande desafio, além de lutar pela vida, mulheres tornam-se alvo de violência por explicitar suas diferenças. Em 2024, nove em cada dez estudantes adolescentes e jovens LGTBI+ afirmaram ter sido vítimas de algum tipo de agressão verbal. Os dados foram revelados pela Pesquisa Nacional sobre Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro em parceria com a Aliança Nacional LGBTI+.
A pesquisa revelou que:
- 86% das(os) estudantes entrevistadas(os) sentem-se inseguras(os) na escola por alguma característica pessoal, como a própria aparência. Entre pessoas trans/travestis, esse número sobe para 93%.
- A escola é um ambiente pouco ou nada seguro para estudantes trans (67%); para meninos que não se encaixam nos padrões de masculinidade (59%); estudantes gays, lésbicas, bissexuais ou assexuais (49%); meninas que não se encaixam nos padrões de feminilidade (40%); além de pessoas que tenham o corpo considerado como “fora do padrão” (40%).
- 34% das (os) entrevistadas(os) foram vítimas de violência física, nas instituições de ensino ao longo de 2024, sendo que expressão de gênero (20%), orientação sexual (20%) e aparência (19%) foram fatores mais mencionados como supostos gatilhos para a violência sofrida.
- O percentual de violência física contra LGBTI+ aumenta para 38% quando se trata de estudantes trans/travestis e de pessoas negras. Sete pontos percentuais a mais em relação aos seus pares cisgênero (cis) (31%), pessoas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo biológico que lhes foi atribuído ao nascer.
Relatório: Pesquisa Nacional sobre o Bullying Aliança LGBTI: https://aliancalgbti.org.br/wp-content/uploads/2025/04/Relatorio_Pesquisa-Nacional-sobre-o-Bullying_Alianca-LGBTI-1.pdf
A evasão escolar de alunas LBTs torna-se realidade quando o ambiente educacional não é seguro para as mesmas, onde, além do machismo estrutural, meninas lésbicas, bissexuais e transsexuais enfrentam preconceitos contra suas orientações e identidades. Esse problema se agrava ainda mais ao pisarem fora do chão da escola:
Em um levantamento de mortes violentas divulgado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), no Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil e reforçado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram documentadas em 2025:
- 257 mortes violentas;
- 204 homicídios;
- 20 suicídios;
- 17 latrocínios
- 16 casos de mortes por outras causas, como atropelamento e afogamento.
Os dados incluem, além da população trans, pessoas gays, lésbicas e bissexuais. Em 2024, foram mapeadas 291 mortes violentas. Em 2025, os 257 casos representam uma queda de 12% em comparação ao ano anterior.
País do transfeminicídio, o Brasil é um dos países que mais mata trans e travestis no mundo, liderando os índices globais de assassinatos e de violência de maneira marcante e generificada. A 9º Edição do Dossiê: Assassinatos e Violências Contras Travestis e Transexuais Brasileiras revela que:
- Travestis e mulheres trans representam 97% dos casos, com 1.221 assassinatos, nos últimos nove anos.
- 7 eram travestis/mulheres trans, explicitando que a violência de gênero, a motivação, assim como a própria escolha da vítima têm relação direta com a identidade de gênero (feminina) expressa pelas vítimas.
9º Edição do Dossiê: Assassinatos e Violências Contras Travestis e Transexuais Brasileiras: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2026/01/dossie-antra-2026.pdf
A primeira instituição que expulsa é a família: cicatrizes de uma cidadania negada
Artigo de Caroline Silva, mulher trans, ativista e coordenadora do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (Fonatrans) Paraná
Antes de falar de educação, saúde e trabalho, preciso dizer uma coisa muito importante: a primeira instituição que expulsa pessoas trans é a família. E isso marca tudo. Quando o afeto, o acolhimento e a proteção não vêm de casa, a gente cresce aprendendo a sobreviver, não a viver. Essa exclusão inicial cria feridas profundas e nos empurra para um mundo que já nos rejeita antes mesmo de nos conhecer.
Na educação, essa rejeição se intensifica. O ambiente escolar, que deveria ser um espaço de aprendizado e desenvolvimento, transforma-se em um lugar de medo. Pessoas trans, especialmente mulheres trans, têm uma dificuldade imensa de se relacionar com colegas e professores durante o período escolar. O isolamento, os olhares, os apelidos, as agressões verbais e físicas fazem com que a escola vire um campo constante de violência. O bullying não é um episódio isolado, ele é cotidiano e isso afasta, adoece e expulsa. Muitas não abandonam a escola porque querem, mas porque não conseguem mais suportar estar ali.
E quando a gente fala de saúde, é impossível separar isso da violência institucional. Existe uma necessidade urgente de atendimento especializado e, acima de tudo, humanizado. Hoje, vivemos um ataque constante ao direito básico de usar o banheiro de acordo com a identidade. Essa perseguição tem consequências reais e graves. Muitas mulheres trans evitam usar banheiros públicos por medo de agressões, constrangimentos ou expulsões. Segurar a urina por longos períodos se torna uma rotina, e isso aumenta significativamente os casos de infecções urinárias e outros problemas de saúde. Isso não é “opinião”, é um impacto direto da transfobia sobre os corpos.
Além disso, o despreparo dos profissionais de saúde e o tratamento desrespeitoso fazem com que muitas pessoas trans evitem procurar atendimento, mesmo quando precisam. A mulher trans só quer ser cuidada com dignidade, sem ser violentada de novo dentro de um sistema que deveria nos proteger.
