É possível salvar o ano letivo de 2020?

*Por Jociane Martins Pedroso

Foto: Divulgação

QUAL O CUSTO DESTA TENTATIVA PARA ALUNOS E PROFESSORES?

Não chamem o que temos nas escolas estaduais não só no Paraná, como em diversos estados, e até redes municipais de Educação a Distancia (EAD). A modalidade EAD antes da pandemia só poderia ser aplicada no Ensino Superior, Profissionalizante, e com Reforma do Ensino Médio, como parte da carga horária, não entrarei em na crítica a este último caso. Para os defensores da EAD, não há dúvidas que ela exige disciplina, uma organização específica, planejada e sistemática. Qualquer instituição séria de EAD tem ao menos:

– Professor formador: forma professores, tutores e equipes de EAD;

– Professor conteudista: prepara material específico;

– Tutor a distância: realiza atendimento on-line, interage com os cursistas, às vezes corrige atividades;

– Tutor presencial: tira dúvidas nos polos, atende presencialmente, acompanha provas presenciais;

Isso sem falar nas coordenações de área, de polo, técnicos, web designer (quem faz as postagens, programação do Ambiente Virtual de Aprendizagem), gerenciamento dos logins, senhas, acesso.

No Paraná uma experiência que deu certo foi o Profuncionário, tínhamos uma proposta de Professor tutor, além de atender presencialmente (o que não seria possível hoje), preparava seu plano de trabalho docente (com base nas propostas aprovadas e no material impresso de cada aluno), preparava as atividades presenciais e a distância, corrigia essas atividades dos seus 30 alunos com 20 horas. Havia muita formação, muita troca de experiências entre os profissionais.

Hoje o que temos tem sido chamado de aula remota. Um professor com 20 horas tem 8 turmas, cerca de 240 alunos, e se o professor tem 40 horas esse número dobra. Pedagogos e Direções, na melhor das hipóteses são 8 turmas por períodos, cerca de 80 salas. Porém esse número pode chegar a 800 até 1000 salas no Google Classroom, quem está em 2 escolas é pior, pois esses números dobram. A ordem é “não pode excluir”, se movimentar as turmas voltam a cada atualização. Voltando aos professores regentes: são 8 salas para acompanhar, 8 vídeos aulas para assistir (agora são de 25 minutos), analisar se bate com seu conteúdo ou não, selecionar quais atividades, normalmente o conteúdo não bate e tem que buscar outros materiais. Antes não podia excluir, bora buscar tutorial como organizar as salas no Classroom. Agora pode excluir, substituir, bora buscar tutorais como postar essa ou aquela atividade, como corrigir, como duplicar atividade… Apenas dia 08 de maio (quase dois meses depois do início do isolamento), foi dado o primeiro curso de formação inicial para professores ensinando o básico do básico, como acessar, abrir tarefas, responder no mural ou individualmente, questões necessárias  40 dias atrás.

Pedagogos(as), Coordenações e Direções também assistem essas lives de “formação em serviço”, pois precisam auxiliar no meio de suas 300, 400 mil salas. São chamados para acompanhar, monitorar se alunos e professores estão acessando. Como se o Google não foi criado para EAD? Foi criado para complementar as aulas presenciais. Até o momento não tem uma forma “eficaz” de saber quem acessa, já que alunos e professores estão perdidos. Não temos como saber se professores e alunos assistem as aulas na TV, Aplicativos a não ser pelos relatos dos mesmos. Não é função dos(as) pedagogos(as) monitorar presença de professor.

O Secretário/empresário afirma que o professor é protagonista, as atividades são postas em sua sala de aula em qualquer momento, em nome do professor, há excesso de atividades. Alunos não conseguem entender o que é pra fazer ou não, ficam perdidos, desmotivados, por mais que os professores, equipes tentem ajudar é muita gente com dúvidas… Impossível acompanhar as 4 mil mensagens de e-mail que nos chegam toda semana.

Estamos todos exaustos, deprimidos, sensíveis, tendo que dar conta dos serviços domésticos, higienização de tudo, preocupação com a saúde de nossos entes, cuidados dos filhos que também estão estudando em casa, precisam de computadores, celulares (que estão pifando com excessos de mensagens, e-mails). Estamos longe de nossas famílias, nossos alunos, colegas, é uma live, reunião, após a outra, depois de um dia de trabalho saímos sugados, corpo dói, pulso dói, lombar, estômago, enxaqueca, ansiedade até pânico…

Tudo isso na melhor das hipóteses 40% conseguirão, alguma escolas mais que isso, mas muitas não chegarão a 10%. Lembro que no ano que tivemos aprovação automática os resultados foram sentidos até 4 anos depois, a defasagem dos alunos daquele ano se arrastou até eles se formarem, foi visível. Desta vez a defasagem será maior e nossos alunos das escolas públicas que têm celulares precários, sem computador, que trabalham, serão os mais prejudicados. Como disse o Prof Luiz Carlos de Freitas aumentará as desigualdades educacionais.  E o que faremos com quem não aprendeu? Mais “re re trabalho” para professores e equipes pedagógicas, funcionários para auxiliar eles a recuperar parte do conteúdo perdido. A APP-Sindicato desde o início tem dito não é o momento, desta forma não dará certo, existem outras formas, outros países estão tomando outros caminhos. Até que ponto isso é necessário? Viável neste momento que estamos? Irá auxiliar mais do que se tivéssemos outras propostas, atendimentos complementares, sem tanta pressão. Com tudo isso o ano letivo de 2020 já não está perdido?

* Jociane Martins Pedroso, professora pedagoga da rede estadual e secretária Educacional da APP-Sindicato Núcleo de Cascavel.