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ATLAS DA EXCLUSÃO SOCIAL NO BRASIL

Organizadores: Márcio Pochamnn, André Campos, Alexandre Barbosa, Ricardo Amorim, Ronnie Aldrin

OS RICOS NO BRASIL

Como é possível um país com mais de 177 milhões de habitantes possuir apenas cinco mil famílias portadoras de um estoque de riqueza equivalente a 2/5 de todo o fluxo de renda gerado pelo país no período de um ano!? E isso não se trata de algo recente. A evolução histórica nacional é recorrente de situações exemplares de manutenção da concentração e centralização da riqueza em mãos de muito poucos.

Não representa nenhuma novidade reconhecer que os ricos constituem um segmento social que detém tanto a maior parcela do estoque de riqueza existente como a maior proporção da renda gerada a cada ano no país. Porém, não há como enfrentar efetivamente a exclusão social sem antes alterar profundamente o esquema primário existente de distribuição de riqueza e da renda.

Além disso, deve-se ressaltar que são justamente os ricos os portadores de maior poder no interior da sociedade, influindo direta e indiretamente nos mecanismos de produção e reprodução da riqueza e da pobreza. Por intermédio de elites políticas e econômicas, o segmento rico da população interage socialmente e termina por orientar, na maior parte das vezes, a condução das políticas econômicas e sociais que resistem a uma redução da desigualdade.

Assim, o conhecimento do estrato populacional mais rico do Brasil, bem como a sua distribuição geográfica no território nacional, constitui um passo necessário e fundamental para a implementação de políticas inovadoras e exitosas de enfrentamento do processo de exclusão social. Para isso foi desenvolvido um grande esforço técnico-metodológico direcionado à revisão da literatura especializada e à sistematização do conjunto atualmente existente e disponível de informações sobre os ricos.

A equipe de pesquisadores que esteve envolvida coletivamente na produção deste terceiro Atlas da Exclusão Social no Brasil contribuiu para oferecer uma ampla visão a respeito do dimensionamento da riqueza e dos ricos no país, assim como de sua distribuição no espaço, por estados, municípios e no interior de grandes cidades. Ao mesmo tempo, procurou-se apresentar, inicialmente,) os principais traços marcantes da trajetória histórica da riqueza no Brasil, bem como aspectos característicos de manifestação da presença dos ricos na sociedade.

ONDE ESTÃO OS RICOS NO BRASIL

O Brasil, de acordo com os dados do Censo 2000, possuía no início do século XXI pouco mais de 1.162.164 de famílias ricas (2,4% do total de famílias existentes no país). Tais famílias possuíam uma renda familiar mensal acima de R$ 10.982,00 em valores de setembro de 2003. A renda familiar mensal média destas famílias era de R$ 22.487,00, segundo os mesmos critérios.

Esta renda familiar média mensal dos ricos era 14 vezes maior do que a renda familiar mensal média do país e cerca de 80 vezes superior à linha de pobreza abaixo da qual se situam os 20% mais pobres do país. Além disso, as famílias mais ricas respondiam por 1/3 de toda a massa de renda familiar do país, declarada no Censo de 2000.

Entretanto, o estabelecimento de uma linha de riqueza nacional acaba abstraindo diferenças regionais significativas em termos de padrão de consumo e custo de vida, as quais serão elucidadas no tópico seguinte.

Vale ressaltar neste sentido que, de acordo com a linha de riqueza nacional utilizada, 6,1% das famílias pau listas são consideradas ricas, contra 0,4% para o caso do Maranhão – estado situado no outro extremo. Já em termos de diferença entre a renda familiar dos ricos e a renda média familiar total por estado, esta disparidade que, em São Paulo, é de cerca de 11 vezes, mostra-se superior a 30 vezes no caso maranhense.

Ao se analisar a distribuição dos ricos no Brasil no ano de 2000 – ou seja, do 1,162 milhão de famílias -, percebe-se que 58% destas famílias encontram-se concentradas no estado de São Paulo. Pelo critério de grandes regiões naturais, 73,5% das famílias ricas estão localizadas na região Sudeste, outros 10% na região Sul e o restante nas regiões Nordeste (7,7%), Centro – Oeste (6,4%) e Norte (2,4%).

