Menos plataformas, mais atenção: Reino Unido proíbe smartphones em escolas públicas

Menos plataformas, mais atenção: Reino Unido proíbe smartphones em escolas públicas

Segundo o anúncio, caso as escolas enfrentem dificuldade em implementar a medida, uma lei deverá ser aprovada para garantir o cumprimento

O governo do Reino Unido anunciou, nesta segunda-feira (2), que celulares serão banidos das escolas em todo país. A medida foi anunciada oficialmente pela secretária de Estado da Educação, Gillian Keegan.

De acordo com Gilliana, smartphones serão proibidos durante o período de aulas, incluindo nos intervalos. A medida pretende reduzir o índice de cyberbullying, além de garantir uma maior atenção dos(as) estudantes durante as aulas.

Caso as escolas tenham dificuldades em implementar a mudança, a medida pode se tornar um projeto de lei para garantir o cumprimento. Nenhum prazo de adequação foi anunciado.

A decisão se soma à tendência global de limitar o uso de tecnologias após estudos recentes que apontam para potenciais prejuízos à aprendizagem, a exemplo do relatório “Tecnologia na educação: a serviço de quem?” publicado pela Unesco em julho. Quatorze países já proibiram o uso de celulares em sala de aula.

Com a medida, a Inglaterra se junta a países como, Holanda, França e Itália, que adotaram medidas parecidas para frear a utilização de dispositivos tecnológicos em escolas.

Vale destacar que, apesar de rigorosa, a determinação prevê casos em que celulares serão permitidos, como em situações em que alunos(as) tenham necessidades médicas especiais.

“As medidas de banimento do uso de celulares nas escolas, como essa anunciada pelo governo britânico, demonstram a necessidade de ampliarmos o debate sobre a conexão da escola com o mundo online e com as diversas tecnologias do cotidiano da maioria da população. As ferramentas utilizadas dentro da sala de aula, precisam ser instrumento de apoio pedagógico e educacional, respeitando os limites do espaço de interação e aprendizagem”, explica a secretária Educacional da APP-Sindicato, Vanda Santana.

A APP aponta que a decisão de proibir celulares em espaços educacionais pode não ser a melhor decisão, principalmente se tomada de forma autocrática.

“A proibição do uso de celular na sua integralidade pode não ser a melhor escolha, especialmente se for de forma impositiva. Importante considerar que, assegurada a autonomia docente e pedagógica, um dos grandes desafios é desenvolver metodologias que integrem os conteúdos do currículo escolar com as inovações contemporâneas e que contribuam com a aprendizagem”, finaliza a secretária.

Brasil precisa avançar no tema

Enquanto países desenvolvidos avançam na restrição ou proibição total da utilização de smartphones em sala de aula, o Brasil ainda caminha a passos curtos sobre esse debate.

A nível nacional, o debate fica restrito ao PL 2.246-A, de 2007, que embora pretenda reduzir a utilização de celulares em sala de aula, é ultrapassado. No texto, termos antigos como troca constante de SMS (ou “torpedos”) são utilizados como argumentos para apontar a interação entre aluno(a) e professores(as).

Seguindo a orientação da Unesco, a prefeitura do Rio de Janeiro criou um decreto que regulamenta a utilização de celulares em salas de aulas em escolas públicas do município. Com a mudança, celulares passam a ser utilizados apenas em atividades pedagógicas, com a autorização dos(as) professores(as). 

O decreto estabelece ainda que os aparelhos só poderão ser usados em atividades pedagógicas, devidamente autorizadas pelo(a) educador(a), como pesquisas, leituras, ou acesso ao material Rioeduca, oferecido pela Prefeitura, ou outro conteúdo ou serviço. Quando permitido, o aluno deverá utilizar os aparelhos de forma silenciosa e de acordo com as orientações do professor. 

Já no Paraná professores(as) da rede paranaense e pesquisadores(as) enfrentam uma verdadeira Ilíada para combater o avanço da plataformização. 

Enquanto a noção mundial é a redução da exposição a dispositivos tecnológicos durante o período escolar, o governo Ratinho Jr. acentua sua política educacional autoritária e obriga que educadores(as) e estudantes utilizem cada vez mais aplicativos.

