Memória viva: histórias que não envelhecem | APP-Sindicato

Memória viva: histórias que não envelhecem


Este ano, nosso Sindicato completa 77 anos, mais atuante do que nunca. Nossa história é repleta de acontecimentos memoráveis e há aqueles que sempre se destacam e são lembrados todos os anos como os fatídicos 30 de agosto e o 29 de abril, a unificação da APP com o Sinte, greves históricas como a de 2000, a conquista da hora atividade, dentre tantas outras lutas e conquistas.  

Porém, para este aniversário resolvemos trazer, como presente, para a categoria relatos pessoais e peculiares de pessoas que ajudaram a construir nosso Sindicato ao longo destes anos. 

Antes, vamos contar de onde surgiu essa ideia. Em 2012, havia um projeto  chamado “Histórias que não se aposentaram”, idealizado pela então secretaria estadual  de Aposentados (as), Tomiko Kiyoku Falleiros. O projeto consistia na coleta de histórias diversas da/sobre a categoria que, após seleção e organização, transformariam-se em um livro. Muitas histórias chegaram dos núcleos sindicais.  Porém, por algum motivo que não soubemos precisar, elas acabaram ficando adormecidas durante todos esses anos.  

Uma tarde, em conversa com a atual secretária de Aposentados(as), Maria Adelaide Mazza Correia, ela colocou em nossas mãos tal material e nos lançou um desafio: concluir esse projeto e cá estamos nós. Inclusive, ela conta, no seu texto que em uma das ocupações da ALEP, no ano de 1988, o pessoal da casa deu cobertores com pó de vidro para os ocupantes usarem.  Imaginem só a coceira! 

Além dessas histórias, estamos incluindo outras que fazem parte do universo dos funcionários e funcionárias da APP, afinal não poderiam faltar as lendas urbanas como a de um piano que tocava sozinho no Edifício Asa. 

Não teremos um livro impresso, tampouco digital, mas uma coletânea de histórias e fatos, onde preservamos a originalidade dos textos. As narrativas que marcam alguns dos 77 anos da APP-Sindicato são prá lá de interessantes e curiosas.  Inclusive, teremos também uma história de amor. 

Esperamos que desfrutem bem dessas “Histórias que não se aposentaram”!

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Autora: Maria Adelaide M. Correia

Grupo das professoras: Sandra, Ivone, Mercês e Adelaide

Nossas memórias são mais ou menos desde os anos 1960, quando iniciamos no magistério recebendo nossos proventos pelas prefeituras municipais. Quando chegavam as greves, a comunicação era demorada, às vezes só se ouvia falar. Nós do interior, quando íamos às passeatas ou concentrações, dependíamos de nossos recursos, não havia verbas como hoje, que ao se planejar um movimento a primeira coisa é a parte econômica, como virá a sustentação do mesmo, desde translado, alimentação, divulgação e outros. Nossas participações no interior eram maiores nos grandes centros, como Londrina. Em Curitiba, nossa geração “deu a cara a tapa” muitas vezes, em pequenos movimentos e também nas grandes greves que APP tem arquivado.

“Lembro de uma professora grávida de Maringá, que fui levar à Santa Casa e na volta, ao estacionar era o exato momento da cavalaria atacando os professores, então eu não sabia que atitude tomar, levei a professora e sua mãe para minha casa e daí passei a dar pouso para duas professoras em cada noite, alimentação e vestuário, elas brincavam que era “Hotel 5 estrelas”, isto em relação ao acampamento. Quando terminou a greve, minhas camisetas também”. (Mercês)

“Houve um episódio na Assembleia, onde professores que estavam no interior não podiam sair. Fazia muito frio, houve um grande tumulto. A negociação foi interrompida e os professores ficaram acampados dentro e fora da Assembleia. Distribuíram cobertores com pó de vidro para os professores como meio de enfraquecer e terminar a greve. O mais marcante foram os cavalos prensando, bufando e pisoteando, principalmente, as professoras indefesas”. (Sandra Dias e Ivone Belinazo)

“Não tenho lembrança se a greve a que me refiro a partir de agora foi em fins de 78 ou início de 79. Lembro que Jaime Canet era o Governador. Eu estava licenciada e com um bebê de poucos meses. Escutava no rádio sobre a greve, onde estavam acontecendo as passeatas e saia de casa com meu filho, ia participar das mesmas. Encaixava meu bebê no quadril e lá ia eu: Caminhando e cantando e seguindo a canção..(Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré)

Nessa época aconteceram várias prisões de professores. Lembro que uma vez todos os ônibus com professores que se dirigiam a Curitiba para manifestação foram presos na estrada de Ponta Grossa.

Para mantermos a greve, vendíamos durante as assembleias livros de receitas elaboradas por nós. Reuníamo-nos quase diariamente no salão do CEP. Como era proibido fazer greve, nosso movimento intitulava-se: “Movimento, Educação e Justiça”.

Na greve de 88, no famigerado 30 de agosto , eu era líder de um grupo formado por escolas dos bairros Mercês e Santa Felicidade. Na passeata estava bem ao lado do carro de som e ajudei a furar o cerco policial. Dirigi-me então ao alto da Praça Nossa Senhora da Salete, de onde vi os policiais do Batalhão de Choque saírem de dentro do pátio da Assembleia e virem em nossa direção, lançando bombas no meio dos professores. Subindo naquela praça, empurravam as pessoas lá de cima, enquanto os que estavam embaixo agrediam e lançavam bombas em quem estava por ali. Um professor me auxiliou a descer e uma bomba foi lançada ao meu lado. Ao tentar correr, minhas pernas não obedeceram e fui queimada. Totalmente desorientada e sem saber o que fazer, só ao anoitecer encontrei um colega que me encaminhou ao médico da Assembleia e este me examinou. Ao chegar em casa, vi meus familiares desesperados, pois tinham assistido a reportagem na TV e não tinham notícias minhas.

Música:

Abra a porta e a janela
Venha ver quem é que sou
Sou aquele professor
Que o governo desprezou
Chora Gildinha, Gildinha chora
Diz pro Álvaro Dias
Que amanhã não vou pra escola

Autora: Arlete T. Mello

Vida Profissional (Magistério)

Com 16 anos, quando ainda cursava a 2ª série da Escola Normal (ano 1956), fui até a Prefeitura, conversei com o então prefeito da época para que me contratasse como professora. Fui então encaminhada à Secretaria de Educação, onde assinei um contrato como professora auxiliar, com lotação numa Escola Municipal na saída de Ponta Grossa. Era uma classe multisseriada e minha atividade era ajudar uma professora já experiente, com a qual aprendi muito.

Eu estudava das 7h às 12h, saía da escola e ia até a Praça Barão de Guaraúna onde minha mãe me esperava com marmita de almoço e roupa para trocar o meu uniforme. Ali, era a rodoviária (num bar) e eu pegava o ônibus de Guarapuava que passava pela escola (mais ou menos às 13h30), em que eu trabalhava com a professora regente, sendo que muitos alunos eram até mais velhos que eu. Ao terminar a aula, eu ia para a estrada apanhar o ônibus que voltava de Guarapuava. Nessa estrada, transitavam muitos caminhões carregados de madeira e, muitas vezes, já escurecendo, alguns motoristas buzinavam e até falavam palavrões; aí eu tive uma ideia: agendei com os gerentes das firmas Gasparetto e Slaviero, responsáveis pelas cargas, para que informassem a seus motoristas quem eu era e que ao invés de mexerem comigo, claro, aqueles bem intencionados, me dessem “carona” para eu voltar para a cidade; assim eu economizaria o dinheiro da passagem do ônibus e poderia então comprar alguns materiais escolares e balas para os alunos. Foi assim até me formar.

Assim que me formei, fui transferida para a Escola Municipal Catarina Miró – no bairro do mesmo nome, como regente de uma classe de 1º ano. Trabalhei até 1959 nessa escola e daí fui morar com uma tia no município de Assaí – Norte do Paraná, onde, numa secção japonesa (Paineira) assumi turmas pela manhã e pela tarde, recebendo salários pela Prefeitura de lá e também pela própria secção. Meses após, o então Prefeito do município trouxe de Curitiba a minha nomeação de professora estatutária estadual. Trabalhava então em 3 horários. Os alunos da manhã e da tarde estudavam também na escola japonesa que havia localidade; foi uma experiência bem diferente. A matemática, eu não precisava ensinar, sabiam mais que nós professoras (minha tia, minha prima e eu), mas em compensação, o português era bem difícil, pois em casa, os alunos só falavam a língua japonesa. Os alunos da noite eram maiores de 12 anos e as dificuldades com o portugês eram ainda maiores.

Assim mesmo, fiquei lá por anos anos. Em 1962, casei-me e como meu marido veio trabalhar na Klabin, solicitei transferência estadual para a cidade de Telêmaco Borba onde trabalhei no Grupo Escolar Leopoldo Mercer por 10 anos, assumindo todas as séries de 1ª a 4ª, especialmente como alfabetizadora. Trabalhei também no Projeto Mobral, à noite, projeto este que envolvia as Indústrias Klabin que teve interesse em que seus funcionários fossem alfabetizados. Recebia por “cabeça” – isto é, por aluno.

Em 1972, solicitei transferência para Ponta Grossa onde pretendia fazer uma Faculdade, e pelo concurso de remoção, fiquei lotada na Escola Peçanha (no Sabará) – era uma escola estadual e municipal. Fiquei lá por cinco anos. Então minha Diretora foi transferida para o Grupo Escola Becker e Silva – na Ronda – e como havia me convidado, nesse mesmo ato de sua remoção, saiu também a minha transferência.

Em 1974, prestei vestibular para a Faculdade de Pedagogia, no curso de Administração Escolar, que foi criado para quem queria ser diretora – Governo Jaime Canet Junior. Foi um vestibular de inverno, que era o último que não era unificado, e tinha 40 vagas. Passei em 33º lugar e o curso me deu oportunidade de me atualizar, porém nunca quis ser diretora. Quando terminei este curso (duração de 4 anos), fiz mais um ano de Supervisão Escolar e depois mais um ano de Orientação Educacional.

Nessa época fui convidada para trabalhar no curso de magistério dos colégios Sagrada Família e Sant`Ana, onde lecionei pela manhã e à noite as seguintes disciplinas: Literatura Infantil, Didática, Recursos Audiovisuais, Sociologia, Psicologia, Estrutura e Funcionamento do 1º e 2º graus e Filosofia. Trabalhava então nos três períodos. Em 1985, me aposentei do Estado, pedi demissão do colégio particular e prestei concurso como instrutora no Senac – Cursos de Datilografia e de Escritório – passei entre 30 candidatos e fui para Curitiba, na Regional, para fazer treinamento.

