A comunidade escolar do Colégio Estadual Dirce de Aguiar Maia, em Maringá, realizou na manhã desta sexta-feira (31) um protesto pedindo a destituição da direção escolhida pela Secretaria da Educação (Seed). O estabelecimento teve a gestão privatizada pelo governador Ratinho Jr. (PSD), mesmo sem a aprovação da comunidade, e ganhou as manchetes dos jornais nos últimos dias, após denúncia no Ministério Público (MP-PR) relatando que uma professora tentou tirar a própria vida dentro da unidade em decorrência de violência psicológica e assédio moral.
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A direção regional da APP-Sindicato, que já havia solicitado o afastamento da direção ao Núcleo Regional de Educação (NRE), acompanhou a manifestação. “As informações que a gente recebe é de que os pais têm muito medo de comentar sobre o que acontece na escola, e os professores também. Eles contam que são ameaçados a todo momento por qualquer coisa”, explica a presidenta do Núcleo Sindical da APP-Sindicato em Maringá, Maria Anunciata Albanez.
De acordo com as informações recebidas pela dirigente, se os(as) professores(as) falam alguma coisa que a direção não gosta, eles(as) dizem que são ameaçados(as) de demissão, pois a maioria dos(as) docentes são contratados(as) pela empresa escolhida pelo governo para fazer a administração do colégio. Anunciata menciona que as famílias que questionam ou pedem informações sobre o funcionamento da escola relatam a mesma situação. “Os pais dizem que têm receio de questionar porque têm medo que seus filhos sejam perseguidos”, relata.
Entenda o caso
“No dia 21 de outubro de 2025, uma professora do Colégio Estadual Dirce de Aguiar Maia foi encontrada no banheiro da instituição após tentar autoextermínio, cortando os pulsos. A docente foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAM) e encaminhada a uma unidade hospitalar”, diz um trecho da denúncia protocolada no Ministério Público. Ainda de acordo com o texto, a situação extrema estaria relacionada com um histórico de assédio moral e pressões psicológicas praticadas pela direção da escola.
O registro foi feito de forma anônima, mas afirma ter sido redigido por docentes da rede estadual com vínculo temporário (PSS) porque a maioria dos(as) professores(as) que atuam na instituição possuem contrato CLT e temem retaliações ou demissões caso se identifiquem como denunciantes.
Ao tomar conhecimento das denúncias, as diretorias Regional e Estadual da APP-Sindicato estiveram na escola para ouvir os relatos dos profissionais, fazer o acolhimento, e apurar informações sobre as condições de saúde da professora que precisou de atendimento médico. O sindicato fez uma reunião com a chefia do Núcleo Regional de Educação e formalizou pedido de destituição e afastamento da direção do colégio, além de outras providências.
O Colégio Estadual Dirce de Aguiar Maia, em Maringá, leva o nome da primeira professora e diretora a lecionar em solo maringaense. Mas esta homenagem está sendo destruída pelo governador Ratinho Jr., que privatizou a gestão do estabelecimento através do Programa Parceiro da Escola. O colégio foi submetido, em dezembro de 2024, à consulta da comunidade para decidir pela adesão ou não. As votações não atingiram o quórum mínimo de participantes estabelecido pela Seed, mas o secretário da Educação decidiu por ato próprio transferir a gestão da escola para empresários.
Retrocesso
O programa Parceiro da Escola transfere a gestão administrativa de escolas da rede estadual de ensino para empresas escolhidas pela Seed e permite até a contratação de professores(as) sem concurso público e vínculo com o Estado. Não há transparência ou fiscalização da sociedade sobre o uso dos recursos.
De acordo com os termos dos contratos, estima-se que enquanto o governo investe em torno de R$ 8 por estudante das escolas não privatizadas, paga para as empresas uma quantia até 100 vezes maior, R$ 800 por estudante. Essa discrepância evidência que o objetivo não é a melhoria da qualidade do ensino e a valorização dos(as) profissionais, mas a finalidade de promover lucro para as empresas.

Criado sem diálogo com os(as) educadores(as) e a sociedade, a votação do projeto de lei que instituiu o programa motivou uma greve organizada pela APP-Sindicato, que reuniu mais de 20 mil educadores(as) nas ruas de Curitiba, no mês de junho de 2024. Mesmo sob protestos, a maioria dos(as) deputados(as) aprovou a matéria em regime de urgência.
Nova ofensiva
Mesmo com a tramitação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 7684) no Supremo Tribunal Federal (STF), ajuizada pelo Partido dos Trabalhadores, contra a Lei 22.006/2024, que institui o programa, o governador Ratinho Jr. planeja uma nova ofensiva autoritária para tentar ampliar privatização de escolas no Paraná. De acordo com um documento que a APP-Sindicato teve acesso, o governo quer entregar para as empresas mais 97 escolas que, juntas, atendem 52 mil estudantes.
A iniciativa ocorre em meio a uma nova onda de denúncias envolvendo escolas em que o programa já foi implantado. Em Curitiba, no Colégio Estadual Maria Montessori, mães estão revoltadas com as mudanças na escola após a privatização. Ainda na capital, são recorrentes as queixas de estudantes e responsáveis dos alunos do Colégio Estadual Natália Reginato,decorrentes da falta de funcionários(as), qualidade da merenda e até de falta de limpeza das salas. Em Sarandi, um professor muito querido pelos alunos foi demitido sumariamente por apenas pedir explicações à empresa sobre a mudança no pagamento da hora-atividade.

Na avaliação da presidenta da APP-Sindicato, Walkiria Mazeto, o governador Ratinho Jr. não tem respeito pela democracia e usa de todo o poder que possui para tentar impor as suas vontades. Das 97 escolas ameaçadas de passar por nova consulta, em apenas 13 não houve quórum na votação realizada em 2024. Ou seja, das 97, 84 escolas votaram contra a adesão ao programa em 2024.
“O programa já foi rejeitado pela comunidade escolar, mas o governador insiste em sua forma autoritária de tentar impor o que ele quer, manipulando dados e a opinião pública. Queremos investimentos em todas as escolas, mas que elas continuem públicas e não submetidas aos interesses privados”, declara.
Das 177 escolas onde houve votação em 2024, apenas 11 disseram sim, mas o governo privatizou também escolas escolhidas de acordo com o interesse das empresas, incluindo no programa colégios onde o número de votantes não atingiu o quórum, chegando ao total de 82 unidades privatizadas em todo o estado.
“Vamos dialogar com as comunidades escolares que estão, novamente, sob ataque e demonstrar que por trás da propaganda do governador tem um monte de mentiras e manipulações e que o único objetivo governo é transferir para as empresas privadas o dinheiro que deveria ser aplicado para melhorar a infraestrutura de todas as escolas e valorizar professores e os funcionários que, hoje, recebem os menores salários do Estado”, afirma a presidenta.
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