Ao se ponderar a participação de cada estado no total de famílias ricas pela sua participação na população total, observa-se que o estado de São Paulo e o Distrito Federal são as únicas regiões a possuírem um índice de riqueza (participação do estado no total de famílias ricas/participação do estado na população total) superior a 2,0. Em seguida, aparecem os estados cujo índice de riqueza gira de 0,5 a 1,0, quais sejam: Rio de Janeiro 0,0), Rio Grande do Sul e Paraná (0,7), Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina (0,6) e Minas Gerais (0,5). Todos os demais estados possuem um índice de riqueza inferior a 0,5, ou seja, a participação do estado no total de ricos do país é menor do que a metade da participação deste estado na população brasileira.

Já se analisarmos a massa de riqueza (renda média familiar x número de famílias ricas), a distribuição da riqueza apresenta-se ainda mais concentrada – 60% no estado de São Paulo, 75,5% para o conjunto da região Sudeste, com a mesma participação na região Sul, participações inferiores no Centro-Oeste e no Nordeste com um percentual um pouco acima na região Norte – se comparada à distribuição regional do número de famílias ricas. Ou seja, os índices de distribuição de massa de riqueza mantêm-se muito semelhantes aos índices de distribuição do número de famílias ricas.

Quanto à distribuição das famílias ricas por municípios, observa-se que 38% destas estão localizadas na capital paulista. Além disso, 50% do total das famílias ricas do país situam-se em quatro cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. Segundo o gráfico 1, percebe-se também que as 10 cidades mais abastadas concentram 60% dos ricos do Brasil, enquanto as 100 cidades com maior número de ricos, 84%.

Observa-se abaixo o ranking das 100 cidades com maior número de ricos para o ano de 2000 (quadro 1), segundo a linha de riqueza nacional, cujo piso é de R$ 10.982,00 por família em valores de setembro de 2003. O estado de São Paulo aparece com 47 cidades, seguido do Rio Grande do Sul com 7 cidades, do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, todos com 6 cidades, Santa Catarina com 4 cidades, Pernambuco com 3 cidades, além de Bahia, Espírito Santo, Goiás e Paraíba, todos com 2 cidades.

Quadro 1. Ranking das 100 cidades com maior número de famílias ricas:

Município Unidade Federativa N° famílias ricas
São Paulo SP 443.462
Rio de Janeiro RJ 76.317
Brasília DF 34.994
Belo Horizonte MG 27.526
São Bemardo do Campo SP 23.394
Porto Alegre RS 23.224
Curitiba PR 20.872
Santo André SP 20.475
Guarulhos SP 17.094
Salvador BA 15.182
Campinas SP 13.487
Osasco SP 12.879
Fortaleza CE 12.735
Recife PE 12.615
Goiânia GO 11.117
Niterói RJ 10.394
São Caetano do Sul SP 9.505
Mogi das Cruzes SP 7.139
Belém PA 6.619
Santos SP 6.450
Manaus AM 6.311
Florianópolis SC 6.012
Ribeirão Preto SP 5.376
Vitória ES 4.949
Natal RN 4.794
Campo Grande MS 4.511
São José dos Campos SP 4.369
Barueri SP 4.264
Cuiabá MT 4.196
Maceió AL 4.049
Santana de Parnaíba SP 4.043
João Pessoa PB 3.495
Cotia SP 3.449
São Luís MA 3.297
Teresina PI 3.231
Londrina PR 3.169
Diadema SP 3.143
Sorocaba SP 3.137
São José do Rio Preto SP 3.084
Jundiaí SP 3.074
Taboão da Serra SP 2.907
Aracaju SE 2.905
Juiz de Fora MG 2.823
Uberlândia MG 2.795
Mauá SP 2.491
Piracicaba SP 2.463
Joinville SC 2.449
Carapicuíba SP 2.444
Vila Velha ES 2.441
Caxias do Sul RS 2.435
Suzano SP 2.341
Bauru SP 2.223
Maringá PR 1.970
Jaboatão dos Guararapes PE 1.835
Taubaté SP 1.708
Petrópolis RJ 1.623
Presidente Prudente SP 1.621
Ribeirão Pires SP 1.605
Santa Maria RS 1.495
Blumenau SC 1.464
Mairiporã SP 1.451
Porto Velho RO 1.411
São Carlos SP 1.399
Uberaba MG 1.390
Pelotas RS 1.338
Embu SP 1.312
Araçatuba SP 1.310
Itapecerica da Serra SP 1.278
Franca SP 1.235
Novo Hamburgo RS 1.212
Cascavel PR 1.201
Foz do Iguaçu PR 1.178
Marilia SP 1.134
Limeira SP 1.124
Araraquara SP 1.105
Nova Iguaçu RJ 1.083
Indaiatuba SP 1.080
Americana SP 1.076
Rio Claro SP 1.068
Arujá SP 1.051
Passo Fundo RS 1.040
Feira de Santana BA 1.039
Anápolis GO 1.032
Poá SP 988
Ponta Grossa PR 977
Olinda PE 973
Valinhos SP 946
Itaquaquecetuba SP 932
Palmas TO 923
Caieiras SP 914
Itu SP 913
Campos dos Goitacazes RJ 912
Canoas RS 910
Montes Claros MG 902
Rio Branco AC 894
Atibaia SP 893
Balneário Camboriú SC 892
Poços de Caldas MG 888
Campina Grande PB 885
São Gonçalo RJ 877

