Mãe de estudante autista luta contra militarização do Colégio Estadual César Stange, em Guarapuava APP-Sindicato

Mãe de estudante autista luta contra militarização do Colégio Estadual César Stange, em Guarapuava

Acreditar que a militarização vai melhorar as escolas é como crer em fadas, diz mãe de estudante do colégio ameaçado

As mobilizações contra a militarização de escolas não dão trégua. Nessa quarta-feira (22) teve protesto no Colégio Estadual César Stange, em Guarapuava. Integrantes da comunidade escolar se manifestaram na porta do colégio para defender o voto contra a militarização na consulta que acontecerá nos dias 28 e 29 de novembro.

“Vamos deixar a educação nas mãos de quem é formado para cuidar disso. Os educadores são preparados, nosso colégio está bem preparado para cuidar dos nossos filhos”, diz Ana Alice de Mello, mãe de aluna do César Stange.

A possibilidade de militarização do colégio preocupa muito Ana Alice. “Sou mãe de aluna especial. Ela é autista, é bem assistida e respeitada por todos no colégio. Se o Sim ganhar, eu terei sérios problemas. Primeiro porque terei que mudá-la de escola; em segundo, o transporte e depois a adaptação dela à nova escola”, diz.

A mudança de escola resultaria em transtornos psicológicos para a estudante e financeiro para a família, diz Ana Alice. “Eu ganho um salário mínimo e vou ter que pagar o transporte. Não sei como vai ser”, afirma.

“Eu peço a todos os pais e mães e a toda a comunidade escolar que votem não. Se disserem sim vamos perder o direito de eleger nossos diretores e também as aulas noturnas, pois não vai mais ter ensino médio à noite”, explica Ana Alice.

Com a militarização, os estudantes que trabalham de dia e estudam à noite no César Stange vão ter que mudar de colégio, aponta Ana Alice. “Esses alunos também vão ter um transtorno, porque eles vão ter que pagar transporte para ir para outra escola e voltar, sendo que aqui dá para ir a pé”, diz.

Acreditar que a militarização vai melhorar as escolas é como crer em fadas, compara Ana Alice. “Eu não acredito que uma fada vá garantir o ensino e o aprendizado de nossos filhos. O que garante o ensino é o investimento feito pelo governador do Paraná, que tem feito muito pouco”, afirma.

Ana Alice aponta o absurdo de pagar a um policial militar da reserva para realizar atividades para as quais não está preparado. “Ele já ganha muito mais que um funcionário de escola, um professor e um diretor; e ainda vai ganhar um bônus de R$ 5,5 mil. Vejam a desproporção”, argumenta.

Insistência

A militarização do César Stange já foi rejeitada pela comunidade escolar em 2019. Agora o governador Ratinho Jr retoma o ataque ao colégio. “Eles vêm com a justificativa de que rendimento é baixo, mas na minha opinião e na dos pais com quem conversei é pura desculpa furada”, diz Ana Alice.

Guarapuava já tem três colégios militarizados e não precisa de mais um, afirma Ana Alice. “Onde foi militarizado tem pais e alunos horrorizados com o tratamento aos estudantes. Muitos tiveram que transferir seus filhos, porque há bullying contra a menina que pinta o cabelo ou o menino que gosta do cabelo um pouco mais comprido, entre outras situações”, afirma.

Uma análise de dados do Ministério da Educação (MEC) sobre números da rede estadual de educação do Paraná confirma denúncias da APP-Sindicato e ajuda a explicar porque o governo Ratinho Jr tem insistido na estratégia de militarizar escolas.

Um estudo feito pelo site Plural revela uma combinação de manipulação contábil, exclusão social e desmonte da educação pública para fabricar o slogan de estado com o “melhor Ideb do Brasil” no Ensino Médio.

Ao encerrar a gestão democrática e adotar a militarizada, a Secretaria da Educação (Seed) fecha as turmas do ensino noturno, expulsando das escolas os(as) estudantes que, por enfrentarem mais dificuldades para concluir os estudos, registram menores índices de frequência e aprovação.

O governo Ratinho Jr já fechou 76,8 mil vagas de ensino noturno no estado, sendo 13 mil só nas 207 escolas que já foram militarizadas. Eliminando esses(as) estudantes, o índice de rendimento, um dos itens utilizados pelo MEC para calcular a nota do Ideb, passou de 0,82 em 2017 para 0,96 em 2021, destaca a reportagem.

:: Nova onda de militarização prevê abandonar 8 mil estudantes do ensino noturno 

Exclusão de estudantes

Considerando o Censo Escolar 2022, entre as escolas ameaçadas pela militarização há unidades onde até 45% dos(as) estudantes podem ter suas matrículas encerradas. É o caso do Colégio Estadual José de Mattos Leão, no município de São João do Ivaí, localizado a 100 km de Maringá. Dos(as) 143 alunos(as) do estabelecimento, quase a metade, 64, frequentam o período noturno.

Ainda em números percentuais, outro colégio que pode ser bastante afetado é o Nobrega da Cunha, de Bandeirantes, distante 100km de Londrina. Caso a comunidade escolar não evite a militarização, a partir do próximo ano a escola vai extinguir 283 das 697 matrículas, o que corresponde a 41% do total. Dos colégios ameaçados, esse é o que possui maior número de estudantes com 18 anos ou mais.

Já em números absolutos, o estrago do modelo cívico-militar pode ser mais forte nos colégios Juscelino Kubitschek de Oliveira, de Foz do Iguaçu, e Décio Dossi, de Fazenda Rio Grande, região metropolitana de Curitiba. O primeiro perde 346 (29%) matrículas do ensino noturno e o segundo 314 (24%). Em outros 26 estabelecimentos, a quantidade de estudantes que poderá ser prejudicada também é grande, variando entre 100 e 283 por escola.

A militarização também proíbe a oferta da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Com isso, 2.277 matrículas dessa modalidade estão sob a ameaça de serem fechadas. A APP teve acesso à base de dados, que reúne números do Censo Escolar das 127 escolas. Juntas, as unidades possuem mais de 90 mil matrículas. Desse total, mais de 6 mil alunos(as) têm 18 anos ou mais.

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