Educação violada: aplicativo não autorizado surge no celular de professores(as) e levanta suspeitas

Educação violada: aplicativo não autorizado surge no celular de professores(as) e levanta suspeitas

A estranha ocorrência despertou medo e desconfiança generalizada na categoria, já sob permanente vigilância e pressão das políticas do secretário Renato Feder

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Algo está muito errado na educação do Paraná. Professores(as), pedagogos(as) e estudantes da rede estadual foram surpreendidos(as) na noite desta sexta-feira (18) com um aplicativo instalado sem permissão ou autorização prévia em seus celulares pessoais.

O aplicativo em questão é o Alura, do grupo empresarial homônimo que presta serviços de educação tecnológica ao governo do Estado. A invasão foi maciça, afetando todos os celulares android que possuem login ativo no @escola, plataforma educacional que opera como uma conta do Google.

A estranha ocorrência despertou medo e desconfiança generalizada na categoria, já sob permanente vigilância e pressão das políticas educacionais do secretário Renato Feder, que deve deixar o Paraná para assumir a pasta no governo de Tarcício de Freitas, em São Paulo.

Antes de fazer as malas, Feder deve explicações minuciosas sobre a real extensão da rede de monitoramento, patrulha e violação de dados e da privacidade dos(as) trabalhadores(as) e do conjunto da comunidade escolar do Paraná.

O pânico se alastrou rapidamente na base. E com razão. A instalação do aplicativo por terceiros e sem autorização dos usuários sugere que alguém ou um grupo de pessoas possui controle total sobre as permissões de uso dos aparelhos pessoais da comunidade escolar. O que mais está sendo monitorado? Quais dados são violados e com qual frequência? Quem será responsabilizado por esta invasão de privacidade?

A Secretaria de Assuntos Jurídicos da APP já estuda as medidas cabíveis para proteger os dados da comunidade escolar e fazer valer os direitos da categoria. O Sindicato também questionou a Seed sobre o ocorrido e aguarda mais informações.

O que disse a Seed

O Núcleo Regional de Educação de Curitiba publicou uma nota em grupos de whatsapp na tentativa de justificar o inexplicável. Segue abaixo.

“Sobre a instalação do app Alura

O app foi alocado em uma área errada no painel de admin do Google – o que causou a instalação massiva em celulares Android. A desinstalação deve ser feita de forma manual (o usuário desinstala) pois se for feita uma desinstalação massiva vamos prejudicar os professores e alunos que usam a plataforma Alura.

Então quem não for usuário da plataforma pode desinstalar o app. Não houve comprometimento de dados e/ou de segurança.

Att.,

CRTE NRE Curitiba”

Outro NRE deixou escapar que “A instalação automática de aplicativos pode ser conduzida pelo administrador de contas institucionais da Google.”

Cabe, portanto, reiterar o questionamento: se a Google ou alguém da própria Seed pode instalar aplicativos em massa sem autorização dos usuários, o que mais podem fazer sem o conhecimento da categoria e dos(as) estudantes?

Educação vigiada

Para além da potencial violação de privacidade, o episódio deve servir para lançar luz sobre o avanço do chamado capitalismo de vigilância no terreno fértil da educação brasileira. A expressão, popularizada por Shoshana Zuboff, pesquisadora de Harvard, designa o modelo de negócios do qual a Google é pioneira.

Com a pandemia, sem consultar a comunidade escolar, ignorando soluções alternativas e a privacidade dos(as) usuários(as), o governo  impôs a adoção em massa das plataformas da Google na rede estadual.

Entregou, assim, uma imensa base de dados, até então sob a guarda do Estado,  a uma multinacional que sobrevive da exploração e análise de informações pessoais para obter lucro.

A absoluta falta de transparência dos termos da cooperação, dos critérios utilizados para a definição da ferramenta e do tratamento dispensado aos dados pessoais dos usuários(as) é estarrecedora.

São empresas que se utilizam de técnicas de inteligência artificial para obter previsões sobre o comportamento dos usuários(as) na Internet – suas buscas e preferências, por exemplo -, traçar perfis de consumo e, com isso, maximizar os ganhos ofertando produtos e serviços.

Como afirma o ativista norte-americano Eli Parisier; se é de graça, é porque o produto é você.

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