Trabalhei no Senac de Ponta Grossa até 2000 e quando acabou a Datilografia com a vinda da Informática e me transferiram para o Senac de Curitiba, na Regional – Rua André de Barros – onde fazia a correção ortográfica de todo material (apostilas) depois que as coordenadoras de cada área fizessem as reformulações dos conteúdos.
Tinha apoio do Disque Gramática da PUC, da Tuiuti e da Universidade Federal. Após a 1ª correção, passava cada material para que os meninos do meu Departamento digitassem e fizessem os devidos desenhos. Nesse material, passava a 2ª correção para que daí fosse finalizada. Ficava em Curitiba até 6ª feira, aí vinha para Ponta Grossa e domingo à noite retornava.

Trabalhei em Curitiba (no Senac) até 2006 e por motivo de saúde fui removida novamente para o Senac de Ponta Grossa, onde exerci várias atividades, inclusive o de Orientadora Profissional com palestras nas Escolas Públicas e Particulares, dirigidas a alunos da 3ª série do Ensino Médio.

Em 2008, já com 69 anos, requeri minha aposentadoria proporcional (pelo INSS). Ainda assim, trabalhei, mesmo aposentada, por mais dois anos. Aí sim, em 2010, resolvi parar; mas continuei trabalhando só como voluntária. Hoje, faço esse trabalho, por mais dois dias da semana, na Rede Feminina de Combate ao Câncer, onde exerço várias atividades. Participo também da APP-Sindicato, inclusive do Coral.

Sinto-me feliz, pois me realizei pessoal e profissionalmente. Durante minhas atividades profissionais, adquiri muitas experiências, ensinei e aprendi muito. Procurei sempre motivar meus alunos e tenho muito orgulho quando reencontro alguns deles que me reconhecem e sabem até a série em que fui professora deles.

Tenho plena certeza que cumpri meu dever e com muito amor, perseverança e dignidade, fiz parte da história do magistério do meu estado, onde trabalhei por mais de 48 anos.

Autora: Beloni Daron Gonsiorkiewicz

Memórias de Lutas

O relato que passo a fazer, tem o intuito não só de relembrar um fato passado, mas de homenagear os (as) companheiros (as) de luta que comigo ajudaram e ajudam construir a história de luta da APP-Sindicato por uma sociedade justa, na qual TODOS e TODAS possam viver plenamente como sujeitos livres e de direitos.

O fato a que me refiro, aconteceu no ano de 2000, na era Lerner. Eu, uma das diretoras da APP-Sindicato, Núcleo de Cascavel. Residia em Guaraniaçu e trabalhava no Colégio Desembargador Antônio Franco Ferreira da Costa. Estávamos em plena greve. Duas companheiras nossas, Eva e Fátima, funcionárias da escola, estavam em greve de fome em Curitiba, juntamente com outros professores e funcionários que também participavam do ato.

Havia uma pressão muito grande sobre nós dirigentes que coordenávamos a greve, e sobre mim, principalmente, porque eu ficara responsável por dois menores, filhos da funcionária Eva, que estava em greve de fome. Essa pressão vinha de todas as formas: da imprensa falada e escrita, da escola, em forma de ameaças, por parte da direção que fazia papel do governo e dos colegas que não aderiram à greve e, por esse motivo, tinham tempo para espalhar boatos e tentar convencer companheiros que estavam em greve, a desistir da mesma.

Porém, nosso grupo era maioria e estava muito coeso. Nos reuniamos diariamente, de manhã e à tarde, para avaliarmos o movimento e conversar com aqueles que se sentiam pressionados e isso nos tornava cada dia mais fortes.

Certa manhã, durante a nossa conversa, alguém trouxe a notícia de que naquele dia, na parte da tarde, haveria a inauguração de uma “Vila Rural”, no município de Campo Bonito, próximo de Guaraniaçu. Nessa inauguração, estaria presente o representante do Governo. Decidimos que não poderíamos perder a oportunidade de mostrar nosso movimento a quem estivesse lá. Mas, como nos deslocar até lá, se dependíamos de pelo menos um ônibus?

Alguém do grupo, se dispôs a arrumar o transporte. Disse apenas que providenciássemos as faixas e cartazes, que às 14 horas, (uma hora antes do início do evento) o transporte estaria ali.

No horário marcado, dois e não apenas um ônibus chegou, para nossa surpresa. Mas, nosso espanto ainda maior, foi pelo fato de os ônibus serem da Prefeitura (naquela época o transporte escolar ainda não era privatizado).

Resolvido o problema do transporte, nos dirigimos até a Vila Rural. Ficou acordado que as faixas e cartazes ficariam enrolados e escondidos até segunda ordem. Nosso receio é que fossemos barrados na entrada da Vila, principalmente se desconfiassem da manifestação. Porém, como os ônibus eram da Prefeitura ninguém se importou e autorizaram que os mesmos se aproximassem do local.

Quando descemos (em silêncio absoluto), ainda não havia iniciado o discurso de inauguração, mas logo o responsável pela organização, começou a chamar os convidados para que se dirigissem até o palco, inclusive o representante do governo. Estávamos a uma distância de uns cem metros do local e, como próximo ao palanque havia pouca gente,o locutor convidou para que nosso grupo se aproximasse.

Ainda em silêncio, nos aproximamos e, no momento que passaram a palavra ao representante do governo, num uníssono, abrimos as faixas e os cartazes. Houve um certo desconcerto por parte de quem usava a palavra e ele não pode fugir ao assunto, senão falar do nosso movimento. O restante dos presentes não entendeu direito o que estava acontecendo e porque a pessoa que deveria falar da Vila Rural, falava de educação, de paralisação… Enfim, tudo aconteceu de uma forma que se tivéssemos planejado não teria dado tão certo.

Permanecemos por alguns minutos com os cartazes e faixas abertos, e em seguida, ainda em silêncio, viramos as costas, enrolamos as faixas e cartazes e embarcamos nos ônibus.

No local ficaram poucas pessoas, entre eles os convidados e alguns agricultores e o eco de nossa manifestação silenciosa (ouvia-se apenas passos, eram eles que falavam por nós).

Nesse dia, o nosso movimento se fortaleceu e a lição que veio da greve foi compreendida por todos os companheiros que se solidarizavam com aqueles que arriscavam suas vidas em Curitiba na greve de fome a fim de conseguir avanços para todos – inclusive aqueles que não tiveram coragem de entrar em greve.

Outro fato que gostaria de relembrar foi quando o governo Lerner anunciou o fim dos cursos profissionalizantes e as vantagens que as escolas teriam em extinguir esses cursos e implantar a proposta do governo. Inclusive benefícios financeiros e tecnológicos. Coisas para quem “acreditava nos contos da carochinha”.

Conforme orientação da APP Estadual, nos organizamos localmente, já que no Colégio Desembargador Antônio Franco Ferreira da Costa, onde eu trabalhava, havia o Curso de Magistério. Por isso, organizamos um encontro com a professora Maria Dativa, da Universidade Federal do Paraná, a fim de debatermos “Gestão Democrática” e a formação de professores. Esse encontro foi realizado à noite, em dia letivo, no próprio colégio. Porém, para nosso espanto, fomos boicotados. Nenhum professor desse turno pode participar do debate, por determinação da Direção da escola, bem como todas as portas das salas foram fechadas, tendo em vista que as discussões se davam no saguão do colégio e portanto os alunos estavam proibidos de saírem nos corredores.

Não foi novidade, pois a direção da época fazia com muita competência seu papel de representante do governo. Mas o mais interessante, foi o grupo de professores e pedagogos que trabalhavam no curso do Magistério e que não atenderam ao nosso chamamento, acreditando que a proposta do governo era a melhor e que o curso técnico deveria ser substituído. Foi um tiro no pé. Esses educadores não pensaram em seus próprios destinos como profissionais.

Depois desse debate frustrado com a comunidade, veio a ordem de fechamento das turmas de Magistério. Mesmo assim, convocamos (eu e a professora Lurdes Rotta), os professores e alunos para uma última tentativa de convencer a comunidade a não fechar o curso.

Nova frustração. Os presentes eram eu, a professora Lurdes Rotta e algumas alunas. Enfim, o curso fechou. Só no ano seguinte os professores perceberam as verdadeiras intenções do governo. E da pior forma possível, sem aulas para as áreas técnicas. Foram grandes lições, se aprendidas, não sei.

Outro fato que marcou muito, ainda no período Lerner, foi quando a APP-Cascavel organizou um ato no Núcleo Regional de Cascavel. Naquela manhã estavam reunidos ali, mais ou menos, uns oitenta professores e funcionários. Estávamos aguardando para conversar com a chefia, (se não me engano era o início da 2ª greve nesse governo). Tudo estava correndo normalmente, quando, repentinamente, dois caminhões lotados de soldados estacionaram em frente ao Núcleo.

Ficamos assustados com a quantidade de soldados que desembarcavam todos armados com metralhadoras e com enormes pentes de balas na cintura. Parecia que iam para um enfrentamento iminente. O que mais nos surpreendeu foi a quantidade de soldados para tão poucos manifestantes.

Meu filho adolescente estava comigo e ficou muito assustado, até hoje a lembrança daquele dia o incomoda. Negociamos com o comandante, que também tinha filho na escola pública e disse estar muito constrangido, mas cumpria ordens.

Obedecemos e nos retiramos para fora do muro que separava a rua do prédio do Núcleo e montamos nossa barraca de lona preta, permanecendo por alguns dias até que o movimento determinava novas estratégias de embate.

Foram dias duros, nos quais diariamente recebíamos ameaças de toda ordem, desde aquelas psicológicas até a ordem de demissão. Resistimos, e é bom lembrar que naquela época não havia nem mesmo hora atividade, plano de carreira e tantas outras conquistas que só a luta nos garantiu.

Autora: Cláudia Gruber

No meio da Praça tinha uma árvore,
tinha uma árvore no meio da Praça

Das muitas histórias vivenciadas com a APP-Sindicato, sempre haverá uma que nos marcará profundamente. Para mim, é essa: O dia: 29 de abril de 2015. O local: Praça Nossa senhora da Salete, Centro Cívico, Curitiba.

Jamais esquecerei!

Estávamos em greve e no colégio em que eu trabalhava, houve a adesão de 99% das pessoas. Foi uma das poucas vezes, em todos os anos de Victor do Amaral, onde o povo se manteve firme e unido numa greve. Tínhamos eleito uma das árvores da praça para ser nosso ponto de encontro diário durante o movimento e todos os dias, estávamos lá. Certos dias, em grande grupo, noutros, fazíamos um revezamento, inclusive porque tínhamos colegas que estavam acampados em uma das barracas.

Eu estava como diretora geral do colégio e, naquela quarta-feira, pela manhã, eu tinha ido até à Seed, “abrir mão” do curso Técnico em Vestuário pois não tínhamos condições financeiras de trocar nossa rede elétrica para colocar o maquinário em funcionamento. Foi uma decisão muito difícil e triste para a escola, pois sonhávamos em ter esse curso, mas a mantenedora não nos dava as condições mínimas para o funcionamento e, infelizmente tivemos que abdicar do mesmo.
Cabe um parênteses aqui. Sou sindicalizada à APP desde 1993 e em todos esses anos, estive sempre presente nos grandes momentos da história de nosso sindicato, em todas as mobilizações, greves, assembleias,… fazendo, inclusive parte da diretoria estadual (1999-2002). Quando assumi a direção de escola, o processo era democrático e tínhamos muitas direções de escola que se engajaram na greve de 2015. Eu fui uma delas e, mesmo respondendo legalmente pela escola, busquei participar ativamente desse momento, já que havíamos conseguido a adesão quase total dos professores e funcionários da escola. Era imprescindível que estivesse junto aos nossos colegas o máximo de tempo possível.

