Imposição de plataformas digitais agrava exclusão de estudantes com deficiência na rede estadual

Imposição de plataformas digitais agrava exclusão de estudantes com deficiência na rede estadual

Apenas 16% das pessoas com deficiência concluíram o ensino médio em 2022

Nas últimas décadas, as tecnologias assistivas abriram caminho para múltiplas possibilidades de inclusão das pessoas com deficiência. Mas o uso inapropriado de plataformas digitais sem a adaptação necessária em sala de aula tem agravado a exclusão de estudantes que precisam de atendimento educacional especializado na rede estadual.

A massificação das atividades, a despersonalização do contato entre professores(as) e alunos(as), a falta de formação sobre o tema e problemas técnicos das tecnologias estão nas raízes das dificuldades que se somam às muitas críticas ao modelo de intensa plataformização da educação adotado pela Secretaria da Educação do Paraná (Seed).

Para a pedagoga Ingrid Adam, que atua com Atendimento Educacional Especializado (AEE) no Colégio Estadual do Paraná, não se pode negar os benefícios da tecnologia na educação especial, mas o problema está na forma, que coloca as plataformas no centro do processo de ensino e aprendizagem, e não o(a) estudante.

“Não é mais sobre o(a) aluno(a). Quem tem que aprender e se desenvolver é o(a) aluno(a) e não a plataforma. Se o importante fosse o(a) aluno(a), eu enquanto professora teria autonomia para usar ou não as plataformas se elas forem produtivas em casos específicos. Mas agora eu tenho que necessariamente usar as plataformas”, conta.

“É uma centralidade inclusive do processo docente, de docência no uso da plataforma. Então novamente o cerne é a plataforma. Eu enquanto professora tenho necessariamente que usar a plataforma. Agora isso cabe no meu planejamento?”, completa. 

:: Para 83% dos(as) professores(as), plataformas digitais não melhoraram aprendizado de estudantes no Paraná

A professora Eva Lenir Taurinho, do Colégio Estadual Genésio Moreschi, de Colombo, reitera a crítica: “A ideia do uso das plataformas é para universalizar os conteúdos para os estudantes, mas não é levada em conta a diversidade dos jovens, as especificidades, principalmente na educação especial em que cada pessoa tem suas peculiaridades de aprendizados”.

“Na educação especial, necessariamente precisamos fazer um processo de individualização. E essas plataformas, além de serem pensadas para uma condição mais geral, não nos dão essa possibilidade. Não conseguimos colocar recursos para torná-las mais específicas”, reforça Eva.

A secretária executiva Educacional da APP, Margleyse dos Santos, critica a falta de interação humana. “Hoje os professores estão tão voltados às plataformas que nem conseguem olhar para os alunos e saber de que maneira eles estão aprendendo ou se eles estão aprendendo. Então a cada dia a nossa escola pública está se tornando um espaço de exclusão”, alerta.

Região Sul tem baixa escolarização de PCDs

Dados de 2022 da Pnad Contínua (IBGE) apontam que o Brasil tem cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência. A taxa de analfabetismo entre os(as) PCDs foi de 19,5%, enquanto para as pessoas sem deficiência foi de 4,1%. A maior parte das pessoas de 25 anos ou mais com deficiência não completaram a educação básica: 63,3%.

Entre os(as) PCDs de 15 a 17 anos, faixa correspondente ao público da rede estadual de educação, a região Sul tem os piores índices, com uma taxa de escolarização de apenas 79,5%, ante 92,7% das pessoas sem deficiência com a mesma idade. 

Plano para retomar política de educação inclusiva

No Paraná, a Lei 18419/2014, do Estatuto da Pessoa com Deficiência, assegura o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis e à educação sem discriminação com base na igualdade de oportunidades.

Na contramão de avanços nacionais, no Paraná em 2021, o percentual de matrículas nas classes comuns de estudantes com deficiência, transtornos do espectro autista e altas habilidades ou superdotação era o menor do Brasil, com apenas 57,1%, bem abaixo da média nacional de 88,4%, segundo dados do INEP, vinculados ao Censo Escolar.

Para a professora Eva, o investimento na expansão da educação inclusiva é vital. “Temos grandes dificuldades para a inclusão efetiva, os alunos são colocados nos mesmos espaços, mas sem nenhuma condição de acessibilidade arquitetônica ou atitudinal. Para romper com o capacitismo, que leva as pessoas a acreditarem que a pessoa com deficiência não é sujeito de mesmos direitos e mesmas capacidades que os demais estudantes, é preciso investir em capacitação e oferecer formação continuada para os profissionais envolvidos no processo”, explica.

“O investimento em infraestrutura, como rampas, pistas táteis, banheiros adaptados, calçadas rebaixadas, sinal sonoro, libras comunicacional, com intérprete de Libras o tempo todo, ensino de Libras para todos, recursos de tecnologia assistiva, e metodológica, ou seja, em métodos de ensino que levem em consideração que cada pessoa, com ou sem deficiência, pois cada um aprende de um jeito diferente. A grande maioria das escolas não têm o mínimo necessário”, complementa.

O  Ministério da Educação prepara o lançamento de um plano de investimentos na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI). De acordo com reportagem do portal Terra, o governo federal pretende investir R$ 3 bilhões para universalizar as matrículas de todos(as) os(as) estudantes em classes comuns, garantir recursos de acessibilidade e formação de professores.

Mais dados e informações sobre a Educação Inclusiva no Paraná estão disponíveis no Caderno de Debates da 8ª Conferência Estadual de Educação, elaborado pela APP-Sindicato, a partir da página 173.

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