Imprensa nacional repercute slide da Seed que chama vítimas da ditadura de “antipatriotas” e “esquerdistas” APP-Sindicato

Imprensa nacional repercute slide da Seed que chama vítimas da ditadura de “antipatriotas” e “esquerdistas”

Caso denunciado pela APP é destaque no portal UOL e também entrou para o arquivo do site Memórias Reveladas, vinculado ao governo federal

Nova polêmica envolvendo a gestão da educação no Paraná é destaque na imprensa nacional - Foto: Reprodução

Um dos maiores portais de notícia do Brasil, o UOL, divulgou nesta quarta-feira (13) uma reportagem sobre o slide elaborado pela Secretaria de Educação do Paraná em que vítimas da ditadura são tachadas de “antipatriotas” e “esquerdistas”. O caso foi denunciado pela APP-Sindicato na semana passada e causou indignação.

Já na manchete, a matéria assinada pela jornalista Ana Paula Bimbati, especialista na cobertura de pautas sobre educação, destaca que esse método de produção de materiais digitais foi criado por Renato Feder, ex-secretário da Educação do Paraná e atual gestor da pasta em São Paulo.

Questionado pela reportagem, o governo de Ratinho Júnior (PSD) disse que abriu um procedimento para investigar a responsabilidade pela produção do texto, que não compactua com as informações divulgadas e que não tem qualquer posicionamento político.

>> Leia a íntegra no site do UOL

A situação é tão grave que a denúncia do Sindicato também foi publicada no Arquivo Nacional do site oficial do Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985) – Memórias Reveladas. O órgão é vinculado à Presidência da República e reúne documentos e informações sobre o período da ditadura no país.

Denúncia da APP entrou para o arquivo do site Memórias Reveladas – Foto: Reprodução

Tentativa de manipulação

A APP ouviu diversos especialistas em educação e ativistas em direitos humanos. A reação geral é de espanto, indignação e preocupação. Para o professor da UFPR, Carlos Eduardo Vieira, pós-doutor e pesquisador nas áreas de História e Educação, a postura do governo estadual é lamentável e não tem base em evidências científicas.

“O que nós vemos, é uma tentativa de manipulação da história para afirmação de determinadas perspectivas ideológicas daqueles que ainda se ressentem das recentes derrotas do autoritarismo no Brasil, seja do autoritarismo instalado aqui em 64, seja neste último período de governo, no qual tivemos à frente do Estado brasileiro uma pessoa muito pouco disposta a fortalecer as instituições democráticas e os direitos humanos” diz.

Autoridades políticas também reagiram. A deputada federal e professora de História, Carol Dartora (PT-PR) associou a ocorrência com a imposição de plataformas em sala de aula pelo governo, que tem tirado a autonomia dos(as) professores(as).

Conteúdos problemáticos como esse escancaram uma gestão estadual conservadora de doutrinação bolsonarista, Não é a primeira vez que esse tipo de problema acontece!”, publicou em uma rede social.

Na foto da tela recebida pela APP, é possível verificar múltiplos usuários visualizando a apresentação

Entenda o caso

A imagem do slide circulou em grupos de mensagem no início deste mês de agosto. O conteúdo aborda a Operação Condor, um plano executado por regimes ditatoriais da América do Sul nas décadas de 70 e 80, com apoio dos EUA, para perseguir e matar quem não concordava com a ditadura.

No material elaborado pelo governo e disponibilizado para professores(as) de Geografia repassarem o conteúdo aos(às) estudantes do 2º ano dizia que “Essa aliança visava perseguir esquerdistas, antipatriotas e subversivos nos países do Cone Sul, independentemente de sua nacionalidade”.

Horas depois, o conteúdo foi alterado. Mas na nova redação, os alvos da ditadura ainda são retratados como “opositores e pessoas consideradas subversivas à ordem estabelecida”.

Secretária Educacional da APP-Sindicato, Vanda Santana classifica a situação como gravíssima, pois nota que o texto reproduz o posicionamento político ideológico de quem elaborou um material que é disponibilizado para todos os(as) professores(as) da rede estadual.

A dirigente critica o modelo adotado pela educação paranaense para a produção de materiais didáticos, pois o método possibilita que a opinião de um indivíduo vire referência no ensino. 

“Por isso nós temos reforçado constantemente a importância da autonomia no trabalho docente, desde o seu planejamento, produção de material e o encaminhamento das aulas”, comenta. 

Vanda enfatiza que a APP defende o conhecimento científico que passou por processo de pesquisa e validação das universidades e diversos pesquisadores(as). “Portanto, não podemos aceitar esse negacionismo e revisionismo histórico que esse tipo de slide apresenta”, argumenta.

Leia também: “Gravíssimo”: slide da Seed que tacha vítimas da ditadura como “antipatriotas” causa indignação

Não é a primeira vez

Não se trata de um caso isolado ou a primeira ocorrência. Em fevereiro deste ano, a APP denunciou outro material ofertado pela Seed com enfoque inadequado. O conteúdo distribuído para as aulas de Educação Financeira trazia slides estigmatizando a pobreza e culpabilizando estudantes pela sua condição social.

Para o professor aposentado, Luis Claudio Pereira, que lecionou a disciplina de História por mais de 32 anos nas redes pública e privada, o ocorrido é inaceitável e deixa evidente a ideologização bolsonarista que tomou conta da educação pública paranaense sob a gestão de Ratinho Jr. e Renato Feder.

“É assustador. O governo cria uma narrativa justificando um posicionamento ideológico da direita. Isso é nocivo para a democracia e nos afasta de uma visão de mundo pautada nos direitos humanos”, diz.

Golpe militar

O regime militar durou 21 anos no Brasil. A ditadura teve início após o golpe militar que depôs o então presidente João Goulart, em 31 de março de 1964. Além do autoritarismo e das violações aos direitos humanos, o período foi marcado por não ter eleições diretas para presidente(a), fechamento do Congresso Nacional e censura.

De acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, as graves violações de direitos humanos praticadas pelo regime militar no Brasil resultaram em 434 mortos e desaparecidos políticos. Já um levantamento divulgado pela Human Rights Watch, aponta que 20 mil pessoas foram torturadas e 4.841 representantes eleitos(as) pelo povo destituídos(as).

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