No início da tarde, fomos para a Salete em cinco pessoas: Edith, Luciano, Adriana, Carlos, Patrick e eu, encontramo-nos com os demais colegas na nossa árvore. Estava frio e havia uma garoa forte, quase chuva. Todos com capa de chuva, agasalhados. Havia muito mais gente na praça este dia pois, haveria, naquela tarde, a votação do projeto de lei que confiscava nossa previdência e foi difícil chegar até nossa árvore.

Fazia algo como uns quinze minutos em que estávamos reunidos, quando começamos a ouvir gritos e barulhos de bomba. Foi tudo muito rápido. Quando olhamos para a direção da Alep, vimos pessoas correndo em nossa direção.

Instintivamente, corremos também. Dos cinco colegas que estavam comigo, todos se dispersaram, exceto a Adriana, pois eu a puxei pelo braço para corremos juntas dali. Já não conseguíamos enxergar mais nada devido à fumaça e ao incômodo que o gás causava. Quando chegamos no limite da Praça Salete com a Prefeitura de Curitiba, vimos um cordão de isolamento da PM. Ficamos em dúvida de qual direção tomar e acabamos passando no meio desse cordão, em direção à parede lateral do prédio da Prefeitura.

Ladeando a Prefeitura, há arbustos frondosos, que encobrem a parte debaixo do prédio. Fomos para lá e ficamos escondidas ali junto de muitas outras pessoas. O medo e o gás que havíamos aspirado nos imobilizavam. Víamos chegarem cada vez mais pessoas onde estávamos. Havia algumas ensanguentadas. O barulho era ensurdecedor e os gritos não paravam. Ao mesmo tempo em que queríamos sair dali para bem longe, também pensávamos em ajudar quem estava ao nosso lado.

Tentávamos nos acalmar e acalmar as demais pessoas mas, era em vão. Já fazia mais de uma hora que estávamos ali e as bombas não paravam. Na sequência, vimos que havia helicópteros e deles caiam mais bombas. Ouvíamos as falas vindas do caminhão de som, mas não compreendíamos direito o que diziam. Tentávamos contato com nossos colegas para saber como estavam, mas ninguém respondia. Isso nos angustiava cada vez mais. Naquela época, o Whatsapp era incipiente e o sinal de rede horrível, o que dificultava nossa comunicação. Mensagens demoravam para ser enviadas e chegavam muito tempo depois, por isso optamos por permanecer ali o tempo que fosse necessário.

Já era final de tarde, quando as coisas começaram a se acalmar e pudemos voltar à Praça para procurar nossos colegas. Demoramos um bom tempo até irmos nos reencontrando e cada um que chegava, trazia no rosto o medo e a angústia que sentiu naquela tarde de horror. Do nosso grupo de escola, havia várias pessoas machucadas: ou cassetetes ou por balas de borracha. Do gás, todos provamos.

Olhos vermelhos, lacrimejantes, céu da boca e garganta irritados, ardendo. A dor de cabeça era insuportável e o corpo todo doía, pois o medo e o pavor o fizeram doer ainda mais. Na prefeitura, não param de entrar pessoas ensanguentadas, as ambulâncias começam a formar filas na calçada. O entra e sai não para.

As lembranças dessa tarde surgem fragmentadas. Fecho os olhos e vejo alguns rostos, ouço trechos de fala, sinto o cheiro do gás. Nesse exato momento em que escrevo, parece que volto a montar um imenso quebra-cabeças e uma das últimas imagens que se forma é a de uma praça escura praticamente deserta, à noite. No chão, pedras soltas, muitas cápsulas das balas de borracha, bandeiras e faixas rasgadas. Volto pra casa, a pé. Preciso respirar pois, o peito está apertado e amanhã, a luta deve continuar. Ela não pode parar.

Autora: Dione M. F. Santos Barth

Vida real

A  verdadeira vida não é constituída de currículos, homenagens ou  mesmo de conquistas que aumentam nosso intelecto, mas sim de essência humana. A maior mensagem que podemos deixar cravada na nossa vida é a maneira pela qual vamos vivê-la, tornar nossa vida em nossa mensagem.

Mensagem que escrevi no meu trajeto, durante os 26 anos dedicados em prol da educação em Cascavel. Foram anos de muitas lutas, alegrias, tristezas, mas com compensação sempre de reconhecimento profissional e, porque não dizer, também humano.

A minha trajetória como professora começou no ano de 1966, na época em que eu tinha apenas 16 anos. Lecionava na Escola Professora Júlia Wanderley, no bairro Cancelli, que era de fácil locomoção, pois morava no mesmo bairro. No ano seguinte,  fui lecionar na escola Frei Henrique, no bairro São Cristóvão, o que já dificultava, pois naquela época tínhamos que ir a pé do Cancelli até o São Cristóvão, então enfrentávamos pó, barro, sol, chuva, mas fazíamos isso com alegria e disposição.

No ano seguinte, conseguimos retornar à escola Julia Wanderley, na qual ficamos até o ano de 1972, quando fomos trabalhar na Seção de Ensino Primário da Secretaria de Educação e Cultura do Município de Cascavel, onde fui reenquadrada para o cargo de Supervisora de Ensino.

Nesse período, atuei em diversas funções além da supervisão, tais como: orientadora do projeto HAPRONT, monitora de classes multisseriadas, agente local das APMS, diretora do departamento de educação, entre outros. No ano de 1978, ingressei na rede estadual.de ensino de educação, mas logo comecei a prestar serviço na Secretaria Municipal atendendo aos dois órgãos – municipal e estadual. Foram anos de trabalho junto a professores e alunos, pais e comunidade, trabalho que era feito junto à zona rural, atendendo a todos os distritos de Cascavel.

Nestas visitas às escolas, fazíamos o trabalho de supervisão escolar, olhando cadernos, tomando leitura e tabuada, diário do professor, limpeza da escola, aplicação de provas (testes) de final de ano; levávamos materiais para os professores e alunos. Fazíamos, também, treinamento para as APMS, junto com a ACARPA, Merenda Escolar, Prefeitura Municipal e Câmara de Vereadores, que eram repassados aos membros da diretoria e líderes da comunidade. Era um trabalho gratificante, pois os pais, professores e comunidade tinham interesse e participavam ativamente das atividades desenvolvidas, o que muito vinha a somar ao meu trabalho de supervisora.

Mas, o que marcou todos estes anos de trabalho, foi que há uns cinco anos atrás, fazendo uma visita ao Secretário Municipal de Educação, professor Valdecir Nath, em uma conversa, descobrimos que ele era filho da professora Irma Scherf Nath, da Escola Municipal São Luiz, em Rio do Salto. Para minha surpresa, Valdecir era um dos alunos de classe multisseriada que tomávamos a leitura, a tabuada, olhamos o caderno, e mesmo começando seus estudos em uma escola rural, chegou ao cargo de Secretário Municipal de Educação, o que muito nos alegrou e engrandeceu o nosso trabalho, o qual realmente foi de muito esforço, dedicação porque não dizer de reconhecimento pessoal e profissional, pois sempre mantivemos uma boa política com todos os secretários de Educação e Prefeitos com os quais trabalhamos ao longo desses anos.

Para concluir, ainda trabalhei nos anos de 1984 a 1993 no município de Nova Aurora como diretora auxiliar no Colégio Estadual Machado de Assis e na Secretaria Municipal de Educação. 

Quando completei 26 de serviço me aposentei como professora. Contudo, hoje continuo participando com nosso coletivo de professores aposentados em parceria com a Unipar, Farmácias Estrela e Farmautil, de todas as atividades que nos proporcionam melhor qualidade de vida e também estimulam e engrandecem nossa auto-estima, não esquecendo nunca de nossa luta: Aposentados sim. Inativos nunca –  “Educadores sempre”.

Pois sempre teremos uma história para contar que jamais se aposentaram de nossas vidas e nossas memórias. Cada história que contamos é uma oportunidade de crescimento, é uma demonstração de que a vida vale a pena, que só depende da maneira como olhamos para ela, para as pessoas e para nós mesmos.

Autora: Edna Gonçalves dos Santos

Em 1970 fui nomeada professora primária nível 16, tomei posse no dia 24/08/70, no dia do meu aniversário, em Fernandes Pinheiro, cidade perto de Irati. Foi uma dificuldade arrumar um lugar para ficar na cidade pois não tinha hotel, até que uma senhora italiana resolveu me acolher na sua casa; dormia em um colchão de palha, todo fofo.

Aprendi a comer diariamente polenta com leite, com queijo, com alface. Comi muito abóbora feita “quibebe” e tomei muito leite. Foi um período muito bom da minha vida, conheci novas pessoas, comecei a trabalhar e comecei a aprender a viver só, longe da minha família.

O meio de transporte usado para ir para Fernandes Pinheiro era o trem e eu comprava passes igual ao dos alunos das escolas de hoje, ou melhor, estudantes. Viajava toda segunda pela manhã, chegava com tempo de trabalhar no período da tarde com uma turma da 2ª série mista. Quando o trem da tarde atrasava, o chefe da estação mandava avisar na escola que a professora poderia ir para a sua cidade, para ir à faculdade à noite para estudar, pois eu era estudante da UEPG do curso de Geografia. Nesse tempo, eu estava filiada ao Sindicato como alguém, reclamou, fomos desfiliados, novamente filiados, permaneço até hoje fazendo parte deste Sindicato dos Professores. Acompanhei algumas das mudanças mais importantes da APP-Sindicato.

Autor: Edson Machado

Histórico do Núcleo Sindical de Pato Branco 

A APP-Sindicato Núcleo de Pato Branco iniciou suas atividades no dia 16 de agosto de 1971 como APLP (Associação dos Professores Licenciados do Paraná).

Em reunião com a Câmara Municipal de Vereadores, com a participação de vários professores, foi eleito por aclamação o professor Sadi Bertol como Presidente do Núcleo.

As primeiras reuniões aconteciam em Colégios Estaduais e escritórios de empresas locais. A primeira sede era situada na Praça Presidente Vargas, 47, edifício Macarini.

Em 15 de outubro de 1985 mudou-se para a sede atual, cujo terreno foi doado pelo prefeito e professor Astério Rigon. Em março de 1985, a Assembleia Estadual para a prestação de contas aconteceu em Pato Branco.

Na greve de 1988, no dia 07 de setembro, na Praça Presidente Vargas, foi feito um grande manifesto onde os professores, durante a execução do Hino Nacional, de mãos dadas levantaram fitas pretas em sinal de luto.

