Escravista é apresentado para crianças como bom exemplo de líder em colégio cívico-militar de Foz Iguaçu

Escravista é apresentado para crianças como bom exemplo de líder em colégio cívico-militar de Foz Iguaçu

Homem exaltado durante palestra de intercambistas foi ex-presidente dos EUA e é citado por historiadores(as) como tirano e genocida; hino dos EUA teria sido cantado durante a ação

Intercambista diz para crianças que ex-presidente dos EUA, conhecido como escravista, tirano e genocida, é exemplo de boas escolhas - Foto: reprodução

“Ele fez boas escolhas”. Foi assim que um escravista dos Estados Unidos (EUA), citado por historiadores(as) como tirano e genocida, foi apresentado para crianças e adolescentes como modelo de líder e referência de bons valores, em um colégio cívico-militar de Foz do Iguaçu. Durante a palestra, realizada por um grupo de intercambistas, na última segunda-feira (22), ainda teria sido executado o hino dos EUA e realizada uma pregação religiosa sem autorização dos(as) responsáveis pelos(as) estudantes.

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A situação foi registrada em vídeos e denunciada à APP-Sindicato, que notificou a Secretaria de Estado da Educação (Seed), por ter autorizado a entrada do grupo nas escolas, exigindo apuração e responsabilização. “Manifestamos nossa profunda preocupação sobre tais práticas e nosso repúdio à presença de pessoas estranhas à escola realizando práticas de doutrinação religiosa, disfarçadas de atividades educativas, que exaltam figuras históricas associadas à violação da dignidade humana”, destaca o documento do sindicato.

O homem apresentado aos(às) estudantes é o sétimo presidente da história dos Estados Unidos, Andrew Jackson, uma figura que ficou conhecida negativamente por seu legado de extrema violência e abusos cometidos contra povos indígenas, por ser um grande defensor e proprietário de escravizados(as) e por ter reforçado desigualdades. Ele também é chamado por historiadores(as) como tirano, por ter desrespeitado decisões da Suprema Corte, e genocida, por ter sido responsável por atos que provocaram a morte de milhares de indígenas.

Nas imagens que a APP-Sindicato teve acesso, os(as) intercambistas falam com as crianças no idioma inglês enquanto outra pessoa faz a tradução simultâneamente. Em um determinado momento, um palhaço exibe uma cédula gigante de 20 dólares e a mulher pergunta para as crianças se elas sabem quem é o homem que tem o rosto estampado no dinheiro. As crianças respondem que não, quando ela continua dizendo que é Andrew Jackson. Na sequência, ela conta a história do homem como um exemplo de superação por ter ficado órfão quando criança, mas conquistado a patente de general do Exército.

“Esse é um homem que se chama Andrew Jackson. Enquanto ele era só um menininho, algo muito ruim aconteceu com ele. O pai e a mãe dele morreram. Então quando muito pequeno ele ficou sem o pai e a mãe, mas ele estava determinado a ter sucesso na vida. Então ele trabalhou muito e fez boas escolhas. Quando ele ficou mais velho, ele entrou para o Exército. Ele continuou fazendo boas decisões na vida. Ele serviu ao seu país. Ele subiu tanto de nível que, por fim, ele chegou à patente de general. Ele era responsável por liderar muitos homens”, disse a intercambista.

Proselitismo religioso e hino dos EUA

Em outro trecho de vídeo, uma intercambista faz uma pregação religiosa induzindo todos(as) os(as) presentes a professar a doutrina do cristianismo. Além da prática apresentar indícios de proselitismo religioso em ambiente público de ensino, também pode ser questionável pelas características de uma parcela significativa da população local, já que Foz do Iguaçu abriga uma das maiores comunidades islâmicas do Brasil. 

No Islã, Jesus não é considerado divino, não é filho de Deus, nem foi crucificado, mas a pregação realizada na escola pede para as crianças afirmarem exatamente esses dogmas da doutrina cristã. Gritando ao microfone, a mulher pede para que as crianças repitam suas palavras: eu acredito / que Jesus morreu / numa cruz para mim. / Eu acredito que ele ressuscitou / e que ele está vivo. / Jesus, venha para a minha vida, / me ajude a fazer boas decisões, / perdoe os meus erros / e seja o Senhor. / Em nome de Jesus, / amém!

Intercambista induz crianças a professar dogmas do cristianismo durante palestra que também apresentou escravista como referência de bons valores – Foto: reprodução

De acordo com educadores(as) que presenciaram a situação e aceitaram conversar com a reportagem da APP-Sindicato sob a condição de anonimato, além da pregação religiosa e da apresentação do escravista como referência de bons valores, os(as) intercambistas também teriam cantado uma parte do hino dos EUA sob a alegação de que a intenção seria ensinar o idioma inglês. 

As fontes não souberam confirmar se os(as) responsáveis pelos(as) estudantes foram comunicados(as) sobre o conteúdo da palestra, mas disseram ter conhecimento de que a presença do grupo foi indicada pelo Núcleo Regional de Educação e já teria sido realizada em outros estabelecimentos da rede estadual de ensino, em Foz do Iguaçu. O caso foi registrado no Colégio Cívico-Militar Santa Rita.

A palestra foi realizada por integrantes do Programa de Intercâmbio Cultural GV (GV Cultural Exchange Program, em inglês). No site do grupo, afirmam que a atividade têm duração de 45 minutos e inclui atividade divertida de aprendizado sobre os Estados Unidos, aula de inglês com falantes nativos de inglês, dramatização sobre bons valores e moral e esquete com palhaço. Na página, também indicam que o público alvo são crianças e adolescentes do Ensino Fundamental II, ou seja, os(as) estudantes com idade entre 9 e 14 anos.

Seed admite irregularidade

Em nota à imprensa, após o caso repercutir nas redes sociais, a Seed admitiu as irregularidades e disse que determinou o cancelamento das atividades. O texto, no entanto, não explica porque autorizou as palestras e se os(as) responsáveis foram comunicados(as) ou autorizaram a participação dos(as) estudantes.

“Assim que tomou conhecimento da realização de atividades incompatíveis com as finalidades inicialmente apresentadas por uma empresa de intercâmbio cultural em escolas da rede estadual de ensino de Foz do Iguaçu, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) determinou o imediato cancelamento das ações e a suspensão de qualquer nova atividade da instituição nas unidades escolares da rede”, diz a nota.

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