Em SP, Feder pretende substituir professores(as) por IA em produção de aulas

Em SP, Feder pretende substituir professores(as) por IA em produção de aulas

Após a criação do conteúdo pela Inteligência Artificial, os(as) professores(as) serão responsáveis por editar o material, que será revisado por uma equipe interna da secretaria

Foto: Secretaria de de Estado da Educação de São Paulo

Depois de atormentar os(as) educadores(as) por quatro anos no Paraná e deixar um cenário de terra arrasada na educação estadual, Renato Feder continua implementando projetos polêmicos e desconexos da realidade da educação brasileira.

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Desta vez, o empresário, à frente da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), quer implementar a utilização do ChatGPT, aplicativo de Inteligência Artificial, para produzir aulas digitais, que deverão ser utilizadas por professores(as) de toda a rede estadual.

De acordo com a matéria da Folha de São Paulo, a Secretaria enviou uma orientação para a produção do material para o 3º bimestre deste ano explicando que a IA deverá gerar a “primeira versão da aula com base nos temas pré-definidos e referências concedidas pela Secretaria”. 

Após a criação do conteúdo pela Inteligência Artificial, os(as) professores(as) serão responsáveis por editar o material, que será revisado por uma equipe interna da Secretaria e formatado e adequado para a implementação.

Segundo Feder, a decisão é uma forma de acelerar a produção de aulas, o que expõe a sua visão fordista de educação, com a produção de aulas em massa, sem responsabilidade pedagógica.

Com isso, a Secretaria pretende aumentar a entrega de aulas de quatro por semana para três aulas a cada dois dias úteis, ou seja, seis aulas por semana. 

A secretária de Assuntos Educacionais da APP, Vanda Santana, aponta que a proposta de Feder subverte a profissão de educadores(as). 

“No formato previsto, os professores e professoras passam a ser meros revisores e colaboradores dos conteúdos criados, inicialmente, pelos robôs da IA. Impossibilita o desenvolvimento pedagógico da equipe escolar e da subjetividade do universo dos estudantes e dos saberes que se busca na escola, limita a percepção da realidade. A escola vai perdendo a sua função de fazer a formação em bases sociais humanizadoras”, afirma Vanda.

Já a secretária executiva de Assuntos Educacionais da APP, Margleyse dos Santos, reforça que a postura de Feder acentua a desvalorização de educadores(as) e promove a mercantilização da educação pública.

“Desde que o Renato Feder esteve na Secretaria de Educação do Paraná, é evidente a mercantilização da escola pública, a desvalorização do ser humano e a substituição do trabalho docente por máquinas e tecnologias. Não que sejamos contra, mas fere a autonomia pedagógica pois as mesmas ficam à frente do trabalho pedagógico e da humanização”, explica a secretária.

Repercussão negativa

A proposta assombrosa de Feder gerou de imediato repúdio de setores ligados à educação pública em todo país, que consideram mais uma forma de mercantilizar a escola pública, já que Feder entrega a produção de conteúdo para uma empresa dona do aplicativo ChatGPT e transforma o(a) professor(a) apenas em um reprodutor de conteúdo. 

O Sindicato dos(as) Professores(as) do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOSP) publicou uma nota repudiando a proposta de Feder. 

No documento, a instituição afirma que: “A Inteligência Artificial é uma ferramenta que tem limitações e pode contribuir no processo pedagógico, desde que baseada em longo e refletido planejamento, para potencializar as estratégias de ensino e aprendizagem decididas e conduzidas pelos professores. Não pode substituir professores como responsáveis pela formulação de conteúdo pedagógico. Ela é meio e não fim em si”. 

Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores(as) em Educação (CNTE), reforçou que não é aceitável que a educação pública passe por um processo tão violento de mercantilização.

“Os setores educacionais brasileiros verdadeiramente comprometidos com a educação pública desse país repudiam mais essa tentativa vil que os interesses mercantis tentam impor no Estado de São Paulo. Essa medida, que ataca a autonomia da profissão docente, deve ser imediatamente revogada. Nada substitui os saberes e os conhecimentos humanos que, ao contrário do que atualmente é feito pela gestão do Estado de São Paulo, devem ser cada vez mais valorizados”, aponta a instituição em nota.

Especialistas temem a proposta

Não só educadores(as) temem que a medida de Feder acarrete em danos irreversíveis para a educação. Sérgio Amadeu Silveira, professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) que trabalha com as implicações sociais da IA reforça que a proposta reduz a autonomia de professores(as) e empobrece o ensino.

“Além disso, ao contrário da prometida “personalização” do ensino, ocorrerá é a homogeneização de realidades e situações distintas. Os professores não têm como treinar os modelos adequados a cada realidade de sala de aula. Os grandes modelos de linguagem, em especial o GPT, foram treinados e aperfeiçoados com conteúdos dos países de língua inglesa. Os vieses são perceptíveis.  O prório GPT escreve abaixo do seu prompt: “ChatGPT can make mistakes. Consider checking important information”. Traduzindo: “ChatGPT pode cometer erros. Considere verificar informações importantes”, explica o pesquisador.

O professor aponta ainda que para que a IA seja implementada nas práticas pedagógicas, primeiro os(as) educadores(as) devem se familiarizar com a ferramenta e achar uma forma adequada de implementar a utilização em sala de aula.

“A IA realmente existente deve ser compreendida pelas educadoras e educadores. Precisamos desmistificá-las. Estamos falando do uso de sistemas algorítmicos de estatística e probabilidade que criaram modelos a partir de gigantescas bases de dados e alto poder computacional. Esses modelos precisam de ajustes constantes. As educadoras e educadores podem utilizar sistemas de IA Generativa como um apoio à produção de suas aulas e não como obrigação. Essa obrigação parece feita para cumprir contratos da administração com empresas privadas”, finaliza Sérgio.

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