Na greve de 1990, de 21 a 29 de maio,o Núcleo Regional de Educação foi fechado pelos grevistas que acamparam durante todo o tempo, enfrentando chuva, frio e ameaças.

O Núcleo de Pato Branco sempre esteve ativo, participando em todos os bons e maus momentos pelos quais passou o Magistério Paranaense.

Para manutenção da greve, os professores percorriam o comércio em busca de doações. Na época o secretário era o senhor Edson Machado. Surgiu então a ideia de fazer a rifa de um MACHADO, que foi doado por um comerciante local.

Autora: Isolde B. Andreata

A Associação dos Professores do Paraná (hoje APP-Sindicato) foi fundada em 1947 e, desde então, tem marcado uma posição firme na defesa da forma pública da escola e na garantia dos direitos dos que trabalham na educação.

Sempre sob a forma de entidade representativa, fizemos greve até em plena ditadura militar, na vigência do Ato Institucional n° 5, quando várias lideranças foram presas.

Enfrentamos diversos governos – que passaram – diversos planos econômicos, diversas recessões. Resistimos. Nossa entidade promoveu e promove uma luta intransigente pelo caráter público da educação, com greves, mobilizações, enfrentamentos, acampamentos e ocupações.

Nem governos intransigentes nos desmobilizaram como também nem a truculência exacerbada (do governo) do 30 de agosto de 1988, que nos marcou deveras, física e emocionalmente, conseguiu nos calar, nos abater, pois estávamos na rua com a comunidade escolar, pais, alunos, professores, sindicalistas, movimentos populares, reivindicando melhorias para o ensino e para a valorização dos que trabalham nas escolas.

Nos últimos anos, temos sofrido outras formas de truculência e violência moral. O desmonte da escola pública; a perda de direitos sofridamente conquistados; a falta de condições dignas de trabalho; a ausência de reposição dos salários; a falta de valorização do trabalho dos professores e funcionários de escola são a marca registrada do governo do Paraná. O governo neoliberal de Lerner e sua obediência exemplar aos mandos dos organismos internacionais instalaram oficialmente o caos na educação do estado.

A tudo isto resistimos. Não calaram nossa voz nem com bombas nem decretos e continuamos perseguindo uma educação de qualidade para todos, pública e inclusiva.

Para isto temos construído coletivamente uma proposta concreta para a educação.


Experiência inesquecível, por Isolde

Uma das grandes experiências vividas por mim e a grande maioria dos educadores do Paraná foi, sem dúvida alguma, a greve dos professores do Paraná, em 1988, 47 dias ao todo. Realizamos passeatas, grandes e representativas assembleias estaduais e acabamos sendo aviltados pelo governo do Estado com o mais terrível ato de crueldade, no dia 30 de agosto.

Com um tratamento pior que o dado aos bandidos e assaltantes, fomos recebidos em frente ao Palácio Iguaçu, por soldados armados com cassetetes, bombas e cães adestrados. Isto sem contar que a coragem e a defesa da escola pública eram a nossa maior e única força. Sofremos na carne e derramamos, literalmente, nosso sangue, numa praça de guerra como ficou transformada a Praça Nossa Senhora de La Salete. Antes disso, tentamos de tudo na esperança incessante de diálogo. Já no dia 16 de agosto, acompanhados por cerca de dois mil professores, chegamos à Assembleia Legislativa para participar da Sessão e resolvemos ficar ocupando as dependências para buscar apoio dos deputados; para que os mesmos realizassem as sessões e discutissem o problema da educação no Paraná. Não houve sessão e ficamos lá até o dia 31, quando por força de uma decisão judicial deixamos o local, depois de uma vistoria de todas as instalações com o presidente e secretário Geral da Casa, que assinaram um documento afirmando estarem as dependências, por nós ocupadas, em perfeita ordem, limpeza e conservação. Este documento está publicado na “Página da Educação” do dia 09/09/88.

Em Maringá, faziam greve de fome, os professores Agostinho Guimarães Coutinho e Elson Pereira de Campos. No dia 05 de setembro o Governador suspendeu o repasse das consignações (5MD) durante dois meses como represália pelo movimento.

No dia 13 de setembro estive no Programa da Hebe – SBT, em São Paulo, na “Tribuna Livre” num espaço de 2 minutos quando denunciei para o Brasil todo e região de fronteira, o ocorrido no dia 30 de agosto e o descaso do Governo do Estado para com a Educação.

Nesta greve, recebemos apoio da sociedade e fomos notícia na imprensa do Estado todo, nacional e até internacional.

Marcamos nossa luta na história e marcamos nossas vidas com o dissabor da incompreensão dos governantes. Fizemos muitos amigos. Cumprimos nossa tarefa. Tivemos conquistas materiais, mas a nossa maior conquista foi a da união da categoria, a demonstração da garra, sonhos, lutas, o sentimento de missão cumprida, o não esmorecimento na luta.

Autor: Jaime Farherr

Algumas experiências de luta na APP de Foz do Iguaçu

O ano de 1997 foi marcante. Uma das grandes mobilizações que fizemos em Foz do Iguaçu naquele ano foi o protesto contra o evento dos jogos mundiais da natureza, organizado pelo Governo Jaime Lerner em toda Costa Oeste, ao longo do lago da Usina de Itaipu. O grande problema é que foi investido muito dinheiro nesses jogos, enquanto a educação estava sendo cada vez mais atacada pelo governo. Além disso, a população local quase não teve acesso a acompanhar os esportes que se desenvolveram. Sem contar as construções, estilo “elefante branco”, como o Espaço das Américas, há muitos anos um local abandonado no Marco das Três Fronteiras. Na época, colocaram até ônibus “ligeirinho” em Foz do Iguaçu por alguns dias, retiraram os meninos de rua, etc, tudo para esconder os problemas da cidade. O protesto foi definido em assembleia estadual da APP-Sindicato. Para Foz do Iguaçu, deslocaram-se vários ônibus de todas as regiões do estado. Ao chegarem na cidade, muitos ônibus foram barrados pela polícia, tendo dificuldade de chegar até o local da passeata.

Mesmo assim, cerca de 4 mil pessoas se reuniram na Rodovia das Cataratas para protestar contra o desperdício de dinheiro dos jogos mundiais da natureza. Outros sindicatos e os movimentos de luta pela moradia de Foz também participaram. A passeata se dirigiu pela Rodovia das Cataratas, sendo que a polícia militar fechou a entrada da rodovia. Conseguimos negociar para que a passeata fosse até o Hotel Carimã, onde estava hospedada a imprensa internacional.

Chegamos até lá e, logo em seguida, fomos retirados da rodovia pela polícia. Ficamos perto do Hotel com faixas e outros materiais até o fim do protesto. Foi uma mobilização importante por vários motivos: chamou a atenção da imprensa (claro que a imprensa nacional quase não noticiou), a nossa categoria se mobilizou por uma luta que foi além das nossas reivindicações específicas e mostrou uma unidade com outras categorias e com o movimento popular.

Outro momento que gostaria de relatar é o das greves de 2000 e 2001, nas quais participei. Isso porque depois disso não aconteceram mais greves da nossa categoria. A última foi em 2001!
No ano 2000 tivemos uma greve muito importante que durou mais de 20 dias. Aproximadamente 90% de nossa categoria participou em todo o Estado. Em Foz do Iguaçu, montamos um acampamento ao lado do NRE, na Avenida Paraná. Na época, eu era secretário de Formação Política e Sindical da APP de Foz. Todos os dias, repassávamos informes de negociações, debatíamos vários temas com os demais profissionais da educação que ali estavam e com estudantes que também apoiavam o movimento. Aquele local era também um espaço de formação. Além disso, visitávamos escolas onde tivesse alguém trabalhando para tentar convencê-los a aderir à greve, visitávamos a imprensa e fazíamos manifestações públicas. A maior delas reuniu aproximadamente 3 mil pessoas pelas ruas de Foz do Iguaçu. Apesar da intransigência do governo, essa greve garantiu algumas conquistas, como 10% de hora-atividade, pagamento de vale-transporte aos funcionários, etc. Não conseguimos reposição salarial.

Em 2001, tivemos mais uma greve da nossa categoria. Dessa vez estava sendo construída uma greve unificada de todos os servidores públicos do Paraná. Algo extremamente importante para enfrentar o Governo Lerner e seus ataques ao serviço público. Quando nossa categoria deliberou pela greve em assembleia estadual, algumas categorias já estavam em greve. Porém, a greve na nossa categoria não teve uma grande adesão. Muitas pessoas haviam se frustrado com o pequeno resultado em termos de conquistas na greve do ano anterior. Porém, estávamos diante de um grande ataque do governo que pretendia transformar todos os concursados em cargos celetistas (projeto 411). Além disso, tínhamos várias reivindicações que não vinham sendo atendidas. Em Foz do Iguaçu e outros núcleos sindicais como Cascavel, Londrina e Maringá a adesão à greve foi maior que na maioria do estado. Em Foz, visitávamos as escolas todos os dias para tentar convencer a categoria a aderir à greve, e a cada dia mais pessoas se juntavam à paralisação, entendendo a importância dela. Em Curitiba, ocorreu uma ocupação da Assembleia Legislativa onde um professor de Cascavel foi agredido por um deputado. Porém, após poucos dias, em assembleia estadual foi aprovado o fim da greve. Nós que estávamos na direção da APP em Foz fomos contra o fim da greve, mesma posição defendida por Cascavel e alguns outros núcleos. Isso porque entendíamos que era necessário continuar a greve e manter a unidade com os demais servidores públicos, dentre eles os professores e funcionários das universidades estaduais. E porque nossa categoria estava aderindo, havia condições concretas de fortalecer o movimento. Na época, a direção da APP estadual defendeu o fim da greve. Não podemos dizer que a greve de 2001 foi derrotada: ela acabou com o projeto 411. Mas o fato de ela terminar em poucos dias enfraqueceu a luta das universidades, que seguiram sozinhas na greve por 6 meses.

Provavelmente se tivéssemos continuado unificados, o resultado seria muito melhor. Um dos grandes problemas, a meu ver, foi que não houve um grande empenho da direção estadual da APP para realmente construir a greve, situação que acabou enfraquecendo a luta em vários núcleos sindicais.

É importante ressaltar que a APP-Núcleo Sindical de Foz do Iguaçu, desde que acompanhei a luta em 1997, sempre teve um posicionamento muito combativo, inclusive durante o Governo de Requião. Ela encampou as mais variadas lutas, como a greve no Colégio Estadual Barão do Rio Branco em 2007, que acabou sendo duramente reprimida pela polícia no dia 28 de agosto, com várias viaturas na escola e prisão de dois professores. Greve onde fomos processados: vários professores e uma funcionária. A APP de Foz esteve firme nessa luta; a mesma firmeza não se observou por parte da direção estadual.