Iniciada em 2019 com o ex-secretário da Educação do Paraná e atual secretário da Educação de São Paulo, Renato Feder, a utilização de plataformas digitais atingiu seu ápice em 2023, disponibilizando cerca de 20 plataformas para que estudantes utilizem tanto em sala de aula, quanto em casa.

Uma pesquisa pioneira realizada pela APP-Sindicato e o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) com educadores(as) de todo o Paraná revela os reflexos da intensa digitalização nas condições de trabalho da categoria e no processo de ensino-aprendizagem.

O levantamento traz dados alarmantes, como o grau de adoecimento e sobrecarga atrelados ao modelo, a percepção de baixa aprendizagem dos(as) alunos(as) e as deficiências estruturais da rede para atender às exigências tecnológicas. Também chama atenção o elevado número de professores(as) que se sentem assediados(as) com a pressão exercida pelo cumprimento de metas e a obrigatoriedade de uso de plataformas.

Quase a totalidade dos(as) educadores(as), 91,3%, se declaram sobrecarregados(as) com a avalanche de novas plataformas, aplicativos e meios tecnológicos somados à cobrança pelo cumprimento de metas. Já 74,3% reconhecem os impactos negativos do modelo na sua saúde física e/ou mental, enquanto uma parcela maior (78,3%) afirma ter colegas que adoeceram em decorrência das dificuldades impostas pelas novas tecnologias.

Outro dado descortina a deterioração das condições de trabalho: quatro a cada 10 educadores(as) (43%) se sentem assediados(as) e reconhecem abuso de autoridade na pressão exercida sobre a comunidade escolar para utilizar as plataformas. No cerne do problema está a imposição do modelo e a pressão pelo cumprimento de metas de uso.

Sete a cada 10 entrevistados(as) (73%) se sentem obrigados(as) a adotar os meios tecnológicos impostos pela Secretaria da Educação e 95% dizem que há cobrança por metas e resultados.

>> Confira a Parte I do relatório da pesquisa “Plataformização da Educação”

Unesco recomenda restrição no uso de celulares

Segundo a Unesco, existem poucas evidências científicas que comprovem a melhora educacional após a implementação de meios digitais. Já as que existem sofrem com um problema de confiabilidade, pois boa parte são produzidas por empresas que tentam vender seus produtos. 

Um exemplo é o Reino Unido, onde 7% das empresas de tecnologia educacional conduziram estudos controlados randomizados e 12% usaram certificação de terceiros. Já uma pesquisa entre professores(as) e gestores(as) em 17 estados dos Estados Unidos demonstraram que somente 11% haviam solicitado evidências revisadas por pares antes de adotar tecnologia educacional.

>> Confira aqui o relatório da Unesco

O documento aponta também que a tecnologia pode ter um impacto negativo se for utilizada de forma adequada ou excessiva. A Unesco ressalta ainda que a simples proximidade de um aparelho celular é capaz de distrair os(as) estudantes e provocar impacto negativo na aprendizagem.

Outros pontos críticos apontados pela Unesco são a falta de regulamentação ou avaliação de qualidade do conteúdo, que é produzido por grupos dominantes, e a exposição de dados de estudantes a partir do acesso a dados privados, já que somente 14% dos países garantem a lei de privacidade dos dados na educação. 

“Uma análise descobriu que 89% dos 163 produtos de tecnologia recomendados durante a pandemia tinham a capacidade de coletar dados de crianças. Ademais, 39 dos 42 governos que ofereceram educação online durante a pandemia acomodavam usos que colocavam em risco ou infringiam os direitos das crianças”, aponta o documento.

Já sobre o acesso, a Unesco entende que a falta de democratização da rede de internet e a falta de equipamento adequado pode interferir negativamente na educação. 

“Havia no máximo 10 computadores para cada 100 estudantes no Brasil e no Marrocos, enquanto em Luxemburgo havia 160 computadores para cada 100 estudantes, de acordo com o PISA 2018”, evidencia o relatório.


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