Comunidade surda celebra avanços em educação bilíngue e aponta desafios

Comunidade surda celebra avanços em educação bilíngue e aponta desafios

A Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou neste mês projeto que torna obrigatório o ensino de Libras em todas as etapas e modalidades da educação básica.

Setembro é tempo de celebração para os surdos brasileiros. O mês é dedicado à valorização dessa comunidade, com destaques para o Dia Internacional das Línguas de Sinais (23) e do Dia Nacional do Surdo (26).

Em meio a retrocessos em vários setores do País, os surdos têm o que comemorar. Há conquistas significativas, como a aprovação da educação bilíngue; e vários pequenos avanços, para quem olha atentamente.

As entrevistas para construir esse texto, por exemplo, foram feitas com tradução em Libras pelo tradutor Wagner Silva Machado, por meio do aplicativo Zoom.

Irene Mullerleily Stock e Danilo da Silva Knapik, professores de Libras da Unicentro e UFPR, respectivamente, concordam que o momento é positivo para a comunidade surda, principalmente pelos avanços na educação, com a Libras sendo reconhecida como a primeira língua na educação de surdos.

“Há muito a comemorar. As pessoas estão percebendo que os surdos têm seus direitos, inclusive linguísticos”, diz Irene. “Lembro das dificuldades, lá atrás, quando não aceitavam a Libras. Aos poucos foram percebendo a relevância. Os surdos estão mais unidos, parece que acordaram nos últimos anos, e conseguimos a aprovação de várias leis e mudanças na LDB, em que saímos da educação especial para a educação bilíngue”, completa.

Brasil tem 10,7 milhões de surdos

Segundo dados de IBGE, há 10,7 milhões de surdos(as) no Brasil, com variados graus de perda auditiva – 9% deles(as) nascem surdos(as) e a maioria perde a audição ao longo da vida.

Em 2002, a Lei 10.436 reconheceu que a Libras é uma forma de comunicação e expressão. O Decreto 5.626/2005 inseriu a Libras como disciplina obrigatória na formação de professores do nível médio e superior, e nos cursos de fonoaudiologia. Aprovada em 2015, a Lei 13.146, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, determina que os governos ofereçam educação bilíngue.

A Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou neste mês projeto que torna obrigatório o ensino de Libras em todas as etapas e modalidades da educação básica. O texto modifica a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, determinando que instituições públicas e privadas de ensino deverão oferecer o ensino em Libras para todos os estudantes surdos.

A educação bilíngue, com a Libras como primeira língua, é importante porque obrigar surdos a oralizar atrapalha o aprendizado deles. “Surdos aprendem melhor com a Língua de Sinais. Uma pesquisa mostrou que filhos surdos de pais surdos aprendiam melhor e evoluíam mais nos estudos que surdos filhos de pais ouvintes, pois desenvolveram melhor a comunicação em língua de sinais”, explica Danilo.

Conquistas impõem a necessidade de novos avanços. “A luta é constante, não acaba. Um desafio é obter apoio governamental para que realmente aconteça a educação bilíngue, valorizando a comunidade surda, com verbas que possibilitem que as legislações sejam efetivamente implementadas”, diz Danilo.

A formação de professores bilíngues é outro desafio do momento, aponta Irene. “O Governo deve valorizar os professores e a formação específica para ensinar a surdos”, afirma. “Precisamos de materiais específico para surdos cegos. Falta um laboratório para criação de tecnologias educativas. Outro desafio é termos concursos para estimular os(as) professores(as) a se aprimorarem, pois há 15 anos só se contratam PSS”, completa.

A iniciativa da APP de traduzir seus vídeos em Libras é saudada como inovadora e necessária por Danilo e Irene. “Em todos os espaços, é importante termos intérpretes para dar acesso às informações”, diz ela. “Estou de boca aberta com essa iniciativa da APP, muito importante para os professores surdos terem acesso à informação”, afirma ele.