A APP de Foz do Iguaçu desde os anos 1990 promoveu uma política de formação (junto com Cascavel), bem antes de ela ser organizada pela APP Estadual. Além disso, procurou sempre ir além das lutas corporativas, entendendo que é preciso atuar concretamente em defesa de toda classe trabalhadora. Por tudo isso, tenho orgulho de ter ajudado a construir parte dessa história.

Autor: José Ueldes Camilo

Minha atuação em Curitiba foi no Colégio Estadual Professora Luiza Ross. Comecei no mês de fevereiro de 1978, com cinco aulas suplementares. O colégio ainda era conhecido como Escola Nova do Boqueirão com pouquíssimas séries iniciais, de primeira a quarta, e turmas de quinta e sextas séries, só na parte da manhã.

Tinha cinco aulas semanais suplementares de Estudos Sociais. Em 1980, passei em concurso e fiquei com 22 aulas. Daí já tinha aulas e turmas a noite. Trabalhei com a primeira diretora Professora Lourdes Correia,com o Benedito Torres, Mariazinha, Leonel e Verônica.

Fiquei em licença sem vencimentos de 88 a 91 pois, fui para a direção da APP. na época, o Sindicato me pagava o salário. Como diretor estadual, atuei na gestão dos presidentes: Isolde, Mário Sérgio, Romeu e Lemos, onde fui Secretário de Administração e Patrimônio. Atualmente, sou integrante do Conselho Fiscal.  Aposentei em 21 de junho de dois mil e cinco e fui morar em Guaratuba, passando a pertencer ao NS de Paranaguá. 

Desde que comecei na educação, sempre estive ligado ao movimento sindical e participei das várias atividades feitas pela APP.  Estive presente no fatídico 30 de agosto de 1988 e ainda trago na pele as marcas desse dia.

Autora: Josepha Perez

30 anos de luta

Sempre participando dos movimentos, sem jamais deixar de cumprir com minha missão em sala de aula, tendo até hoje o respeito e o carinho dos meus ex-alunos.

Desde que comecei no magistério, sempre participei dos movimentos de classe, nunca fui omissa com minha categoria e hoje aposentada vejo que minha luta, junto com os companheiros da época, não foi em vão, porque hoje a classe não sofre tanta repressão como antigamente. Cada vez mais, seus direitos são conquistados sem cavalos, bombas, banhos de mangueira, recebidos por cães adestrados ou parados nas estradas sem o direito de voltar para nossas casas. Mas, fica um alerta para os que estão na ativa: não se acomodem! Ainda temos governantes com resquícios da ditadura e sempre prontos a cortar aquilo que foi conseguido através de lutas.

* Governo Ney Braga – em 1962, minha primeira participação nos movimentos “Operação Tartaruga”.

* Governo Paulo Pimentel – outra participação; alguns avanços.

* Governo “Jaime Canet” – uns dos maiores movimentos do magistério. Dezoito anos sem concurso público, perdas e mais perdas. Saiu o concurso. Na ata da escolha de vagas, estava em Curitiba – longe de tudo, sem água, alimentação e pouco transporte. Dormíamos nas arquibancadas, colegas atropelados ao atravessar a rua. Uma professora foi humilhada pelo então secretário de educação e nisso ela  revidou a humilhação, esbofeteando o secretário. Cena horrível! Greve geral, que só terminou com ameaças do senhor Canet, inclusive que acabaria com o Sindicato.

* Surge depois o “Pinochet das Araucárias” – apelido dado ao senhor Álvaro Dias. Um professor no governo. Que decepção para a classe! Bombas, cavalos, uma praça de guerra; acampamentos desfeitos, professores presos na Assembléia Legislativa com tortura de todo tipo. Professores na Polícia Federal. Só de Mandaguari eram 13, inclusive eu.

* Governo José Richa – tempo de tranquilidade, apesar da secretária Gilda Pollis ser intransigente, mas houve avanços.

* Vem Jaime Lerner – oito anos sem reajuste. Pressão psicológica; ilude os professores com “Faxinal do Céu”. Álvaro Dias com agressão física e Jaime Lerner com agressão psicológica. Existe diferença? Qual das duas é a pior?

* Requião – muitos avanços, e ficou algo para se repor as perdas do governo Lerner.

* Beto Richa – que já nos chamou de “laranjas podres”- e acenou como cumprimento da reposição salarial.

Cruzar os braços? JAMAIS!

Fechar os olhos e pensar que está tudo bem? NUNCA!

Autora: Judith L. M. Barbisan

“Casos e Causos”

Lembro-me da minha mocidade. Jovem, bonita (todo jovem é bonito) e… tímida, muito tímida. Sempre fui boa aluna e adorava ler. Esse gostar de ler ajudou a formar a minha personalidade e a ter opiniões. Porém, fugia de toda e qualquer discussão e debates. Escondida na minha timidez, apenas ouvia. E assim, formei-me professora e fui exercer minha profissão em Umuarama, pequena cidade do Noroeste Paranaense, no ano de 1970.

Um belo dia, surgiu por lá um professor chamado Dino Zambenetti convocando uma reunião com todos os professores de todas as escolas e falando sobre a importância de fazer parte da APLP (Associação dos Professores Licenciados do Paraná). Naquela época não havia professores concursados, nós éramos suplementaristas contratados pelo governo. Falou também sobre a união da categoria em busca de segurança para o futuro, já que nosso contrato era anual terminando em dezembro e por isso sem direito à aposentadoria.Curiosa, prestei muita atenção em tudo o que ouvia e imediatamente filiei-me à APLP, passando a participar de todas as reuniões, sempre calada.

Certa noite, durante as aulas, apareceu um grupo de professores de Londrina convocando para uma greve. O Governador de então, era Jaime Canet. Fui a primeira a deixar a escola e entrar em greve, pois jamais admiti que alguém lutasse por mim. No entanto, foi um movimento pequeno e desorganizado. Acabou logo sem resultado algum. Serviu, porém, para despertar a consciência de união e força de vontade.

A semente brotou. Durante o Governo seguinte, Ney Braga, foi convocada uma assembleia geral no Clube Guaíra, na cidade de Ponta Grossa, onde o Paraná todo se fez presente com o objetivo de uma nova greve. Da mesma forma que a anterior, sem organização e na base do oba-oba. Nessa época, a APLP iá havia se fundido com a APP formando uma associação única. O presidente de então era Isaías Ogliari.

Aí veio a explosão. Apavorada com o andamento das discussões, levantei-me da cadeira, tomei o microfone das mãos de quem falava e fiz o maior discurso da minha vida. Alguma coisa que veio da alma, do coração. E a…. Adeus timidez. Acabei liderando os movimentos da categoria no norte do Paraná. Fundei a APP em Umuarama e hoje continuo a participar. Faço parte da diretoria da APP em Ponta Grossa.

Estou aposentada, mas não inativa. Passamos por momentos muito difíceis. Quando surgiu o ato institucional n° 05, durante a ditadura militar, entramos em greve. A maior de todos os tempos com mais de 8 mil professores participando. As vindas para Curitiba, muitas vezes sem dinheiro, outras com a ajuda daqueles que ficavam nas escolas. Reuniões feitas sentados na grama em frente à igreja por que ninguém cedia espaço. “Companheiros” enviando para o governo os nomes das lideranças dos movimentos grevistas. Fui depor na Polícia Federal em Guaíra.

Mas, fatos engraçados também aconteceram. Estávamos em assembleia durante uma greve. O salão estava lotado. Todos já estavam cansados e tristes. Aí, eu resolvi fazer um discurso para levantar o astral repeti tantas vezes a palavra “força” que o meu dente saltou da boca e foi para no meio dos professores. Apesar da vontade de rir, o silêncio foi total. Aí eu me saí com a seguinte pérola: – Ih, gente! Caiu meu dente! A gargalhada foi geral com a televisão filmando. Até quiseram colocar no programa vídeo-cassetada, da época. Até hoje o fato é lembrado.

Sabe, companheiros! A luta foi, é e continuará sendo árdua. Enquanto alguns saem, outros novos estão chegando e assim o trabalho de conscientização é contínuo.

A APP, hoje sindicato, é isso: orgulho de si mesmo, amor pelas causas justas, capacidade para julgar, força para caminhar, coragem para lutar. Assim caminha a humanidade.

Salve APP-SINDICATO!

Prof. Judith Lourdes Meneguzzo Barbisan
Secretária de Finanças da APP-SINDICATO
Núcleo Sindical de Ponta Grossa

Autores: Julia Maria e Dalton Luiz

Apelo 
(Poema revisitado, Dalton Luiz Gandin)

Se a esperança está 
perdida
é hora de encontrá-la

Se a esperança está 
morta
é bom acordá-la

Se a esperança não 
existe
é preciso criá-la 


Julia Maria e Dalton Luiz conheceram-se na greve de 1986. Houve um baile no acampamento dos professores em greve e do MST , na frente do Palácio Iguaçu. Era o chamado Baile da Gilda Polli (secretária de educação da época). Lá, eles começaram a conversar e se tornaram próximos. Três meses depois, estavam casados.

Na época, Dalton era  professor CLT e Julia, professora concursada. Foram morar em Londrina no ano seguinte à greve e em 1988 nasceram os filhos gêmeos, Maíra e Rudá. Eles ficaram vivendo em Londrina até 2002 e lá, participavam ativamente das diversas atividades e mobilizações do NS de Londrina. Dentre os diversos momentos históricos da APP, o casal esteve presente em duas assembleias vitais para a entidade. Em 1995, quando a  APP filiou-se à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e em 1997, quando ocorreu a unificação do Sinte com a APP-Sindicato, agrupando a luta de funcionários e professores. 

Na greve de 2000, Dalton, que também é músico e poeta, escreveu um caderno de cordel de poesia para o Fundo de Greve pois as idas e vindas para Curitiba estavam ficando muito caras.

O casal participou de todas as greves, inclusive, com os filhos junto. Há uma matéria de capa de um jornal da época que mostra Dalton, Julia, Rudá e Maíra em uma foto na ocupação da Secretaria da Fazenda, ainda na greve de 2000.

Em 2003, a família foi morar em Guaratuba e lá, sofreram perseguição política sistemática nas escolas em que trabalhavam, cada vez que levavam alguma pauta da APP-Sindicato para a sala dos professores. A passagem pelo litoral foi rápida. Em 2004, mudaram-se para São José dos Pinhais e  lá residem até hoje, tornando-se atuantes no Núcleo Sindical do  Metro Sul, inclusive participando em diversos momentos das diretorias regionais de lá. 

Desde que começaram a militar juntos em 1986, o casal  participou de todas as greves e assembleias de categoria e de outros momentos importantes como: os 120 quilômetros da 1ª Marcha dos Funcionários de Escola, entre Ponta Grossa a Curitiba, no ano de 2006, que antecipava o registro marcante na luta pelo plano de carreira dos funcionários. Em 2008, participaram da construção do Plano de Carreira dos Funcionários de Escola e em 2014 estiveram presentes também na manifestação em Foz do Iguaçu, na Ponte da Amizade, em 2014, pedindo a implantação da lei de cargos e salários e valorização da profissão.

