Militar faz ataque machista contra professora e dirigente da APP em escola cívico-militar de Apucarana APP-Sindicato

Militar faz ataque machista contra professora e dirigente da APP em escola cívico-militar de Apucarana

Violência de gênero: policial falou que professora com mais de 30 anos de carreira é “acéfala” e “tem conhecimento raso”, mas ficou em silêncio quando questionado por outro professor

Foto: Jonathan Campos/AEN

Era para ser apenas uma fala de representantes do sindicato em uma escola da rede estadual, como acontece frequentemente, mas a reação agressiva de um policial militar aposentado contra a presidenta da APP-Sindicato de Apucarana transformou a reunião da Semana Pedagógica do Colégio Estadual Cívico-Militar Polivalente Carlos Domingos Silva, de Apucarana, em um episódio de autoritarismo, machismo e misoginia.

O caso aconteceu na manhã da última sexta-feira (2). Após a professora Isabel Cristina de Oliveira Azevedo fazer uso da palavra e apresentar as pautas e orientações do sindicato, o sargento da reserva Antonio Noel Delgado, se dirigiu à docente em tom intimidador e grosseiro alegando que ela teria “conhecimento raso” e depois ainda a chamou de “acéfala”.

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Em nota de repúdio, a APP de Apucarana descreve o ocorrido e menciona a indignação dos(as) presentes com a atitude descontrolada e o despreparo do militar colocado pela Secretaria da Educação para atuar dentro da instituição de ensino e interagir com educadores(as), crianças e adolescentes.

“Além de misógino e extremamente desrespeitoso com a sindicalista, ele a ofendeu pessoalmente. Se o militar tomou esta atitude com uma professora que tem mais de 30 anos lecionando na escola, em frente a todo o corpo docente da instituição, qual será a atitude dele para com o(a) aluno(a)?”, questiona a nota.

Intimidação

Isabel relata que estava acompanhada do professor e também dirigente da APP, João Antônio Almeida, e que ambos tiveram autorização da direção escolar para dialogar com os(as) trabalhadores(as) sobre os temas do caderno pedagógico produzido pela APP e enviado anualmente para todas as escolas antes do início do ano letivo.

“Cumprimentei todos e todas e disse sobre o que a fala seria, como todo ano a gente faz na Semana Pedagógica. Olhei para os dois sargentos que estavam lá na formação e falei para eles: olha, não é nada pessoal. Disse, inclusive sou casada com um policial. Começamos falando sobre a nossa contrariedade sobre o cívico-militar, emendamos sobre a plataformização, a tabela dos funcionários e as vantagens de ser sindicalizado, que a nossa luta é coletiva”.

De acordo com o relato, bem antes dos(as) dirigentes(as) concluírem a participação, o sargento Delgado se levantou abruptamente, se dirigiu até a porta e ficou olhando para as pessoas em tom de desagrado. Depois se dirigiu a outro militar e pediu para comentar a fala dos sindicalistas dirigida aos profissionais da educação.

Segundo a professora, o outro policial disse que eles não teriam o que falar, porque é um direito do sindicato fazer o contraponto e que todos os trabalhadores têm o direito de ser sindicalizados. Falou, inclusive, que os militares se beneficiam da luta dos(as) professores(as). Mas Delgado não teria obedecido o conselho e o primeiro ataque se deu na sequência desse momento. 

“O colega dele terminou, aí ele dirigiu-se a mim e falou que o meu conhecimento era raso, porque eu não entendia nada do que é militar e o que é cívico-militar. Me senti ofendida, mas não respondi, porque os diretores já estavam incomodados com a atitude dele. Estavam apreensivos. Para não criar caso, resolvi ficar quieta e depois falar com ele em separado, falar que eu não tinha gostado.”

Minutos depois o professor José Antônio Almeida se posicionou criticando o tom agressivo e as ofensas do militar contra a professora e dirigente sindical. Aproveitando a deixa, Isabel se dirigiu ao sargento, e falou que não gostou da fala dele, pois em nenhum momento havia ofendido os policiais militares ou feito qualquer tipo de ataque pessoal. Foi então que a professora recebeu o segundo ataque.

