Da cozinha à direção sindical, trajetória de merendeira inspira colegas e ex-estudantes

Da cozinha à direção sindical, trajetória de merendeira inspira colegas e ex-estudantes

Celina Wotcoski tornou-se a primeira merendeira na Diretoria Estadual da APP-Sindicato e mostra como a educação e a organização coletiva podem transformar vidas

Celina Wotcoski, primeira merendeira a integrar a Diretoria Estadual da APP-Sindicato - Foto: Altvista / APP-Sindicato

No portão do Colégio Estadual Professora Marilze da Luz Brand, em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba, os dias da Agente Educacional I, Celina Wotcoski, sempre começavam com uma pergunta:  “Tia Celina, o que vai ter de lanche hoje?”. Foram mais de 20 anos nessa rotina, de cuidado, acolhimento e apoio no processo de ensino-aprendizagem, conciliando, além do trabalho e dos afazeres  pessoais, muito estudo e a luta em defesa da educação pública. O resultado não foram só estudantes bem alimentados(as), mas também um feito histórico. Celina tornou-se a primeira merendeira a integrar a Diretoria Estadual da APP-Sindicato, e sua trajetória é reconhecida como inspiração para os(as) colegas de profissão.

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“Eu reclamava que o sindicato não nos ouvia e um dia ouvi do professor Dirceu (ex-dirigente do Núcleo Sindical Curitiba Metropolitana Sul), após falar poucas e boas para ele, que era de pessoas como eu que eles precisavam”, lembra Celina, contando que transformou em luta aquele momento de indignação. Em 2012, ela virou representante de base no núcleo sindical e em 2021 assumiu a secretaria estadual de Promoção de Igualdade Racial e Combate ao Racismo da APP-Sindicato, cargo que permanece à frente na gestão recém-empossada para o período de 2025 a 2029.

Celina é a primeira merendeira a integrar a Diretoria Estadual da APP-Sindicato – Foto: APP-Sindicato / Arquivo

Os depoimentos de colegas de trabalho e ex-alunos(as) das escolas em que Celina atuou revelam uma educadora que fez e faz com dedicação muito mais do que as atribuições exigidas de seu cargo no serviço público. “A tia Cel, para mim, é um anjo. Aprendi com ela que o amor é o primeiro ingrediente da comida e da vida. Ela sempre dizia que o que você faz, volta em dobro. E volta mesmo”, comenta a merendeira do Colégio Marilze da Luz Brand, Andreia Correia Surdi, 43 anos. 

Celina com suas colegas de profissão do Colégio Estadual Marilze – Foto: João Paulo Nunes Vieira / APP-Sindicato

“O lanche dela era melhor que o de casa. Anos depois, voltei como professora e ela continuava lá, com o mesmo sorriso. Ela nos ensinou que a escola é lugar de igualdade e respeito”, diz a professora Bruna Regina dos Santos, 26. Gean Ferraz, que também conviveu com Celina na época em que estudava, hoje é funcionário de escola na rede estadual. Ao recordar daquele tempo, destaca o quanto a merendeira se dedicava, mesmo em condições precárias de trabalho. “Eu conheci a Celina em outro colégio. A estrutura era menor, mas mesmo com a estrutura bem limitada, ela fazia o melhor e hoje trabalhando aqui, eu entendo o quanto foi importante o trabalho dela”, conta.

Trajetória de luta

Mulher negra, natural de Lapa (PR), Celina aprendeu cedo o valor do trabalho. Ainda menina, ajudava a mãe, dona Rita – a “vó Pretinha” -, referência de força e generosidade. “Não tive a presença do meu pai. Foi minha mãe quem me ensinou o que é resistir”, lembra. Casou-se jovem, ficou viúva aos 28 anos, com três filhos(as) para criar. Foi nesse momento que percebeu que o estudo seria o caminho para recomeçar. “Se eu não estudasse, ia ficar presa sempre nos mesmos trabalhos. A educação é a chave que abre todas as portas. Ela me deu coragem para seguir.”

Além do trabalho em defesa dos(as) funcionários(as) de escola, Celina atua na promoção de políticas antirracistas nas escolas – Foto: APP-Sindicato / Arquivo

Voltou para a escola junto com a filha mais velha. Concluiu o Ensino Médio pelo antigo supletivo no Núcleo de Estudos Avançados (NEA), hoje Ceebja, e não parou mais. Graduou-se em Gestão Pública pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), fez curso de Segurança do Trabalho pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR) e o Profuncionário, curso voltado especificamente para servidores(as) da educação estadual do Paraná. “Quando entrei na universidade, percebi que podia ser mais do que imaginava. A educação não mudou só minha vida. Mudou o jeito como eu olho o mundo”, diz.

Além dos(as) três filhos(as), é avó de quatro crianças e, como gosta de dizer ao lembrar dos(as) estudantes, tia de muitos(as). “Eu sempre me coloquei no lugar daquele aluno e daquela aluna que vinham até mim para receber o lanche”, lembra Celina. “Eles e elas foram a melhor parte que o universo podia me dar.” Com sorriso de gratidão no rosto, Celina também lembra com ternura de quem a inspirou. Dona Palmira, a merendeira da escola onde estudou, que sempre guardava um potinho de comida para ela levar pra casa. 

Divisor de águas

Para Celina, a educação pública é mais do que estrutura, é um ato de amor, de luta e de transformação coletiva com muito aprendizado, pois ninguém faz nada sozinho(a). Ao lembrar que pediu exoneração entre um concurso e outro na educação do Estado para integrar o Conselho Tutelar da Lapa, onde aprendeu a empatia que carrega até hoje, Celina diz que se orgulha de ter sido chamada de ‘louca’ por trocar a estabilidade por um novo desafio. 

Celina também milita na Marcha Mundial das Mulheres e conta que a APP-Sindicato foi um divisor de águas em sua vida – Foto: APP-Sindicato / Arquivo

Quando começou a trabalhar como merendeira, Celina entendeu que aquele espaço era também um lugar de escuta e acolhimento. Com seu chimarrão nas mãos, o riso largo e a mesma fé no coletivo, recorda que no início dessa jornada, não foi fácil administrar as cobranças dos(as) colegas de profissão. “No começo, eu chorava muito. Tinha medo de não corresponder. Hoje, transformei o choro em resistência”, conta. 

Celina, ao lado da presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto, toma posse em 2023 no Conselho Estadual da Mulher – Foto: APP-Sindicato / Arquivo

Hoje, da cozinha à direção sindical, relata que a APP-Sindicato é um divisor de águas em sua vida. Sua militância vai além do sindicato. Hoje, ela atua na Marcha Mundial das Mulheres, na Marcha das Mulheres Negras do Paraná, no Conselho Estadual de Alimentação Escolar, no Conselho Municipal da Igualdade Racial (Compir) de Araucária. São espaços que, para ela, integram a mesma luta por dignidade, representação e políticas públicas que garantam, de forma plena, o direito à vida e à educação. “Educar é um ato de amor e de coragem. E é a educação que nos leva para aonde quisermos chegar”, diz. 

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