Há outros tantos momentos, tantas outras viagens e atividades sindicais na vida de Julia Maria e Dalton Luiz que suas histórias de vida confundem-se com a história da APP. Neste ano em que nossa entidade completa 77 anos de existência, o casal completa 38 anos de casados (Bodas de Carvalho). Aposentados, estão na militância com mais garra e energia ainda. Julia Maria hoje está na Direção Estadual, na Secretaria Executiva de Saúde e Previdência. Dalton  Luiz como secretário executivo de Comunicação no NS Metro Sul. 

Autora: Laura Marques

Atuação da APP no reconhecimento dos Quilombos no Paraná (por Laura Marques – Castro)

Falar em Quilombo no Paraná era algo de ficção pois a mídia mantenedora das verdades preconizada pela elite branca detentora do poder, difundia o Mito que em nosso Estado a escravidão negra foi insignificante e essa população pouco ou nenhuma relevância teve na História do nosso Estado.

No final do século XX, numa comemoração do dia do professor, no Clube em São José dos Pinhais, o professor Romeu de Miranda indagou-me sobre os quilombos de Castro. Ele já tinha dado o primeiro passo para desmistificar o mito, quando, com a APP Sindicato procurava reconhecer os direitos de Terra do Quilombo Invernada Paiol de Telha, em Guarapuava.

Transferindo-me para Castro, tive a oportunidade de desenvolver com alguns professores no Projeto Vale Saber no ano de 2001 o tema; “O resgate da Cultura Negra e Indigena no Distrito do Abapan. A professora Maria Kava tinha um documentário da Gazeta do Povo sobre os Quilombos no Socavão e então, iniciou-se a procura do conhecimento dessa história que tinha como lema: “Resgatar a cultura Negra e Indígena é tomar consciência da nossa própria história.

Mas foi com a APP que um grupo de professores tiveram o apoio de pesquisar e apresentar no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em janeiro de 2005, o relevante tema: “Um estudo sobre os quilombolas no Paraná” e mais um passo se dava para desmistificar o mito que o Paraná não teve a influência do negro e a escravidão, aqui, foi insignificante. O grupo de pesquisa integrado pelas professoras Gledis do Rocio Alves, Isolde Benilde Andreata, Laura Marques, Marisa Pereira de Camargo e Venilde Pedro de Oliveira se empenharam nas pesquisas e tivemos a oportunidade de conhecer vários quilombos que ainda não eram reconhecidos, entre os quais: Acróbios, Mamās, Limitão, no distrito de Socavão, Chácara das Pedras, no Tronco todos em Castro; Santa Cruz, Sutil em Ponta Grossa; Paiol de Telha em Guarapuava; dos Morenos em Turvo; Boa Vista e Bugre em Arapoti. Alguns já extintos como São Damas em Tibagi e Pugas em Palmeira. Não podemos nos esquecer que o professor Youssef Rachid , tanto em Ponta Grossa quanto em Palmeira, foi o nosso guia e vibrava com as nossas descobertas!

Então, em 14 de julho de 2005, a Fundação Palmares expediu a certidão de auto reconhecimento dessas comunidades quilombolas e muito nos orgulhou, pois no íntimo de nossos corações, sabiamos que essa conquista teve o empurrão da nossa querida APP que sempre está presente na luta pelo direito e igualdade do ser humano.

Autora: Leontina de Lacerda Golfeto

É muito louvável lançar nossas histórias com coragem de guerreiros (as) pela luta em defesa da Educação.

Passados cinquenta e sete anos que faço parte da APP Sindicato.

É, sobretudo, uma hora de gratidão pela luta e defesa da Escola Pública.

Rendo homenagens contando um pouco da minha história na APP-Sindicato.

Em mil novecentos e sessenta e três, participei da primeira greve chamada “Operação Tartaruga”. Foi muito sofrida, mas necessária porque a indiferença para com a classe era muito abusiva.

Os pagamentos estavam sempre atrasados, não tínhamos nenhum “avanço”, e nem tão pouco “bônus”.

A “Operação Tartaruga”, foi uma grande conquista de gratificação para os professores, os Primários, sem Habilitação e Regentes, foi de 20%, e para as Normalistas de 25%. Quando leio, Atos: 16, 35-40 recordo dessa greve. Aqui, no interior, foi feita de portas fechadas, tínhamos medo e incertezas no que poderia acontecer com a nossa categoria, isso por causa do silêncio e, às vezes, ameaças no possível corte de salário e também exonerações que o governo publicava.

Havia falta da divulgação da APP Sindicato, não éramos bem estruturados, através de núcleos com informes concretos, a exemplo dos núcleos de hoje.

Mas sempre participei de todas as greves, isso por causa da prioridade de defesa e das liberdades individuais e coletivas da justiça social e dos direitos fundamentais do ser humano.

Nosso Sindicato tem uma ótica de união e solidariedade com todos trabalhadores em Defesa da Escola Pública. É louvável, é necessário que a Escola Pública brilhe, na medida em que é cercada pelo coletivo.

Autora: Márcia Valéria S. Dias

“Por favor, o sinal do fax”

Então chegou mais uma modernidade no Sindicato: aparelho de fax.

A cada nova notícia ou documento, uma pessoa era incumbida de ligar para cada Núcleo Sindical da APP e pedir: – Por favor, o sinal do fax. Após o sinal sonoro, iniciava a transmissão do documento.

E isso demorava minutos… A depender da quantidade de destinatários, era o dia todo “passando” fax.

Até que, certa vez, era preciso enviar alguns documentos para um sindicato de professores/as da Venezuela. O primeiro envio internacional de fax.

E lá fomos nós. Vários números para digitar, pois era DDI. O telefone toca algumas vezes e uma voz feminina atende:

– Hola, bien dia.

– Olá, por favor quiero enviar un fax.

– Como? No entiendo.

– Fax.

– No entiendo!

Vixe, será o nosso portunhol? Fax não é uma palavra universal? Alguém sabe como é fax em espanhol?

É fax!

Então, falando bem alto, num grito: – FAX!

– Ah, sí, sí. Conexión mucho malo. No estaba escuchando.

Piiiiiiiiiiii. Botão iniciar. Documentos enviados.

Gracias. Tarefa cumprida.

Autora: Maria Aparecida Rice

Luta por justiça social

Nós, professores, sempre fomos muito injustiçados com as questões referente a  trabalho e salário.

Meu sangue sempre teve adrenalina pelos movimentos sociais em busca de justiça na causa dos trabalhadores e foi na APP Sindicato que fortaleci esta minha ânsia de justiça. Aprendi muito através da teoria e da prática, o que me fez uma pessoa mais forte, sem medo das ameaças dos nossos governantes.

Tudo começou com a greve de 1983, quando a Professora Ivone Muller era presidente da APP – Núcleo de Foz do Iguaçu. Eu tinha cinco anos de concurso público e fui convidada para acampar em frente ao Centro Cívico por tempo indeterminado. Não pensei nas consequências. Apenas pensei que a iniciava era uma luta por justiça. Saí da escola e fui para casa arrumar minhas coisas para acompanhar meus colegas em um combate sem armas, mas de peito aberto para defender aquilo que acreditávamos que seria o melhor para a nossa categoria. Meu marido ficou muito bravo e disse que se eu fosse, poderíamos nos separar. A minha resposta foi a seguinte: “…quando eu voltar cuidaremos disso…” 

Em seguida, partimos para Curitiba. Era mês de julho, muito frio, parecia que Deus também testava nossa coragem. Acampamos no asfalto, forrávamos o chão com papelão e muitos agasalhos. Havia muita solidariedade. Foram longos 15 dias de ameaças que vinham a toda hora por parte do governo.

Por incrível que pareça, elas nos deixavam mais fortes. Não arredaríamos os pés até que nossas reivindicações fossem atendidas.

Num certo dia, houve uma Assembleia em Ponta Grossa e muitos professores se ausentaram. Na oportunidade, o policial, sob ordem do governo, adentrou ao acampamento e retirou as pessoas à força. Vimos muitos colegas saírem carregados porque deitaram no chão, recusando-se a abandonar o local. Foi muito triste ver educadores serem maltratados por parte das autoridades. Deixamos o local, mas a luta continuou.

Em 1988, mais um período de luta e desgaste físico e emocional.

Permanecemos longos dias e noites em frente ao NRE. O momento mais dramático nesta greve foi quando presenciamos o professor Manoel Batista de Paula Neto ser agredido fisicamente por policiais quando segurou o mastro da bandeira.

Fui presidente do Núcleo Sindical de Foz e também diretora de escola.

Foi muito desgastante segurar a situação e garantir uma greve de aproximadamente três meses. Meus colegas de escola chegavam a chorar, mas mantivemos nossa escola fechada até o fim da greve. Contamos ali com professores (as) com muita garra e determinação.

Autora: Maria Dilonê Pizzato

Para o livro de “História e Memórias da APP”

É com certa nostalgia, mas também indignação, que procuro na memória episódios da minha vida profissional ligados às lutas sindicais. Fui sempre uma profissional preocupada com o cumprimento de meus deveres de professora, de cumprir os programas, de me atualizar, de respeitar os direitos dos alunos a terem aulas. Por outro lado, por contingências da formação nas ciências humanas – Geografia e Pedagogia, sou politizada e consciente da necessidade das lutas reivindicatórias, às quais aderi por convicção e por respeito à classe a qual representava. Então, a cada movimento sindical era uma angústia, pois sabia do sofrimento que nos esperava: incompreensão, críticas, retaliações, corte de pagamento e tudo mais. Mesmo assim, buscava me inteirar e tomar partido dos colegas. Essas escolhas passavam sempre por um dilema interior. Nos idos dos anos 80 e 90, foram muitas dessas ocasiões.

Me lembro de uma delas que, por ter aderido à greve em estágio probatório, fui chamada a Curitiba, na SEED, para prestar declarações, sujeita a perder o concurso, mas que enfim, não deu em nada. Outra ocasião, de triste lembrança, foi a participação de uma greve quando eu estava prestando serviços no Núcleo Regional de Educação, onde exercia a função técnico pedagógica, trabalhando junto aos professores. Pensava no meu compromisso moral com os colegas. Como iriam respeitar meu trabalho se na hora das lutas me colocasse contrária a eles.

Aí meu dilema foi maior, pois representava um braço do governo na região, e estava a favor dos grevistas. Meu sentimento de classe falou mais alto e aderi ao movimento, me neguei a ficar ao lado dos dirigentes que oprimiam, isso nos anos do governo Jaime Lerner, quando ocorriam mudanças drásticas e extinção de direitos conquistados. Ficar em cima do muro era uma opção comum nessa situação, mas me neguei a fazer isso. Recebi então as sanções previstas e a advertência de deixar minha função e voltar para escola.