“Terminei a minha fala, virei para frente, ele estava sentado atrás de mim, foi quando ele me chamou de acéfala. Ele disse: o seu conhecimento é de uma pessoa acéfala’, conta.

Violência de gênero

Para a educadora, que possui mais de 30 anos de experiência como professora, ela foi atacada pelo fato de ser mulher, porque quando o professor José Antônio criticou a conduta do sargento, ele permaneceu em silêncio. 

“O professor concordou com tudo que eu falei, complementou e quando disse a ele que não gostou, que ele foi muito desagradável, sem educação, ele não rebateu, não falou, não afrontou o professor. Então eu acho que foi por eu ser mulher, por ele achar que pode me intimidar por eu ser mulher”

Segundo a professora Isabel, a direção da escola comunicou a situação ao Núcleo Regional de Educação, mas até o momento ela diz não ter informação se foi tomada alguma medida contra o militar. A orientação que recebeu é de que pode registrar um boletim de ocorrência.

“Hoje eu vou fazer o boletim de ocorrência, porque eu acho que a gente não deve deixar isso passar. O que aconteceu é gravíssimo. Nós já temos problemas demais com a militarização e isso não é algo simples para deixar para lá.”

Cabide de emprego

O Colégio Estadual Polivalente Carlos Domingos Silva, de Apucarana, é um dos 118 novos estabelecimentos da rede estadual de ensino militarizados no ano passado, após um processo de consulta pública marcado por práticas antissindicais e ausência de espaço para a comunidade escolar acessar informações sobre os problemas dessa política imposta pelo governo Ratinho Jr.. Segundo a dirigente da APP, a disputa foi acirrada no Polivalente, com apenas cerca de 70 votos de diferença. 

Apesar da propaganda do governo, a rejeição ao modelo vem crescendo em todo o estado. No processo realizado em novembro de 2023, 44 escolas (35%) optaram pela continuidade da escola democrática. Os números representam uma evolução significativa em relação à consulta de 2020, quando apenas 12% das comunidades rejeitaram a militarização.

O Programa de Escolas Cívico-Militares (Pecim) foi adotado em cerca de 200 escolas estaduais no primeiro mandato do governo Ratinho Jr.. Até hoje, não há notícia de resultados positivos, mas o estado já conta com 312 estabelecimentos nesta modalidade.

A iniciativa não destina qualquer recurso a mais para as escolas. Pelo contrário, retira recursos do Estado para pagar uma generosa gratificação a militares aposentados(as). O valor é R$ 5,5 mil, maior do que o piso dos(as) professores(as) e o suficiente para pagar o salário básico de quatro funcionários(as) (Agentes I). É o maior cabide de emprego para militares aposentados(as) do Brasil.

>> Saiba mais: Escola Não é Quartel: 7 motivos para dizer não às escolas cívico-militares

Com vários escândalos denunciados em todo país, esse modelo de gestão escolar se notabilizou por graves episódios de violência contra menores, abuso de autoridade e corrosão da gestão democrática. Trata-se de um modelo falido, ultrapassado e cuja única sustentação é ideológica.

Além disso, nas escolas militarizadas o governo encerra a oferta do ensino noturno, da Educação de Jovens e Adultos e dos cursos técnicos, prejudicando milhares de estudantes e adultos que trabalham durante o dia ou que não terminaram os estudos na idade certa.

Outro agravante é o fato de que a direção deixa de ser eleita pela comunidade e passa a ser indicada pelo governo. Os estudantes também são obrigados a aderir a normas estéticas arbitrárias, como cortes de cabelo específicos, e outras proibições.

Retrocesso

Anunciados pelo governo Ratinho Jr. como se fossem uma fórmula mágica para melhoria da educação, todos os colégios Cívico-Militares implantados na rede estadual apresentam resultados no Ideb inferiores ao de dezenas de escolas com gestão democrática. 

