Escritor critica censura do governo Ratinho Jr. a livro que aborda temática racial e venceu o maior prêmio de literatura do país  APP-Sindicato

Escritor critica censura do governo Ratinho Jr. a livro que aborda temática racial e venceu o maior prêmio de literatura do país 

Seed mandou recolher obra “O avesso da pele” de todas as escolas da rede estadual após fake news espalhadas por bolsonaristas

Foto: Divulgação

Após a APP-Sindicato denunciar, nesta terça-feira (5), um ofício do Núcleo Regional de Educação de Curitiba (NRE Curitiba) ordenando o recolhimento da obra “O Avesso da Pele” de todas as escolas, o caso passou a repercutir nos principais portais de notícia do país. O autor do livro, Jeferson Tenório, também se manifestou e classificou a deliberação do governo Ratinho Jr. como inaceitável e antidemocrática.

“É uma atitude inconstitucional. É um ato que fere um dos pilares da democracia que é o direito à cultura e à educação. Não se pode decidir o que os alunos devem ou não ler com uma canetada. São atos violentos e que remontam dias sombrios do regime militar. Inaceitável uma atitude antidemocrática como essa em pleno 2024. Não vamos aceitar qualquer tipo de censura”, escreveu Tenório em uma rede social.

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Entenda o caso

O livro foi incluído no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) pela gestão Bolsonaro, mas tem sido alvo de notícias falsas e tentativa de censura por bolsonaristas. A polêmica mais recente ganhou projeção nacional após uma diretora de escola do Rio Grande do Sul (RS) fazer interpretações equivocadas sobre a obra e publicar na internet um pedido para que os exemplares fossem recolhidos.

Após a denúncia, a APP recebeu relatos de que a ordem também chegou a outros NREs do estado. O Sindicato teve acesso a um documento da Secretaria da Educação (Seed) assinado pelas chefias dos departamentos de Desenvolvimento Curricular, Ane Carolina Chimanski, e Educação Inclusiva, Maíra Tavares de Oliveira, e pelo Diretor de Educação, Anderfábio Oliveira dos Santos.

O ofício foi direcionado a todas as chefias dos Núcleos Regionais de Educação ordenando, portanto, o recolhimento do livro em todas as mais de 2 mil escolas da rede estadual. O texto alega “a necessidade e a importância da orientação para a realização de encaminhamentos pedagógicos a partir dos livros que fazem parte do Programa PNLD literário”, mas tem como alvo apenas “O Avesso da Pele”. 

>> Leia também: Núcleo Regional de Educação de Curitiba manda recolher livro “O Avesso da Pele” de todas as escolas

Para a APP-Sindicato, a deliberação representa um grave ato de censura que deve ser imediatamente contido pelas instituições competentes, pois é intolerável que os absurdos praticados durante a ditadura militar de 1964 sejam repetidos no presente e, principalmente, no ambiente escolar.

Esse episódio entra para história como um dia triste e reforça a necessidade de denunciar e combater a contaminação da educação pública paranaense por ideologias extremistas, conhecidas pela negação dos direitos humanos e por atentar contra a democracia, a cultura, a diversidade e a pluralidade de ideias.

 

Obra premiada

De autoria do professor Jeferson Tenório, O Avesso da Pele é um romance que traz o racismo e a violência como temas centrais. O livro tem 192 páginas e foi publicado pela editora Companhia das Letras em 2020. No ano seguinte, ganhou o Jabuti, o mais tradicional prêmio de literatura do país.

O livro faz parte da lista de obras literárias obrigatórias cobradas no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), considerado um dos mais difíceis e concorridos do país.

Foto: Divulgação

Ao contrário de notícias falsas que circulam na internet, a escolha do livro não foi feita pelo governo do presidente Lula (PT). A análise da obra e inclusão no PNLD aconteceu na gestão Bolsonaro. O programa compra e distribui obras didáticas e literárias para as escolas públicas de todo o país. Os livros passam por uma rigorosa avaliação de especialistas e cada escola decide quais os títulos deseja receber.

Em resposta ao ataque à obra de Tenório, 250 artistas e intelectuais se uniram contra a censura. A lista de apoio reúne nomes como Chico Buarque, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Tom Farias, Zélia Duncan, Zuenir Ventura, Amyr Klink, Lilia Schwarz, Malu Mader e Silvio Almeida.

“Quando a censura é permitida, toda a cultura de um país é agredida. Ferem de morte a democracia, o direito de um autor se expressar, tiram a oportunidade de alunos entrarem em contato com textos escritos que foram observados e selecionados por comissões especializadas e preparadas para levar qualidade ao ensino”, afirma o grupo.

A historiadora e antropóloga, Lilia Schwarcz, usou as redes sociais para defender o livro e criticar a censura decretada pelo governo Ratinho Jr. Ela classificou a decisão como “uma cruzada moral e mal-intencionada”.

“Trata-se ademais de um grave entrave à liberdade de pensamento e de expressão. A censura de livros, a tentativa de cercear o acesso a determinados temas, faz parte de um movimento que lembra os governos autoritários e que buscam doutrinar; não educar para a liberdade”, escreveu.

>> Leia também: Um crime e um castigo | Artigo de Cláudia Gruber

>> Confira abaixo a íntegra do ofício da Secretaria da Educação encaminhado para as chefias dos Núcleos Regionais de Educação.

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