Diante de um governo de morte, construir luta e esperança

*Por Hermes Silva Leão

Foto: Divulgação

Na famigerada reunião do presidente Bolsonaro com seus ministros, em 22 de abril, um detalhe importante passou praticamente despercebido em meio ao destempero verbal e agressões tornadas públicas pela decisão do ministro Celso de Mello do Supremo Tribunal Federal (STF).

Após a fala absolutamente ignorada do então ministro da saúde, Nelson Teich, o presidente Bolsonaro proferiu o único comentário sobre o tema da saúde pública naquela atividade. Anunciou de maneira efusiva que havia ligado para o diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, a respeito de uma postagem em que o diretor lamentava a morte de um patrulheiro pelo covid-19.

Reforçou que insistiu com o diretor se o patrulheiro não tinha nenhuma outra doença que houvesse favorecido o óbito.

Demonstra que, no mínimo, passou um corretivo sobre a postagem feita pelo interlocutor. Ninguém presente na reunião teceu qualquer outro comentário, seja sobre as preocupações demonstradas pelo ministro da saúde ou pelo comentário desastroso de Bolsonaro. Silêncio mortal sobre a principal crise do período, enquanto impropérios eram vomitados pelos ministros da economia Paulo Guedes, do Meio Ambiente Ricardo Salles, da Educação Abraham Weintraub, da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, e as agressões verbais do próprio presidente da República.

Nesta semana, milhares de estadunidenses ocuparam as ruas em protesto a mais um caso de racismo e violência policial, tragicamente comuns, tanto lá quanto cá. Um policial branco reconhecidamente racista e supremacista executou George Floyd, negro de 46 anos que não oferecia qualquer risco à segurança pública.

Eis que o presidente Trump reagiu de modo tão distorcido que foi censurado pelo twitter. Segundo a plataforma digital, o presidente estadunidense feriu as normas da comunicação na rede ao “enaltecer a violência”: “… esses bandidos estão desonrando a memória de George Floyd, e eu não deixarei isso acontecer. Acabei de falar com o governador Tim Walz (do estado de Minessota), e disse que os militares estarão com ele”.

Essa mensagem está no contexto do desacordo de Trump com a linha de atuação de Jacob Frey, o prefeito da cidade de Mineápolis. Trump considera que o prefeito taxado de esquerdista foi fraco ao não conter os protestos, especialmente por conta do incêndio da delegacia onde os policiais assassinos atuavam. Trump prossegue na mensagem pelo Twitter: “Qualquer dificuldade nós assumiremos o controle mas, quando os saques começarem, o tiroteio começará. Obrigado”.

Os Estados Unidos e o Brasil são hoje os dois países com maior número de mortes diárias pela pandemia do covid-19. A doença chegou nestas duas nações quando países como Itália e Espanha, assolados pela mortandade provocada pelo vírus, davam exemplo de como as prevenções necessárias como o isolamento social deveriam ser cuidadosamente planejadas e imediatamente executadas. Ou seja, estas duas nações populosas tiveram a oportunidade de não repetir erros ocorridos e seguir pela linha de acertos, como ocorrido em Nova Zelândia e Portugal, onde os efeitos danosos sobre a população foi mitigado pela atuação nacional de suas lideranças, Jacinda Ardern e António Costa, respectivamente.

Nesta manhã de sábado, 30 de maio, os Estados Unidos superam 104 mil mortos e o Brasil se aproxima das 30 mil mortes. Projeções indicam milhares de mortos no fúnebre caminho escolhido pelas duas principais lideranças dessas nações.

No Brasil o quadro é a cada dia mais nebuloso.

Os desacertos de Bolsonaro sobre os efeitos da doença, desavenças políticas com governadores(as) e prefeitos(as), somadas à falta de autoridade moral para os membros dos poderes legislativo e judiciário compõe um quadro de proporções históricas de puro pavor.

Essa escolha coletiva de parcelas do eleitorado que votam em sujeitos que defendem a pena de morte, o uso da violência como método de imposição do medo, o apego às armas, o falso combate à corrupção, afrouxamento de leis sobre a preservação ambiental, e fazem da mentira ferramentas de sua comunicação social compõe a quadra da distopia (lugar ruim segundo a etimologia grega), em que nos encontramos.

Construir uma rota alternativa na qual a solidariedade, a esperança, o amor à ética, à ciência e à verdade sejam as ferramentas políticas da saída desse lodaçal distópico é tarefa necessária, urgente e coletiva. Não podemos e não devemos desanimar. A utopia está lá, no horizonte, conforme nos legou Eduardo Galeano o notável escritor uruguaio.

*Hermes Silva Leão, professor e presidente da APP-Sindicato 

Fonte: Brasil da Fato