Enegrecer a política: entrevista com a vereadora Carol Dartora

Enegrecer a política: entrevista com a vereadora Carol Dartora

“Eu sou uma mulher negra, eu sinto todo o peso da estrutura, não dá pra falar só de uma coisa ou de outra.”

Foto: Joka Madruga

Negros(as) e pardos(as) são 56% da população, mas apenas 6% dos(as) vereadores(as) no Brasil se declararam pretos(as) (TSE, 2020). Embora as eleições de 2020 tenham registrado número de recorde de candidatos(as) negros(as), a sub-representação na política persiste.

Outro ponto de desigualdade está no gênero: mulheres negras e pardas compõe apenas 4,8% dos eleitos em 2020.

Apesar de retrocessos políticos e da ascensão do conservadorismo no Brasil, mulheres negras vêm conquistando espaços graças às lutas antirracistas e feministas. Um exemplo é Carol Dartora (PT), dirigente estadual da APP que foi eleita para a Câmara Municipal de Curitiba com 8.874 votos em 2020.

Nessa entrevista, Carol fala de sua infância numa cidade racista, da luta coletiva para conquistar uma vaga na Câmara e da importância de enunciar claramente nossas metas e desejos na luta política, entre outros temas.

APP – Como foi ser uma garotinha negra em Curitiba?

Carol Dartora – Totalmente difícil… Meu período de escola foi muito difícil. A gente vai para a escola, que é o primeiro espaço de socialização depois da família, e a escola não é uma ilha. Ela é um recorte social, então todos os problemas sociais, especialmente em escola púbica, estão ali dentro borbulhando. Então foi muito difícil, porque eu era uma menininha preta retinta, na cidade de Curitiba. Minha família é curitibana, eu sou curitibana, mas infelizmente a cidade se organiza como uma cidade europeia, uma cidade branca que não reconhece e inclusive invisibiliza parte de sua população. Então é como se a gente não fosse daqui, como se a gente fosse um ET.

APP – As dificuldades começaram cedo…

Carol – Eu cheguei na escola e tudo era problema. Era o cabelo, era a cor, era isso, era aquilo, era macaca, era cabelo de bombril. Isso foi toda a minha vida escolar. Minha mãe todo tempo indo na escola, tendo que falar com os professores.

APP – Então você logo viu que tinha uma diferença no tratamento…

Carol – Ah sim… Eu sofri coisas como apanhar em creche e minha mãe ter que ir conversar com a professora, que simplesmente me bateu, com dois aninhos de idade, porque eu era preta. São situações difíceis. É ruim até de ficar fazendo esse retorno…

Foto: Joka Madruga

 

APP– Quando percebeu a falta de representação do negro na sociedade?

Carol – A História que eu recebi era abrir livro didático e ver preto no tronco. Então eu cresci com esse vazio de representação, de pertencimento, por isso o desejo de estudar História. Quando voltei à escola para dar aula, eu achava que o que vivi no meu período de escola já tinha acabado. Eu entrei em sala de aula em 2013, a gente já estava nos governos do PT, com livros didáticos reformulados, livros de História maravilhosos, contando a história das mulheres, das revoltas negras que a gente teve no Brasil. Eu achava que seria tudo lindo. Ledo engano. O racismo estava do mesmo jeitinho, parece que no mesmo lugarzinho. Aquilo para mim foi chocante, eu via minhas alunas negras sofrendo o mesmo que eu sofri. Eu fiquei inconformada. A gente avançou em tanta coisa e as estudantes negras ainda estão vivendo isso nas escolas.

APP– Você dava aula no ensino médio?

Carol – No médio e no fundamental, onde estavam os maiores incômodos. Aí resolvi pesquisar, pois pensei: isso não é normal, isso tem que ser estudado. Meu mestrado foi sobre o cotidiano das adolescentes negras nas escolas públicas de Curitiba. Entrevistei várias meninas e isso me trouxe um outro entendimento. A pesquisa me trouxe a luta das mulheres. Entendi que essa soma de raça e gênero tornava a vida das mulheres mais difícil inclusive que a dos homens negros. Somou a luta de gênero, num feminismo negro.

APP – Era hora de ampliar a militância…

Carol – Nesse momento eu já tinha me inserido na base da APP, já estava nas lutas pela educação pública de qualidade, fui para o movimento negro com mais força, comecei a construir nos movimentos organizados, na Marcha de Mulheres, no Movimento Negro Unificado, nos coletivos de combate ao racismo na APP. Depois fui para a assessoria da APP e cheguei à direção.

APP– A APP enriqueceu tua formação e expressão política?

Carol – Demais. Inclusive me mostrou a necessidade da luta institucional, que não basta ficar gritando do lado de fora das instituições, porque é dentro delas que a gente começa a mover as pecinhas. O sindicalismo me deu tudo, sem ele eu não estaria aqui, porque me ensinou a ter método na luta. Nisso eu entendi que precisava fazer a luta partidária também.

