Educadores apontam 10 falhas no protocolo de volta às aulas

Educadores apontam 10 falhas no protocolo de volta às aulas

Com retorno presencial, sem vacinas nem testes em massa, profissionais temem surtos em escolas de Curitiba

Brinquedos não podem ser compartilhados. Foto: Ricardo Marajó/ SMCS

Sem imunização contra o coronavírus para os profissionais da Educação, o retorno presencial às aulas, previsto para 18 de fevereiro, deixa em alerta os professores da Rede Municipal de Curitiba. Mesmo com as medidas de higiene e distanciamento previstas pelo Governo do Estado e pela Prefeitura, os educadores não estão seguros e apontam 10 falhas no protocolo de segurança. Elas foram divulgadas pelo Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac) e pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc) e estão listadas a seguir:

1 – Salas de aula sem adaptação

Só o distanciamento e o uso de máscaras de pano simples não impedem a transmissão do vírus por aerossóis. Além disso, para as crianças de 3 a 5 anos, destaca o sindicato, a utilização de tatames que são divididos entre elas faz com que o distanciamento seja ainda mais complicado. As janelas são estreitas e dificultam a ventilação.

2 – Medir a temperatura não impede a entrada do vírus

A febre só costuma aparecer entre dois ou cinco dias depois do contágio, além de ser apenas um dos sintomas da Covid-19 e nem sempre estar presente. Ou seja, muitos são assintomáticos e não apresentam nenhum sintoma da doença. Neste caso, medir a temperatura – especialmente no pulso – não vai impedir a entrada do vírus na escola.

3 – Transporte escolar não garante segurança sanitária

O Ministério Público do Trabalho (MPT) recomenda que os veículos escolares circulem com 50% da capacidade e com barreiras físicas entre os assentos, o que, segundo os professores, não é exigido pelo protocolo da Prefeitura, assim como a garantia à fiscalização quanto à lotação. Outro problema está na saída das escolas, que precisariam de demarcação correta de espaços para o embarque e desembarque, considerando o distanciamento social nas filas do transporte.

4 – Testagem periódica e massiva

A testagem massiva de alunos e trabalhadores e o rastreamento de contatos foram ignorados do protocolo de volta às aulas, afirma o Sismmac. “Sem saber quantas pessoas podem estar infectadas, como garantir a segurança em sala de aula?”

5 – Crianças não são imunes à Covid-19

Crianças e adolescentes costumam ser assintomáticas ou desenvolver sintomas leves de Covid-19, mas isso não significa que sejam imunes à doença, tendo um percentual pequeno de casos graves e mortes, incluindo aquelas pela Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, que aparece semanas após a contaminação pelo coronavírus.

Os professores lembram ainda um estudo da Universidade de Granada, na Espanha, que mostra que “uma turma com 25 alunos pode gerar mais de mil contatos cruzados em apenas dois dias, considerando apenas as interações familiares. Em três dias, o número de interações já pode ultrapassar 15 mil pessoas”.

6 – Não houve contratação de mais trabalhadores para limpeza e higienização

O Sismmac desta que as crianças estão acostumadas a pegar objetos, dividir brinquedos e materiais escolares. Além da dificuldade para evitar que isso aconteça em sala aula, a higienização correta se torna essencial para que o risco de contágio seja reduzido. “Mas, como fazer uma limpeza adequada se o número de trabalhadores da limpeza é insuficiente? A conta da Prefeitura não bate. Os protocolos de limpeza aumentaram, mas o número de profissionais não. Basta olhar para o protocolo para perceber que durante um dia de trabalho é impossível respeitar todas as determinações da Prefeitura”, diz a entidade.

7 – Será possível o não compartilhamento de objetos?

Os professores lembram a dificuldade em conseguir manter crianças distantes, sem se tocar ou trocar objetos, como brinquedos ou canetas. “Além de dar aula e lidar com problemas de indisciplina, a Prefeitura espera que os professores auxiliem os alunos a usar as máscaras corretamente, ajudem na higienização das salas e materiais e também arquem com a tarefa de fiscalizar e impedir qualquer contato físico, mas não contratou mais profissionais para que isso ocorra com responsabilidade. E mantém turmas com cerca de 20 alunos. Nos CMEIs, as crianças dividem tatames, o que faz com que o distanciamento seja ainda mais complicado. Você acha que é realmente possível impedir que os estudantes interajam em salas assim?”

8 – Falta água para higienização

O rodízio de 36h sem água atinge todo o Paraná, que vive sua maior crise hídrica desde maio de 2020. No protocolo de volta às aulas, as escolas devem informar aos Núcleos de Educação sobre a falta de água. “Ao longo de 2020, a gestão Greca deixou faltar água de forma recorrente até em Unidades Básicas de Saúde. Dá para confiar que a Prefeitura vai garantir caminhão-pipa para as mais de 400 Unidades de Ensino?”, questionam os educadores.

9 – Faltam EPIs para os trabalhadores da Educação

As máscaras de pano ajudam a reduzir o contágio, mas não servem como Equipamento de Proteção Individual (EPIs). “As recomendações do Ministério Público do Trabalho deixam claro que a Prefeitura deveria garantir, no mínimo, as viseiras de acrílico (faceshields) para reduzir a exposição dos professores e demais trabalhadores da Educação, mas as unidades ainda não receberam uma por servidor. Também não foram fornecidos jalecos descartáveis para a troca entre uma turma e outra.”

10 – Rodízio de alunos não descarta risco de surto nas escolas

A troca semanal de estudantes que vão frequentar as turmas de modo presencial não garante proteção contra a Covid-19, garantem os professores, que não entram no sistema de rodízio e terão contato com todos os estudantes, podendo ser um vetor de transmissão entre os dois grupos. “Esse contato é inevitável, especialmente as turmas de Educação Infantil e séries iniciais do Fundamental. Até porque, será exigido que os professores e demais trabalhadores auxiliem no uso correto e substituição das máscaras a cada 4h ou sempre que estiverem molhadas.”

Fonte: Plural Curitiba