Tudo isso desemboca no trabalho. A exclusão familiar, a evasão escolar forçada e a falta de acesso à saúde criam um ciclo cruel. Entrar no mercado de trabalho formal se torna extremamente difícil. Mesmo com qualificação, portas se fecham por puro preconceito. Isso impacta diretamente a autonomia, a renda e a possibilidade de sonhar com um futuro diferente. Falar de trabalho para mulheres trans é falar de sobrevivência, de dignidade e do direito básico de existir com segurança.
Educação, saúde e trabalho estão conectados por uma mesma estrutura de exclusão. Enquanto essas barreiras não forem enfrentadas de forma séria, pessoas trans continuarão sendo empurradas para a margem. O que exigimos não é favor é um direito, respeito e a chance real de viver plenamente.
A brasileira que virou símbolo LGBT e cujo assassinato levou a novas leis em Portugal: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160218_brasileira_lgbt_portugal_mf
Sugestões para trabalhar em sala de aula com os seguintes questionamentos:
1) O que a escola tem feito para proporcionar um ambiente seguro para meninas LBT?
2) Quais atitudes coletivas podem garantir a permanência dessas meninas em sala de aula?
3) Quais canais de denúncias contatar quando presenciar uma cena de LGBTIfobia?
4) Cartilha | Apresentar a cartilha de orientações à população LGBTI no combate à LBGTIFOBIA produzida pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e pela Associação Brasileira de Lésbicas. Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) como material informativo para estudantes, discutindo os conteúdos abordados na mesma. Link: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2020/03/cartilha-lgbtifobia.pdf
5) Criar campanhas de conscientização, a partir da produção de cartazes com a análise crítica sobre as seguintes temáticas:
- Saúde mental.
- Política Nacional de Saúde para a comunidade LBGTI+
- Canal de denúncias contra violência
- Dicas de filmes, séries e artistas que compõem a comunidade.
Após a produção, os estudantes podem realizar a exposição dos conteúdos para a escola.
6) CineClube
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- Uma Mulher Fantástica (2017): Filme chileno, dirigido por Sebastián Lelio conta a história de Mariana, uma jovem mulher transgênero que vive em Santiago,expondo sua resiliência e a luta pela identidade em meio à dor. Após presenciar a morte súbita de seu namorado mais velho, ela precisa lutar contra o preconceito da familia e da sociedade, pois lhe negam o direito ao luto.
- Madalena (2021): Drama brasileiro dirigido por Madiano Marcheti, conta a história de três jovens que têm sua vida conectada pelo desaparecimento de uma mulher trans em uma cidade do Mato Grosso do Sul.
- Divinas Divas (2016): Documentário brasileiro dirigido pela atriz Leandra Leal, mostra a trajetória artística de oito artistas lendárias e pioneiras travestis desde a década de 1960.
- Laerte-se (2017): Documentário brasileiro dirigido por Lygia Barbosa e Eliane Brum, retrata a vida da cartunista brasileira Laerte Coutinho. A artista que marcou a vida de brasileiros(as) com personagens como “Lola, a andorinha”, descobriu-se transformista e, posteriormente, uma mulher trans aos 58 anos.
Após a exibição do filme, os(as) alunos(as) podem produzir resenhas críticas e opinativas sobre a obra e compartilhar suas visões coletivamente em sala de aula.
7) Criação da Comissão Anti-Opressão e Canal de Denúncias
A partir da realização de uma ou mais atividades, os(as) educadores(as) podem propor aos (às) estudantes a criação de uma CAO (Comissão Anti-Opressão), onde essa comissão será responsável por levar demandas junto à coordenação/ direção do colégio para o rompimento do ciclo de violência, auxiliando na resolução das situações apresentadas.
8) Leitura
Transfeminismo: Teorias e Práticas – Autora Jaqueline Gomes de Jesus (2014). A obra aprofunda reflexões da linha de pensamento do “transfeminismo”, que faz parte da terceira onda do feminismo que debate sobre a regulação dos corpos que não se adequam às normas binárias e trazem questionamentos e análises sobre as questões de gênero e de identidade de gênero como garantia de direitos para mulheres trans.
Jamais peço desculpas por me derramar: Poemas de temporal e mansidão (2019) – Autora Ryane Leão. A obra que já vendeu cerca de 40 mil exemplares traz, de maneira poética a ambiguidade entre a força e a vulnerabilidade de mulheres negras. No livro, Ryane fala sobre os desafios do racismo estrutural, preconceito religioso, libertação, amor próprio e feminismo.
Não Vão Nos Matar Agora (2021) – Autora Jota Mombaça. Primeira obra literária de Jota Mombaça, traz o conceito de “redistribuição desobediente da violência”, onde corpos dissidentes são alvo constante de violências, a paz é frequentemente uma ferramenta de manutenção e dominação social. Nesse contexto, a desobediência é a forma de resistência.
Cartilha “Todas as Mulheres: Dignidade, Cidadania e Direitos Humanos para Travestis e Mulheres Trans”. Guia elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) em parceria do Ministério das Mulheres, teve o apoio da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) e da campanha do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ONU Direitos Humanos) Livres & Iguais. O material presenta os fundamentos legais da proibição da discriminação contra travestis e mulheres trans, sistematiza as principais conquistas da comunidade e descreve os parâmetros de direitos humanos para protegê-las das discriminações. Acesse: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2025/10/guia-todas-as-mulheres-cidadania-trans-antra-mm.pdf