Foto: Joka Madruga

 

APP– E como decidiu sair candidata?

Carol – O estopim foi quando fui convidada para dar uma aula de história da mulher na política brasileira, num curso da UFPR. Preparei a aula falando do quanto as mulheres são sub representadas, somos 52% dos eleitores, temos que vencer isso e uma aluna falou “tá, carol, mas você já se candidatou quantas vezes?” Isso me deu ânimo de fazer essa disputa.

APP – Em que ano foi isso?

Carol – Era 2018. Curitiba tinha esse buraco político, devido a vários elementos, que elenquei na aula. Nós mulheres somos menos incentivadas e as mulheres negras, muito menos. Não é à toa que somos muito sub representadas. Eu percebi que tinha um buraco político. Curitiba nunca tinha eleito uma mulher negra para nada. O Paraná nunca elegeu uma deputada estadual negra. Então o coletivo político de que faço parte abraçou a ideia. Eu me candidatei em 2020 e fui a primeira mulher negra eleita na cidade de Curitiba.

APP– Como avalia a campanha eleitoral?

Carol – A gente fez uma discussão muito articulada, interseccionando os temas, fazendo o debate de classe, de gênero, falando de tudo. Era engraçado porque a gente ouvia: “nossa você tá falando de tudo, tá parecendo uma candidatura a prefeito”. Eu respondia: “eu sou uma mulher negra, eu sinto todo o peso da estrutura, não dá pra falar só de uma coisa ou de outra”.

 

Foto: Joka Madruga

 

APP– Então a campanha já foi satisfatória, independentemente do resultado…

Carol – Sim, pois a gente viu o quanto esse desejo de representatividade estava latente na cidade. Foi um encontro. A gente veio com a proposta, ao mesmo tempo em que tinha esse vazio político, e a cidade abraçou, tanto que fui a terceira candidata mais votada da cidade (8.874 votos), com um dos votos mais baratos entre os eleitos.

APP – Aí começou uma nova luta, que deve ter uma rotina bem dura para você…

Carol – Antes de começar a Legislatura, um dia eu vim na Câmara para ver a estrutura do gabinete e a primeira coisa que os dois vereadores que me acompanhavam me falaram foi: quem é você, de onde você veio, como você fez esse número de votos? Isso acontece pela invisibilidade da nossa luta, da nossa história. Eu já era sindicalista, estava atuando em Curitiba na rede de ensino há um bom tempo, palestrando em empresas, mas a nossa construção é invisibilizada. É como se eu não tivesse fazendo nada. Aos olhos dessa Câmara, é como se eu tivesse acordado um dia, resolvido ser vereadora e dado sorte.

APP– Você chega a sentir algum tipo de intolerância?

Carol – Total. Mistura o antipetismo com o racismo, que é latente. Não é que eu chego a sentir, ela se joga na minha cara. Estamos vivendo episódios absurdos aqui dentro. Por exemplo, toda minha assessoria ser acusada de invadir gabinetes, porque a maior parte dos assessores que trabalham comigo são negros. Um dia o movimento negro veio aqui visitar os gabinetes para falar de um projeto que eu propus. Aí disseram que meus assessores estavam invadindo gabinetes, porque são pretos. E qual é o problema de o movimento negro entrar aqui, o que tem de mal nisso? Isso aqui é aberto para toda a sociedade.

Foto: Joka Madruga

 

APP – A que atribui a essa intolerância?

Carol – Também aos debates que a gente traz. Eu sou uma vereadora de esquerda, sou mulher, feminista, negra. Então o debate que eu trago aqui para dentro eles nem ouviram falar. Outro dia estava em plenário e disse que a branquitude precisa entender o seu lugar na sociedade. Aí um dos vereadores disse: você esta me ofendendo, nunca ouvi essa palavra. Eu disse: é um conceito, não é ofensivo. Então a gente vê essas surpresas, tanto com a presença como com as propostas e o debate político.

APP – Que mensagem você mandaria aos professores do Paraná em relação ao futuro?

Carol – Mudanças são difíceis, mas são possíveis. Mudar é difícil, mas não é impossível, isso quem me ensinou foi Paulo Freire, que me possibilitou essa compreensão de que, muitas vezes, por nem enunciar aquilo que a gente deseja, é que a gente não chega lá. Se a gente não enunciar as transformações que a gente quer, onde a gente quer chegar, o que a gente quer ter, o que a gente quer fazer, não tem como chegar lá.

APP – Que enunciado vem à tua cabeça para 2022?

Carol – O Paraná está na hora de se repensar. A gente precisa de pessoas negras eleitas na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. Então esse é o novo enunciado: o Paraná tem que dar esse passo adiante.


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