SÃO PAULO: NÚMEROS QUE ASSOMBRAM

Uma cidade que é quase um país. Inclusive no tamanho dos problemas. O Censo de 2000 do IBGE apontou em São Paulo uma população de 10,5 milhões de habitantes morando em quase 3,0 milhões de domicílios, ou seja, 6,7% dos domicílios brasileiros.

Essa enorme concentração urbana é responsável por uma massa de renda também assombrosa e que, como não poderia deixar de ser, está bastante concentrada em poucas mãos, localizadas em áreas específicas da cidade.

Tomando por base a ponta mais aguda da pirâmide de renda, isto é, dentre as famílias, selecionar apenas as que possuem rendimento superior à linha de riqueza do estado7, alguns números saltam aos olhos. Em primeiro lugar, São Paulo possui 76.738 famílias que recebem mais que o valor acima (75,7% das famílias mais xicas do estado). Em segundo lugar, a renda média dessas famílias paulistanas mais ricas está em R$ 36,6 mil, ou seja, mais do que o dobro da renda média dos 1% mais ricos do Brasil (R$ 14,6 mil).

Em termos de município, é mais interessante notar que essas famílias de alta renda estão claramente concentradas em alguns distritos8 visíveis nos mapas a seguir. Observe, neste caso, que apenas 10 distritos (Jardim Paulista com 5.813 famílias ricas, Moema com 5.757, ltaim Bibi com 4.472, Perdizes com 4.296, Vila Mariana com 4.652, Pinheiros com 3.484, Morumbi com 2.594, Santo Amaro com 2.472, Consolação com 2.945 e Alto de Pinheiros com 2.694) concentram 51,1% das famílias paulistanas ricas que movimentam mensalmente R$ 1,5 bilhão ou 53,2% da renda dos mais ricos da cidade. Se a análise alcançar 20 distritos, as famílias mais ricas movimentam R$ 2,1 bilhões, isto é, 74,9% dos R$ 2,8 bilhões do total da renda dos mais ricos. Vale lembrar que 10 distritos significam apenas 10,4% dos 96 exis tentes em São Paulo e todos, sem exceção, estão localizados no centrosul da cidade.

É nesses distritos que encontramos o bairro Jardim Europa (distrito Jardim Paulista), com o segundo metro quadrado mais caro do país, avaliado em R$ 6,5 mil. Um apartamento de três quartos ali custa, em média, R$ 1,2 milhão. É também nessa região que está a Avenida Paulista, um dos maiores centros financeiros da América Latina (distrito Consolação). Tudo isso sem contar com a completa infra-estrutura em equipamentos sociais, desde hospitais até cinemas e shoppings centers.

 

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