Autora: Marlene Naichszak Lemos

Alguns fatos de minha vida

Fui nomeada em 1971, através de concurso percorri as cidades de Mallet, Kaloré e Juciara, onde permaneci até 1990, e desde minha nomeação, sou sócia da APP. Na década de 1990, me mudei para Ponta Grossa com RDT no Colégio Est. Profeª Elzira Correia de Sá, onde permaneci até a aposentadoria, sendo que pude assim participar da APP mais ativamente dos eventos, manifestações e atividades próprias.

Hoje, estando aposentada, estou na luta para garantir as conquistas e direitos que adquirimos para nós aposentados e principalmente para os que estão na ativa possam ser respaldados com as conquistas que a categoria adquiriu ao longo dos anos de luta.

Finalizando, quero parabenizar a gestão atual pela aquisição da sede própria e a sua atuação com melhorias para a nossa categoria.

Autora: Mercedes Osachuck

No início da década de 1970, quando a APP era uma simples Associação, estávamos lutando muito pelo estatuto do magistério, que estava sendo discutido na Assembleia Legislativa do Paraná.

Neuzely Spack e eu fomos representar a cidade de Apucarana para o dia da votação. Chegamos na Assembleia e qual não foi o nosso espanto, sentadas em lugar de honra, professoras de Curitiba, muito bem vestidas, afirmaram que estava tudo a mil maravilhas e que o estatuto do magistério não era necessário. Mas o pior estava por vir. Os deputados, vendo as galerias sendo tomadas por representantes dos professores de todas as regiões, simplesmente adiaram a votação para o dia seguinte com o intuito de se livrarem da pressão. E e aí o que fazer? Onde ficar? Sem dinheiro, só com as passagens de volta. Não poderíamos arredar o pé. Uma dirigente da APP, sem nos conhecer, levou-nos para a sua casa em Santa Quitéria.
No dia seguinte estávamos lá firme e fortes.

A sessão teve início calorosa e tensa. Quando um deputado por Apucarana começou a discursar a favor do estatuto do magistério, outros deputados enraivecidos, interrompiam, afirmando que o deputado havia mudado de opinião, porque tinha nas galerias professoras de Apucarana. Após ofensas verbais, partiram para socos, pontapés e acabaram rolando no chão. Foi uma vergonha!

Acalmado os ânimos, deu-se a votação. Tivemos a aprovação do estatuto do magistério do Paraná exatamente com o voto que faltava, de última hora, o do deputado José Domingues Scarpelini.
Disso tiramos uma lição para o resto de nossas vidas: “Dois pingos d´água num oceano, fizeram a diferença”.

Autor: Milton Lopes

As greves dos professores

Lembro-me que no final do Governo Paulo Cruz Pimentel, os professores fizeram uma greve e conseguiram o maior reajuste de salário da história. O aumento foi em torno de 100%. Isto foi lá pelo ano de 1968/69. Esta deve ter sido a primeira greve de Professores do Paraná, foi na época da Ditadura Militar e ainda não  tínhamos Sindicato, éramos uma Associação de Professores (APP). Esta greve atingiu somente a capital e as maiores cidades do Estado do Paraná. No governo do Ney Amintas de Barros Braga, fizemos uma pequena greve e logo o impasse foi solucionado, a contento por parte dos Professores. No Governo do Álvaro Dias é que as coisas complicaram: foi uma das greves de professores mais violentas que o Estado pode presenciar. Mais de 95 dias de Greve. Íamos duas vezes por semana a Curitiba fazer plantão em frente ao Palácio Iguaçu. Lembro-me uma tarde quando estávamos em frente ao Palácio e a Cavalaria veio para cima dos Professores, eu estava presente nesta tarde. Fomos salvos por um Deputado do PT (Pedro Tonelli – era o único da época) e mais alguns Deputados do PMDB que se deram as mãos e impediram naquele dia que a Cavalaria fosse para cima dos Professores.

Não adiantou muito, em um outro dia, neste não vi pois vim para casa naquela tarde, o Governo colocou a Cavalaria em cima dos professores. Este ato ficou conhecido como o atentado de 30 de agosto.

Neste atentado, vários professores ficaram feridos. Nesta greve tivemos que vender carros, telefone e tudo o que tínhamos de valor para o sustento de nossas famílias, pois estávamos com os salários cortados.

No Governo do José Richa, a greve foi muito parecida com a greve do Governo Álvaro Dias, 100 dias de greve.

Nesta época também íamos duas vezes por semana a Curitiba, fazer piquete em frente ao Palácio. Foi a maior greve da nossa história, só que menos violenta que a passada. O Zé Richa cortou o nosso salário.

Não tínhamos carros para vender, então tivemos que fazer o bazar da roupa usada para sustentar algumas famílias de professores e o povo jandaienses colabora com os professores comprando as roupas usadas.

Fazíamos também pasteis e coxinhas para vender. Na APROJAN fazíamos empréstimos para os professores para pagar quando podia.

Nesta greve de 100 dias, o Richa não recebeu os professores para conversar. O bom foi que o Zé Richa teve que viajar, se eu não me engano para a Europa, ficando em seu lugar o Vice-Governador João Elísio de Ferraz Campos, ele sim, recebeu os professores e atendeu com um piso de 3,2 salários mínimos nos vencimentos iniciais dos Professores.

No Governo Lerner houve uma pequena greve de professores e foi o único reajuste que tivemos em 8 anos de Governo.

Observação: Praticamente todos os aumentos que os professores tiveram foram às custas de greves.

Autora: Romilda Strapasson

Boas Lembranças

Quero relatar um pouco do meu trabalho como professora. Fui nomeada em 1951, na Escola Hermínia Lupion, em Campina Grande do Sul, Região Metropolitana de Curitiba.

Quando me casei vim morar na Serraria Piquiri, a 26 quilômetros de Cascavel, onde meu esposo administrava a empresa. Neste lugar, foi criada a Escola Hermínia Lupion, que iniciou do nada, inclusive sem material didático – tudo por conta própria. Então, comecei com a primeira série, depois a segunda e terceira. As três classes juntas davam um total de 35 alunos.

Todo final do ano, nos visitava uma banca examinadora de Cascavel, formada por três professoras, entre elas, a inspetora Aracy Pompeu, sendo que a porcentagem era de 90 a 95% de aprovação dos nossos alunos.

O transporte era somente com os caminhões que vinham carregar madeira na serraria, enfrentando poeira, ou barro quando chovia. Somente mais tarde que se conseguiu com a empresa um jipe que era utilizado como meio de transporte.

Fiz vários cursos de aperfeiçoamento em Cascavel. Deixava a família, os filhos, muitas vezes até doentes, que ficavam com o pai e com a empregada durante toda a semana. Nesse tempo,  a professora era muito valorizada pela comunidade.

Também foi construída uma capela ao lado da escola, além de professora, eu era catequista. Catequizava as crianças para a primeira Comunhão e para a Crisma. Quando o Arcebispo vinha fazer as celebrações, era recepcionado pela professora e pelos alunos. Fui criando um círculo de amizade e éramos convidados para sermos padrinhos de casamento. Além de que os alunos também se tornavam nossos afilhados.

Em 1967, fui transferida para Cascavel no grupo Escolar Professora Júlia Wanderley. Nesse momento, respirei um pouco mais aliviada, pois já tinha orientadora pedagógica e material para trabalhar. Tudo o que fiz compensou, porque, até pouco tempo atrás, ensinei vizinhas que não sabiam ler nem escrever. Alunos daquela época deram-se muito bem na vida, tornaram-se trabalhadores com empregos estáveis.

Hoje estou aposentada, com os filhos formados e casados, curtindo a minha vida. Participo de movimento da igreja, frequento as reuniões da APP Sindicato, tenho uma roda de chimarrão que frequento há muitos anos e viajo de vez em quando. Estou sempre ocupada!

 

Autor: Braz Miranda de Sá

APP-Sindicato 65 anos de luta em Defesa da Escola Pública

Analisando os fatos que possam ser utilizados na elaboração da obra, cheguei à conclusão de que a APP-SINDICATO sempre buscou enfrentamentos que fizessem com que o professor fosse idealista e que a escola alcançasse o topo das realizações dos educandos. Essas realizações cresceram e tornaram-se realidade na Educação do Paraná. Até a coordenação do projeto julgar que a homenagem aos “PROFESSORES E ALUNOS” possa fazer parte do Livro de História e Memória da APP-SINDICATO, ficaria muito grato pela participação.
É algo diferente, mas esta música que compus está inserida nas conquistas da APP-SINDICATO:

Aos professores e alunos

Em busca de um ideal.
Professora, professor!
Em toda sua carreira,
Educando com amor.

E os alunos vão passando,
nesta escola tão querida,
Aprendendo as disciplinas,
Conduzindo-os para a vida.

E assim todos cumprindo
O dever, com muito amor,
No trabalho progredindo,
Tendo, juntos, seu valor!

Autora: Sabina da Silva Turbay

É um privilégio ser convidada para escrever algumas linhas neste livro que conta a história de professores aposentados de Cascavel. Na verdade, o lançamento de “Histórias que não se aposentaram” é mais uma entre tantas surpresas agradáveis que essa turma “apronta”!

Ao longo destas páginas, o leitor vai voltar ao ambiente dos bancos escolares, reviver a época em que o professor trabalhava com dificuldades, tinha pouco material didático e abusava da criatividade para dar aulas. As histórias reais, vividas na pele por estes bravos educadores, estão repletas de detalhes que emocionam, nos fazem pensar e refletir se estamos no caminho certo.

Sim, nós temos orgulho da profissão que escolhemos, acreditamos na educação de qualidade e na vocação do ser humano para ser melhor. Antes de tudo, este livro é um resgate dos bons tempos, quando o “mestre” tinha respeito merecido dos alunos e da sociedade. O salário nunca foi a recompensa maior por tanta dedicação, convenhamos, mas aquele sorriso de agradecimento, aquele abraço de satisfação e aquela palavra amiga…sempre nos incentivaram a continuar.

Nesta última gestão, acompanhamos o trabalho da companheira Valci Maria Mattos, Presidente do Núcleo Sindical de Cascavel, e da companheira Dione Santos Barth, Secretária de Aposentados do Núcleo. São pessoas incansáveis na luta para garantir mais benefícios para a categoria, através de convênios de saúde e projetos de extensão universitária que possibilitam o desenvolvimento de várias atividades de aperfeiçoamento e de integração com a sociedade.

Afinal, vivemos no tempo da informação e não podemos parar! Temos que acompanhar o ritmo alucinado das transformações sociais. E o jeito é fazer cursos, participar de seminários, aprender a quebrar os preconceitos que surgem dia a dia contra a terceira idade. Somos produtivos, capazes e experientes. Temos muito a ensinar. E a melhor maneira de fazer isso, é dar nosso exemplo de cidadania, nos tornando cada vez atuantes contra a discriminação.

Pela dignidade da pessoa idosa, pelo amor à educação e pela defesa da qualidade de ensino, recomendo a leitura de “Histórias que não se aposentaram”. Um tema que não poderia ser esquecido pelos dirigentes da APP-Sindicato.
Sem mais demora, queridos amigos e amigas, passemos à agradável leitura destas histórias.

