Empresa que desenvolveu o aplicativo “Aula Paraná” é alvo de denúncia

Desenvolvedora do “Aula Paraná” tem ligação com redes de apoio ao presidente Bolsonaro, aponta o site The Intercept

Foto: Divulgação

Uma das principais ferramentas do Ensino a Distância (EaD) do governo Ratinho Jr (PSD), está envolta de polêmicas e críticas. O Aplicativo pertence ao grupo IP.TV, empresa ligada a políticos bolsonaristas e está em funcionamento desde o dia 30 de março. Na última segunda-feira (15), o portal The Intercept Brasil publicou uma matéria desvendando informações sobre a empresa e a sua atuação na área da educação no país.

Possuidora de outras plataformas de EaD no país, a IP.TV tem acesso a dados de mais de 7,1 milhões de alunos(as) e professores(as) do Brasil. Atualmente, os estados do Paraná, São Paulo, Amazonas e Pará utilizam da plataforma para distribuir aulas durante a pandemia. Segundo a reportagem, a política de privacidade dos aplicativos retêm “a menor quantidade possível de dados pessoais, comunicações privadas e registros de acesso”. EM resposta ao The Intercept, a empresa afirmou que os dados serão excluídos após o fim do uso e que “não será realizado qualquer tratamento de dados pessoais excessivo ou fora dos limites” – uma definição vaga, que abre margem para abusos como o uso comercial dos dados de crianças e adolescentes.

Além do problema com dados, existem ainda dúvidas sobre a contratação da IP.TV no Estado. A empresa foi contratada sem licitação, embora dias depois, o governo alegou que a empresa pediu para alterar o contrato e não receber nada pelo aplicativo. Em resposta ao Jornal Plural, que também publicou uma matéria sobre o contrato com a organização, A Secretaria de Estado de Educação do Paraná) afirmou que a IP.TV  foi contratada por ter apresentado um preço menor:  R$ 0,10 por mês para cada aluno ou professor logado. O custo mensal estimado é de aproximadamente R$100 mil, já que são cerca de um milhão de alunos na rede estadual.

Por conta da falta de informação em relação à empresa e o problema com os dados de estudantes, deputados(as) da oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) solicitaram que o Governo apresente detalhes da contratação. Os(as) deputados(as) também enviaram um pedido de providências para o Conselho Estadual de Educação. No documento os legisladores enfatizam que o aplicativo pode violar os direitos das crianças e adolescentes.

“Pelo dever geral de prevenção de ameaça ou violação a direitos de crianças e adolescentes, se comprovadas as preocupações acima, acredita-se, que uma atitude urgente a ser adotada é a adequação dos termos de uso e privacidade, eliminando quaisquer riscos a imagem, privacidade ou do próprio direito a educação, afirma os(as) deputados(as) em nota.

A secretária Educacional da APP-Sindicato, Professora Taís Mendes, ressalta ainda que é dever da Alep investigar sobre este aplicativo. “Diante das denúncias tão graves de todo esse tema, esse é um motivo para a Secretaria do Estado da Educação suspender esse aplicativo”.

Mau funcionamento

Disponível para sistemas Android e IOS, o aplicativo registra altas taxas de reprovação, na avaliação dos(as) estudantes(as) que baixaram o programa. Na loja Play Store (Android), a nota do Aula Paraná é 2,6. Na Apple Store (IOS) a média é ainda mais baixa, 1,4. Os dados foram coletados na tarde desta quinta-feira (17).

Nos comentários registrados nas plataformas, os(as) usuários(as) justificam as notas. Alguns criticam que não conseguem fazer o login e que acham o aplicativo confuso. Outros relatam que a proposta do governo exclui muitos(as) estudantes que não têm os recursos tecnológicos para ensino a distância.

O secretário executivo de Educacional, Professor Cleiton Denez, destaca que o aplicativo tem tido baixo número de acessos, considerando que a rede estadual possui em torno de um milhão de alunos e 70 mil professores. “É uma plataforma desnecessária, considerando que as aulas estão disponíveis no YouTube e nos canais abertos. Porém, a secretaria utilizou como pretexto a gratualidade dos dados por meio dessa plataforma. Mas há vários casos que os alunos não possuem sequer celular ou outro meio tecnológico para o acesso”.

Um dos usuários do aplicativo, critica a baixa qualidade de imagem e relata a dificuldade dos alunos(as) ao utilizar a plataforma. Confira o print abaixo:

 

 

 

 

 

 

 

 

Cleiton Denez reafirma ainda que a quantidade de aplicativos atrapalha na aplicação de uma educação de qualidade. “O aplicativo acaba sendo mais uma plataforma para o professor entre tantas outras que vem operando. Os professores precisam acessar as outras plataformas e o LRCO também que acaba tornando o Aula Paraná desnecessário”.

A direção da APP-Sindicato também solicitou informações acerca da denúncia apresentada pelo The Intercept e aguarda explicações da Secretaria da Educação. 

Confira mais detalhes sobre o tema:

:: Deputados(as) pedem investigação sobre coleta de dados pessoais no aplicativo Aula Paraná
:: Aplicativo Aula Paraná recebe nota 1,5 e é reprovado por estudantes
:: Sobre as aulas EAD na escola pública do Paraná