Denúncias de desmonte da EJA marcam início do ano letivo

Direção da APP-Sindicato pede que comunidade ajude no mapeamento e enfrentamento dos problemas com a modalidade

Foto: Comunicação APP-Sindicato

O início do ano letivo mal começou e a APP-Sindicato vem recebendo novas denúncias sobre dificuldades na confirmação e nas novas matrículas da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os problemas têm origem na proposta do governo do Estado da redução de turmas e na implementação da modalidade ofertada em blocos semestrais, prevista  para entrar em vigor agora em 2020 pela Secretaria de Estado de Educação (Seed) e aprovada  pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) apesar do esforço e mobilização do Sindicato e comunidade escolar desde meados de 2019 pela não alteração da oferta de EJA.

A medida imposta pelo Estado incluem padronização de cronogramas, redução de tempo de estudos, diminuição da oferta das horas semanais de cada disciplina, priorização da profissionalização ao invés da escolarização, adoção quase total da aplicação em ensino a distância (EAD) para o segundo semestre de 2020. A direção estadual esteve, no início da semana do CEEBJA Paulo Freire e acompanhou a dificuldade de estudantes em darem sequência aos seus estudos diante da mudança de terem que se adaptar ao cronograma padronizado. Veja abaixo os depoimentos:

 

Confira a nota da Secretaria Educacional, publicada no final do ano passado, sobre a medida:“Toda a denúncia que fizemos desde a primeira audiência pública sobre o tema, as mobilizações na Seed e junto ao Conselho Estadual de Educação se comprovam agora, no início do ano. Nós alertávamos para que fosse suspensa essa tramitação desta transição porque ela iria prejudicar a organização das escolas e o direito dos estudantes, está se firmando. Estamos agora lutando para reverter isso”, afirma o presidente da APP-Sindicato, professor Hermes Silva Leão

Diante da atual situação a APP-Sindicato orienta que a comunidade se organize, documente as dificuldades que a escola tem tido para confirmar e/ou efetivar matrículas e junto com o abaixo-assinado enviar para o e-mail educacional@app.com.br ou entregue nos Núcleos Regionais da APP-Sindicato, como também pode ser enviado diretamente ao Conselho Estadual da Educação que estará reunido na semana de 17 a 21 de fevereiro.

O Ministério Público do Paraná também pode e deve ser procurado para se fazer denuncias sobre casos de estudantes que estão com a matrícula e continuidade dos estudos inviabilizado, isso pelo telefone (41) 3250-4703, pelo email caop.educacao@mppr.mp.br e até mesmo pela internet no link que está aqui.

Carta Abaixo assinado do Forum EJA - 2020

“O COMEÇO DO FIM DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO PARANÁ

Depois de ignorada por meses, governo surpreende com proposta para redução na oferta de EJA para o Paraná

Depois de, impressionantes nove meses de silêncio total sobre o que o governo Ratinho Jr, com seu Secretário Renato Feder, pretendem com  a política pública de Educação de Jovens e Adultos (EJA), aparece circulando nas redes sociais a apresentação completa do que a SEED quer impor como modelo de mudanças na modalidade. Trata-se de um pacote pronto com expectativa de implementação já para 2020. Uma pressa surpreendente, para um governo que não se ocupou da modalidade durante todo primeiro semestre e agora apresenta um cronograma sufocante, que vai de uma pseudo consulta a comunidade escolar (discussão nas escolas em apenas uma semana) para em seguida apresentar a proposta junto ao Conselho Estadual de Educação para aprovação em novembro.

Entre os absurdos apontados na proposta esta:

– o congelamento e padronização de cronograma, o que por si só destrói a oferta de EJA, dada as particularidades da população adulta com baixa, ou sem nenhuma escolarização que se compõe de mães e pais trabalhadores(as) urbanos(as) e rurais com diferentes jornadas de trabalho, muitas delas sazonais, pessoas privadas de liberdade, entre tantos(as) outros(as) cujos  horários são merecedores de atenção pela escola e pelo sistema e que agora estão submetidos(as) as jornadas organizadas em turno, tal qual o modelo de seriação de nossas escolas. Muitos dos(as) que freqüentam a EJA deixaram a escola seriada por conta da organização dos tempos, incompatíveis com as rotinas de trabalho;

– a redução de tempo de estudos que resultará no aligeiramento das aprendizagens e trará evidentes prejuízos justamente para aqueles(as) que necessitam de tempo de estudo para qualificar e consolidar seus conhecimentos;

