Governador Ratinho Jr. quer aprovar “cheque em branco” para militarizar mais escolas no Paraná

Governador Ratinho Jr. quer aprovar “cheque em branco” para militarizar mais escolas no Paraná

Projeto de lei enviado para votação em regime de urgência permite a militarização de escolas em tempo integral e autoriza secretário da Educação tomar decisões não previstas na legislação

O governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), enviou nesta segunda-feira (20) um projeto de lei à Assembleia Legislativa (Alep), para votação em regime de urgência, que acrescenta as escolas que ofertam a educação em tempo integral entre os estabelecimentos da rede estadual que podem ser militarizados. O texto também flexibiliza as regras do processo de consulta à comunidade e atribui ao secretário da Educação poder de decisão inclusive sobre situações não previstas na legislação. 

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A iniciativa ignora o fato de que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) ações que questionam a legalidade e a constitucionalidade da militarização de escolas. A presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto, critica a medida, reforçando que a proposta é uma propaganda ideológica do governador que, além de ilegal, não melhora a educação.

“Não há justificativa para ampliar o Programa Cívico-Militar no Paraná. Precisamos debater a melhoria da qualidade na educação em todas as escolas. A Secretaria de Educação precisa garantir condições de trabalho e aprendizagem em todas as escolas, e não criar segregação, dando condições diferenciadas para depois avaliar de mesmo modo todas as escolas”, afirma.

Para a secretária Educacional da APP-Sindicato, Vanta Santana, a medida apresentada pelo governador Ratinho Jr. aprofunda a desvalorização da educação. “Sempre defendemos que a formação crítica, criativa e emancipadora era a base para superação da enorme desigualdade social que impede que filhos e filhas da classe trabalhadora tenham acesso ao conhecimento e à riqueza socialmente produzidos. Ao contrário, queremos escolas de tempo integral com formação integral, com liberdade de expressão das  diversidades culturais e sociais, não a segregação,  o autoritarismo e a exclusão escolar”, declara.

Cheque em branco

O projeto de lei enviado pelo governo estadual altera dispositivos da Lei 21.327/22, que instituiu o Programa Colégios Cívico-Militares no Paraná. Além de incluir as escolas que ofertam ensino em tempo integral, o texto muda as regras da votação realizada para decidir se a comunidade escolar aceita o modelo. 

Pela norma atual, em caso de não haver quórum, a consulta pode ser repetida por três vezes e, não sendo atingido, a proposta de militarização é rejeitada. Pela proposta de alteração, em caso de quórum insuficiente para aprovar a mudança do regime escolar democrático para o militarizado, a votação poderá ser repetida por mais uma vez e, se ainda assim o quórum necessário não for atingido, a decisão caberá ao secretário de Estado da Educação.

Essa mudança, se for aprovada, representa mais um golpe contra a gestão democrática e desmascara a falsa democracia alegada pelo governo ao propor o modelo. Na prática, a medida é uma estratégia da gestão Ratinho Jr. para evitar ser derrotada, como aconteceu em edições anteriores da consulta onde a comunidade escolar, contrária ao projeto, não quis participar da votação ou votou contra a medida.

O caráter ilegal e autoritário da proposta também fica expresso na inclusão de um parágrafo único ao artigo 13 da Lei 21.327/ 2022, com a seguinte redação: “Parágrafo único. Os casos omissos serão analisados pela Secretaria de Estado da Educação – SEED”. O texto demonstra o interesse do governo em transformar a lei em um “cheque em branco”, para que o secretário da Educação tenha plenos poderes e possa tomar decisões inclusive sobre situações não previstas na legislação ou até que contrariem os dispositivos legais.

Inconstitucional

As escolas militarizadas começaram a funcionar no Paraná em 2021, após consultas à comunidade realizadas no ano anterior marcadas por casos de autoritarismo e desrespeito às comunidades escolares. A última consulta ocorreu em 2023 e atualmente o estado possui 312 colégios militarizados, mesmo após o presidente Lula encerrar, em 2023, o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), criado em 2019 pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

O programa prevê a contratação de policiais militares aposentados para atuar e interagir com os(as) estudantes nas escolas. Os(as) militares são chamados de monitores militares, mas em muitas escolas são conhecidos como diretores(as) militares, em sobreposição à autoridade dos profissionais da educação.

Esse conflito também se demonstra na remuneração. Ratinho Jr. paga aos militares a quantia mensal de R$ 5,5 mil. Mesmo não tendo formação ou conhecimento sobre processo pedagógico, educação e interação com adolescentes e jovens, eles recebem mais do que os(as) professores(as), que têm o piso atual fixado em R$ 4,9 mil no estado, para jornada de 40 horas semanais, e mais ainda do que os(as) funcionários(as) de escola que tem formação e qualificação para interação com os estudantes, os Agentes II, cujo piso salarial é R$ 4 mil.

Desde o anúncio do modelo, a APP-Sindicato tem atuado na resistência, denunciando os problemas da iniciativa para estudantes, educadores(as) e para a qualidade do ensino. O sindicato também tem acompanhado e notificado casos de violência nas unidades militarizadas.

>> Saiba mais: Escola Não é Quartel: 7 motivos para dizer não às escolas cívico-militares

Uma reportagem publicada em 2024 pela APP-Sindicato ouviu estudantes indignados(as) com as mudanças impostas a partir daquele ano após em escolas que abandonaram o modelo democrático e passaram a adotar o cívico-militar. Os(as) adolescentes relataram que foram obrigados(as) a cumprir uma série de regras estéticas consideradas abusivas e que não possuem qualquer relação com o ensino.

“Me sinto péssimo, porque eles estão querendo mudar a personalidade das pessoas. Eles falaram que quem não tirar os piercings e os bonés vai ter que mudar de escola. O ambiente no colégio está péssimo. A gente vai para a escola estudar e aprender, mas chega lá, parece uma prisão”, contou um estudante.

As regras constam no manual das escolas cívico-militares. O documento alega que a padronização do cabelo e a proibição de acessórios seriam “aspectos educacionais relacionados com a higiene, boa aparência, sociabilidade, postura, dentre outros”. Mas, para os(as) estudantes, a prática é abusiva e promove discriminação contra a identidade de grupos sociais, como pessoas negras e LGBTI+. 

STF

Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), movida pelo PT, PSOL e PCdoB, pede que o Supremo Tribunal Federal (STF) declare a inconstitucionalidade da Lei 20.338/2020, que criou o Programa Colégios Cívico-Militares do Paraná, e do art. 1º, inciso VI, da Lei 18.590/2015, que proíbe eleições para direção nas escolas cívico-militares.

Em manifestação no processo, a Advocacia-Geral da União (AGU) considerou que o programa de escolas Cívico-Militares de Ratinho Jr. é inconstitucional. O parecer da AGU argumenta que estados não podem criar um modelo educacional que não esteja previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Além disso, o órgão ressalta que a Constituição Federal não prevê que militares exerçam funções de ensino ou de apoio escolar. O relator do caso no STF é o ministro Gilmar Mendes.

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