 

É o que mostra uma análise realizada pela APP-Sindicato nos dados do Ideb 2021, divulgados pelo Ministério da Educação. No ranking das 30 escolas com maior nota no ensino médio, por exemplo, nenhuma é cívico-militar. O Colégio Estadual de Laranjeiras do Sul lidera a lista. A escola obteve nota 6,2, índice 34% maior do que a média do estado. 

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Leia abaixo a íntegra da nota de repúdio divulgada pelo Núcleo Sindical da APP em Apucarana.

 

Nota de Repúdio

Na manhã desta sexta-feira (2), como ocorre tradicionalmente todos os anos, a APP-Sindicato esteve em escolas de todo o estado para uma visita durante a Semana Pedagógica. A presidenta do núcleo sindical de Apucarana, Isabel C. O. Azevedo, acompanhada pelo dirigente responsável pela pasta jurídica, José Antônio Almeida, estavam no Colégio Estadual CM Polivalente Carlos Domingos Silva e pediram para fazer a fala em nome da APP-Sindicato. A direção da escola e as pedagogas concordaram e anunciaram os(as) dirigentes. A presidenta Isabel fez a abertura da fala, saudando a todas(os) e apresentando as pautas atuais do sindicato, entre elas, os problemas causados pela atual militarização das escolas. Isabel explicou primeiramente que não tinha nada contra os(as) trabalhadores(as) militares, que inclusive é casada com um militar. Deixou explícito em sua fala que não tinha nada contra qualquer pessoa ali presente, mas sim contra o projeto de militarização das escolas imposto pelo Governo Estadual. Se pronunciou sobre a perda de autonomia dos(as) professores(as) com a militarização e a plataformização nas escolas e que a categoria está tendo graves problemas com as aulas extraordinárias e com as ordens de serviço nos colégios cívico-militares – o que tem sido uma grande injustiça até mesmo com professores(as) bastante experientes. Isabel apresentou o conteúdo do material produzido pelo sindicato que está sendo distribuído em todas as escolas durante essa semana, como é feito anualmente. Também falou sobre a importância da coletividade e participação de todos na luta sindical e da importância da filiação de cada profissional e neste momento teve a fala complementada pelo professor José Antônio. Finalizando. Bem antes da dirigente terminar esta fala, o sargento Delgado, designado para trabalhar na escola se levantou, foi para a direção da porta e ficou com ar de desagrado, pediu a fala e outro colega militar até explicou que nem haveria necessidade de resposta e que não tinha nada contra o sindicato e que todo(a) trabalhador(a) deve ter o direito de ter um sindicato. Em seguida, o sargento Delgado toma a palavra, dirigindo-se à professora Isabel, dizendo que ela não entendia nada sobre militarização e que tinha um conhecimento muito raso, nem mesmo entendendo a diferença entre colégio militar e cívico-militar. A presidenta decidiu não respondê-lo, naquele momento, para não causar problemas para a direção e não tornar a situação ainda mais desagradável para os(as) presentes. O diretor tentou amenizar a situação, pois todo mundo havia percebido a atitude grosseira do sargento. Após a fala do diretor, o dirigente José Antônio apenas respondeu às ofensas do sargento, deixando nítido que o que ele havia feito não era respeitoso ou correto. Aproveitando a defesa do colega, a presidenta também expressou ao sargento que ele havia sido grosseiro, já que em nenhum momento ela havia feito qualquer ofensa. Explicou que era do sindicato e defendia a luta dos trabalhadores, uma luta justa e coletiva. Nisso, o sargento chamou Isabel de acéfala em um tom grosseiro e para que todos ouvissem. Após este acontecimento, o militar saiu da sala e a presidenta não falou mais nada. Grande parte dos(as) que ali estavam ficaram indignados e não concordaram com o posicionamento do militar. A APP-Sindicato repudia veementemente esta atitude tomada por um profissional militar dentro de uma escola. Afinal, além de misógino e extremamente desrespeitoso com a sindicalista, ele a ofendeu pessoalmente. Se o militar tomou esta atitude com uma professora que tem mais de 30 anos lecionando na escola, em frente a todo o corpo docente da instituição, qual será a atitude dele para com o(a) aluno(a)? Demonstrou despreparo para estar num ambiente escolar.

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