Em São Paulo, Feder abole livros impressos das escolas e abre mão de recursos federais

Em São Paulo, Feder abole livros impressos das escolas e abre mão de recursos federais

No mundo, cresce o debate sobre os impactos negativos da digitalização da educação na aprendizagem do(as) estudantes

Na contramão das recomendações de especialistas e do bom senso, Renato Feder anunciou o fim do livro didático impresso nas escolas estaduais paulistas. A rede terá apenas conteúdos digitais a partir do 5º ano do ensino fundamental. O Estado abriu mão de participar do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), recusando R$ 120 milhões em recursos federais para a compra de livros.

De acordo com a Folha de São Paulo, mais de 1,4 milhão de estudantes não receberão livros didáticos já no ano que vem. Ao todo, mais de 10 milhões de livros deixarão de ser distribuídos. Ao jornal, a pasta disse que utilizará apenas conteúdo produzido pelo próprio governo paulista para manter “a coerência pedagógica”.

A medida do ex-secretário da Educação do Paraná veio a público uma semana após a divulgação de um relatório da Unesco que alerta sobre possíveis impactos negativos da adoção acrítica de tecnologias digitais na educação.

No mundo, o debate está em franca ebulição. Diversos países proibiram o uso de smartphones em sala de aula. A Suécia, que há 15 anos já usava tablets na escola, abandonou seu plano de digitalização e anunciou a volta dos livros. A decisão se deu após a queda de desempenho em testes padronizados da capacidade de leitura dos(as) estudantes. 

“Estamos em risco de criar uma geração de analfabetos funcionais”, advertiu a ministra da Educação do país, Lotta Edholm. 

Existem muitas evidências de que escrever com caneta e papel codifica a aprendizagem de forma mais profunda do que digitar. Estudos realizados em 2012 e 2020 demonstram que a escrita manual aciona redes neurais que não são ativadas com a digitação. A capacidade de absorção de conteúdos através da leitura em papel ou em telas também causa debates acalorados nos campos da pedagogia e da neurociência.

Um estudo de 2019 concluiu que os livros de papel produziam melhor compreensão do que suas versões digitais. Em 2021, uma meta-análise avaliou que as crianças compreendem a versão impressa mais prontamente, mas os livros digitais levariam vantagem quando o conteúdo traz movimentos e sons que direcionam a interação do(a) estudante.

Unesco adverte contra uso indiscriminado da tecnologia

De acordo com o relatório “Tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, publicizado pela Unesco na última semana, o uso intensivo de plataformas e dispositivos tecnológicos pode ter impacto negativo na educação e na aprendizagem dos(as) estudantes. 

O documento põe em xeque o modelo educacional adotado por governos como o do Paraná, que tem imposto a professores(as) e estudantes uma avalanche de plataformas tecnológicas sem qualquer diálogo ou reflexão crítica sobre o impacto no ensino-aprendizagem e nas condições de trabalho da categoria.

>> Baixe o relatório da Unesco

A Unesco aponta que “há poucas evidências robustas do valor agregado da tecnologia digital na educação” e que “boa parte das evidências são produzidas pelos que estão tentando vendê-las”. O relatório traz dados que indicam correlação negativa entre o uso excessivo de tecnologias e o desempenho de estudantes, inclusive em avaliações de larga escala como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).

Mesmo quando há reflexos positivos no trabalho pedagógico, as evidências são fracas. “A tecnologia teve efeitos positivos baixos a moderados em alguns tipos de aprendizagem. Uma avaliação de 23 aplicativos de matemática usados no nível primário demonstrou que eles se concentravam em memorização e prática, em vez de habilidades avançadas”, observa o relatório.

Ainda de acordo com a Unesco, a tecnologia sozinha não garante bons resultados. No Peru, por exemplo, mais de 1 milhão de laptops foram distribuídos sem qualquer impacto na aprendizagem. “Em outras palavras, seu uso deve atender aos melhores interesses dos estudantes e complementar uma educação baseada na interação humana. Ela deve ser vista como uma ferramenta a ser usada nesses termos”, diz o órgão da ONU.

Plataformização no Paraná

A APP defende o uso das tecnologias de forma complementar a uma educação baseada em interação humana, em contraste com o modelo adotado no Paraná, marcado pela imposição, pela vigilância e pelo controle sem qualquer evidência de resultados positivos para a aprendizagem. 

O Sindicato e o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) estão realizando uma pesquisa com professores(as) da rede estadual sobre a plataformização da educação. A Secretaria Educacional do Sindicato trabalhou em conjunto com os(as) cientistas sociais do Instituto para desenvolver o questionário.

A expectativa é que os dados coletados ajudem a subsidiar a resistência e o debate com governo e sociedade sobre o tema, que deve ser um dos focos da luta no próximo período. A plataformização da educação foi a principal pauta da última Edição Pedagógica do jornal 30 de Agosto, distribuída nas escolas durante os dias pedagógicos.


>> Acesse a Edição Pedagógica sobre plataformização da educação

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