– a diminuição na oferta de algumas disciplinas, criando uma hierarquia de importância de matérias, desconsiderando o quanto o ensino de artes pode fazer diferença para a(o) costureira(o), ou o quanto o conhecimento de geografia pode ajudar o(a) entregador(a), ou a química a cozinheira(o);

– a profissionalização em detrimento da escolarização, num evidente entendimento que pessoas jovens, adultas e idosas que estão na EJA só devem estudar para ocupar um posto de emprego, uma concepção utilitarista, tecnicista e preconceituosa da educação na medida em que deve-se ensinar para os(as) da classe trabalhadora um oficio, e para os(as) da classe dirigente o ensino deverá lhes dar condição da assunção de níveis mais elevados de ensino.

– a proposição de até 80% da carga horária em Educação a Distância (EAD), uma das medidas mais danosas e controversas que um sistema de educação pode conceber porque pressupõe autonomia dos(as) estudantes, além de conhecimento sobre as ferramentas tecnológicas. A Seed propões três modalidades: 30%, 50% ou 80% de EAD nos currículos da EJA. Nenhuma das propostas apresentadas é integralmente presencial, o que de imediato sentencia a presença da EAD na EJA. Os(as) estudantes da EJA, excluídos(as) do processo escolar normatizado, muitos(as) idosos(as) e que estavam longe da escola há alguns anos, são aqueles(as) que mais necessitam de um acompanhamento presencial por parte do(a) professor(a), algo que a EAD não oferece. Isso sem contar que muitos não estão familiarizados com as tecnologias que envolvem a aprendizagem em EAD. Não obstante as questões que envolvem a aprendizagem dos(as) estudantes, a proposta afeta diretamente o trabalho dos(as) professores(as) . A impressão que se tem é que o(a) professor(a) trabalhará com suas turmas parte do tempo presencial, parte a distância e não é assim, este tempo em que o educando estuda a distância com materiais previamente preparados, o(a) professor(a) tem de preencher com outra turma, levando a duplicar, ou até triplicar (no caso de 80% EAD) o números de turmas e estudantes atendidos(as). Outra situação gravíssima é que, se a opção for de trabalhar com vídeo aulas, ou aulas a distância, não há a necessidades de professores(as), porque equipamentos podem ser operados por técnicos, ou até mesmo por algum(a) estudante.

Entre estas e algumas outras medidas, ainda é possível perceber facilmente o aprimorar dos mecanismos de monitoramento do trabalho do(a) professor, um viés de responsabilização, e sem se apontar a mesma objetividade e segurança de se investir na melhoria da qualidade da oferta. As medidas contidas na proposta tem o potencial de piorar a qualidade ofertada, de cessação de turmas e, por conseguinte, decretar o fim da Educação de Jovens e Adultos no Paraná.  Isso tudo em um estado que tem o piores índices de escolarização da região sul e que tem milhões de pessoas que precisam e esperam atendimento de qualidade ao seu alcance. Mais uma vez a Secretaria de Estado da Educação mostra sua face de um governo que entende o Estado como um prestador de serviço privado.

A APP-Sindicato é radicalmente contrária a tais medidas e se alinha as proposições do Fórum Paranaense de EJA presentes no Plano de Ações coletivamente elaboradas e propostas para a modalidade bem como a realização do que está previsto nas lei 18.492 de 2015 do Plano Estadual de Educação.

QUE AS ESCOLAS QUE OFERTAM EJA REPUDIEM A PROPOSTA. Não respondam a indecente proposta da SEED e, junto com os(as) estudantes e comunidade escolar, encaminhem a Seed ou aos Núcleos de Educação uma nota de desagravo pela proposta e reafirmem a necessidade do ensino presencial, da  flexibilização de horários e da oferta adequada de todas as disciplinas.

Para ampliarmos esse debate junto a sociedade e aos(as) deputados(as) estaduais, estaremos realizando, em parceria com o Fórum Estadual de EJA, Comissão de Educação da ALEP e mandato do Prof. Lemos, no próximo dia 9 de outubro (quarta-feira) uma Audiência Pública com o tema: avaliação e perspectiva da educação de jovens e adultos no Paraná. Desde já toda a categoria esta sendo convidada a participar deste debate e incidir na ALEP e no governo pela alteração na atual e futura proposta de EJA.

A Educação de Jovens e Adultos do Paraná exige respeito à sua história, aos seus profissionais e aos estudantes. Não participaremos desta pantomima que decretrará o começo do fim da EJA em nosso estado.

Secretaria Estadual Educacional da APP-Sindicato”

 

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