Autora: Sandra Regina Costa

Iniciei minha carreira no Estado em 01/06/1994, como CLAD. Trabalhei no Colégio Estadual Almirante Tamandaré em Cruzeiro do Oeste, por aproximadamente um ano e meio.

No início de 1996, meu esposo conseguiu emprego em Curitiba, e nos mudamos. Chegando em Curitiba, o NRE descobriu que na escola para qual havia me transferido, não dispunha das 40 horas, então fui encaminhada para o Colégio Estadual do Paraná. Que experiência !!! A Diretora era a Professora Adélia Dias Castela Ribeiro, pessoa firme, austera. Aprendi muito com ela. Aprendi, inclusive, que minha situação funcional no estado era precária, e que a única forma de melhorar seria através de concurso público.

No ano de 1997 ou 1998 mais ou menos, conheci as pessoas, que para mim, são as mais importantes, quando se tratam das lutas pelas causas da Educação no Paraná, a saber: Professor Romeu, José Valdivino e Professor Paixão. Tiveram outros sim, claro, mas esses três nomes, se fixaram na minha vida, e seguem até hoje. Nesse período, comecei a me inteirar da realidade que nos assolava enquanto funcionários de escola. Logo que entendi a situação, percebi que teria de agir se quisesse alguma transformação dessa realidade. Tentei me filiar à APP, não pude… por um tempo. Logo aconteceu a unificação da APP com o Sinte, que deixou de ser representante apenas dos professores.

Assim, ali no CEP, fui uma das primeiras funcionárias de escola filiada à APP, se bem me lembro, tínhamos de fazer a contribuição por meio da fatura da COPEL, (algo assim), pois legalmente não era permitido a contribuição sindical no contracheque para CLT. A partir daí, a história da minha vida funcional se funde a de outros funcionários, com a diferença, que eu tive o privilégio de ter minha história de vida funcional seguindo junto com a história das lutas travadas pela APP-SINDICATO, história essa que vem sendo construída há, pelo menos, 15 anos. São 15 anos de lutas, de descobertas, de aprendizado, de frustrações, tristezas, perdas, mas muitas realizações, conquistas, sucessos, amizades, companheirismo, paixões, lições de cidadania, de política, lições de vida. Saudades da professora Madselva.)

Mais ou menos em 1998, 1999, iniciou-se a luta pela valorização do funcionário de escola, com a campanha, “SOU FUNCIONÁRIO, EU TAMBÉM EDUCO*. Meu Deus, fiquei emocionada de lembrar. Tivemos aí, o primeiro encontro de funcionários, no Colégio Estadual Barão do Rio Branco em Curitiba, com aproximadamente 80 funcionários. Resumindo, a partir desse encontro, iniciou-se a construção do plano de carreira, que culminou em 2005, em um mega encontro com aproximadamente cinco mil funcionários de todo estado no Clube Sociedade Thalia, com a entrega da primeira proposta do Plano de Carreira para Funcionários de Escola. Essa história tem seu ápice em 09/09/2008 com aprovação da Lei 123, instituindo o Plano de Carreira para os Funcionários de Escola. Este ano recebi retroativamente as promoções referentes à graduação e ao Profuncionário. Muito já conquistamos, porém, muito ainda temos para conquistar.

Esse breve relato me propiciou reviver emoções fantásticas, que me trouxeram lágrimas saudosas, por momentos tão especiais que vivemos…emoção mesmo. Sou grata por essas experiências.

Autora: Sueli de Souza Pinto

Greve de Fome

Uma greve nunca é boa, nem bem-vinda a quem quer que seja, mas como recurso de luta, como instância última, é preciso ir a ela.

E a greve de fome então só pode ser a derradeira forma de luta porque põe em risco a integridade física daquele que a ela se propõe, mas se a causa é nobre e a forma justa, então por que não apelar a esse último recurso?

No ano de 2000, durante embates sutis e ferrenhos com o governo neo-liberal de Jaime Lerner, eu e outros companheiros nos propusemos à greve de fome como forma última de ” comover o coração endurecido e envelhecido dos governantes de plantão. Foram dezesseis dias de água, soro e esperança renovada a cada dia, em nossa resistência, nossa capacidade de luta e dos companheiros que, fora daquela sala do Sindicato dos Jornalistas, em Curitiba, também travavam o ” bom combate” frente ao irredutível reacionarismo do governo de plantio.

Foram dias sem pão, mas foram dias que nos levaram a refletir, a viver cada dia de uma vez e receber muita, muita solidariedade de seres humanos em geral que, comovidos com a forma extrema de reivindicar, vinham nos perguntar, como podíamos aguentar? Até quando?

Aguentamos porque livremente nos propusemos a isto e até quando esse governo injusto, desleal e cego vir a Educação e os educadores para além dos níqueis dos cofres institucionais.

Aguentamos e lá estivemos, no aguardo de cada negociação, e de lá saímos muitas vezes vitoriosos: o governo “jogou a toalha”. Estávamos saudáveis, ainda que fracos e aprendemos a grande lição de um sacrifício quase supremo em nome daquilo que se acredita.

Autora: Tanea Maria Costa de Jesus

Breve história de uma pequena caminhada de luta

Chegando a Foz do Iguaçu, em meados de 1996, sem trabalho, dirigi-me ao NRE e obtive a informação de que haveria concurso em 1997. Fiz e entrei como professora do Estado do Paraná. Até hoje não me esqueço do que me foi relatado em agosto de 1996, que faltavam inúmeros professores de várias disciplinas nas escolas públicas de Foz.

Será que depois de tantos anos de luta a história mudou? Houve conquistas e avanços, mas não foram por mérito ou boa vontade dos que estão no poder. As conquistas e avanços que obtivemos foram resultados de muitas paralisações, greves, negociações dos trabalhadores em educação, como um todo, onde destacamos o Núcleo Sindical de Foz do Iguaçu que sempre esteve presente. É por isso que o sindicato tem que ser vigilante e combativo para que estas questões sejam aos poucos amenizadas, pois resolvidas nunca serão, porque para o sistema em que o Estado está inserido, a educação não é prioridade, nem no passado, nem no presente e o futuro é uma constante e árdua luta, pois temos muito a conquistar. Nossa pauta de reivindicações contém mais de trinta itens. Quando cheguei aqui, aos poucos fui me inteirando das lutas do Sindicato dos Trabalhadores em Educação. Sempre procurei participar das mobilizações da categoria. Primeiro como representante de escola. Depois como representante de base. Confesso que, politicamente, tinha uma visão muito equivocada a respeito das lutas sociais, pois minha formação foi no período da ditadura, onde por diversas vezes sofri represálias por minhas contestações. Logo achei um espaço onde era possível expor minhas angústias e a revolta com o sistema e a política que até hoje nos é apresentada. Conheci colegas, desde diretores de escolas até funcionários (as) que me incentivaram e me davam aquela coragem, que confesso, já tinha perdido um pouco.

Por isso não atiro pedras naqueles que de uma forma ou outra se sentem amedrontados por aderir à luta de classe.

Com o passar do tempo fui realizando visitas nas escolas, participando do Conselho Estadual da APP-Sindicato, participando de seminários, cursos de formação sindical, passeatas, caminhadas e encontros. Aqui gostaria de fazer um relato que ocorreu em 2001, quando uma funcionária de escola, o filho de uma professora, universitário na época, e eu saímos de Foz, carregando a bandeira da APP, numa caminhada que pretendíamos chegar até Curitiba, como forma de espalhar as nossas reivindicações para que a população nos apoiasse nessa jornada. Não esquecerei jamais quando chegamos ao primeiro pedágio e os funcionários do mesmo vieram nos receber e disseram: “Ouvimos na TV que vocês iriam fazer a caminhada até Curitiba, mas não pensamos que vocês teriam coragem. São muitos quilômetros.” Antes de chegarmos a São Miguel do Iguaçu, fomos recebidos pelos trabalhadores do Assentamento Antônio Tavares. Foi para mim um dia inesquecível, pela forma como aqueles homens, mulheres, jovens, crianças de diversas regiões nos receberam, nos incentivaram e apoiavam a luta. Passamos a noite, acolhidos e alimentados. No dia seguinte, seguimos a caminhada para encontrarmos com os andantes de Cascavel. Comíamos à beira da rodovia, éramos saudados e até xingados, pois já éramos um grupo maior. Foi grande a emoção ao sermos recebidos na entrada da cidade de Guaraniaçu por estudantes e trabalhadores da educação. Depois da entrevista na rádio local seguimos a caminhada e ao pararmos para o almoço embaixo de uma frondosa árvore e conseguirmos talheres com um morador, recebemos a notícia de que a greve havia acabado.

Bebíamos e comíamos com o apoio do professor Sebastião Rodrigues Gonçalves, do Núcleo Sindical de Cascavel (Tião). Enfim, não podemos relatar as diversas dificuldades, cansaços e tristezas que passamos com nossos colegas. Sempre acreditei que a maior de todas as tristezas foi o que aconteceu no dia 30 de Agosto de 1988, em frente ao Palácio em Curitiba. Isso quando eu quase desistia, por ser difícil, até mesmo no convencimento da necessidade da luta junto à categoria dos trabalhadores em educação, me vinham à lembrança as imagens dos vídeos a que assisti sobre este fatídico dia, pois ainda eu não estava no Paraná. Continuo tentando contribuir com a luta dos trabalhadores em educação, seja em qualquer lugar. Tenho um carinho imenso pelos trabalhadores em educação de Foz e Região que compreende o nosso Núcleo Sindical, pois a minha certeza é de que tivemos, temos e teremos pessoas que irão sempre lutar para que uma sociedade mais justa e igualitária comece pela Escola Pública.

Muitos professores (as), funcionários (as) já partiram. Por isso, em memória a eles não podemos jamais desistir. Independente do Governo que temos, o sistema capitalista jamais irá lembrar os que lutam e os que partiram, a não ser que isso sirva de alguma forma para a busca de mais poder ou do lucro.

Autor: Isaias Nunes Barbosa

São tantas as histórias que vivi nesses anos de Magistério e de APP. Algumas marcam mais, outras vão se somando à vida. Mas, assim de supetão, me vem à cabeça uma situação da greve de 1988. Eu participei ativamente do movimento e estava lá no fatídico dia 30 de agosto.

Lembro que estava próximo ao portão da ALEP, bem próximo de onde explodiu a 1° bomba, e ao correr dali, explodiu a 2° bomba, sustos terríveis e vi estilhaços da bomba nas pernas de uma professora que estava sendo amparada pelos colegas. Ao mesmo tempo lembro-me de ver o deputado Rafael Greca, fingindo-se de ferido, colocando um lenço na testa e gritando no portão da ALEP: “Abram esse portão em nome do meu mandato”.

No meio de todo aquele desespero, tive que presenciar uma cena hilária, de um vigarista, capitalizando a seu favor o ocorrido. Hoje, passados 35 anos, dou risada da situação, mas naquela hora queria matá-lo, aproveitador!

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