“Como se destrói um sonho": escritora de Curitiba reúne relatos de estudantes de EJA abandonados(as) pelo Estado APP-Sindicato

“Como se destrói um sonho”: escritora de Curitiba reúne relatos de estudantes de EJA abandonados(as) pelo Estado

“O nome que se dá quando se deve decidir entre trabalhar e estudar é sobrevivência”.

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“Que arma teria uma escritora, senão contar histórias e trazer à luz pessoas tratadas como números? Aos que, pelos homens engravatados, são considerados gastos desnecessários. Pois bem, trago a notícia que não deveria ser surpresa: são pessoas!”.

Munida de uma caneta e da sensibilidade de escritora, a profissional de saúde Déa Aguiar reuniu, em um PDF de apenas 22 páginas, relatos comoventes de alunos(as) que encontraram na Educação de Jovens e Adultos um caminho para realizar seus sonhos. 

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São 10 relatos de desventura e superação de protagonistas que, hoje, veem suas próprias histórias ameaçadas pela caneta de Ratinho Jr. O governo do Paraná anunciou o fechamento da modalidade na escola Maria Montessori, onde Déa buscou inspiração e ação. O colégio está na mira do programa cívico-militar, que expulsa estudantes da EJA e do ensino noturno.

A autora encontrou no formato uma maneira de contribuir para a defesa do modelo e expressar sua indignação. 

“Meu marido foi estudante da EJA e sei a diferença que isso fez na vida dele. Conversar com os(as) alunos(as) do Maria Montessori foi uma experiência única, profunda e que me transformou. Gostaria que as pessoas entendessem a gravidade do que está acontecendo. São pessoas com rosto, história e sonhos. Não é justo com eles. Quando lemos as notícias, são estatísticas, meros números. Isso os desumaniza e eu não aceito que isso aconteça”.

Sonhos destruídos

Uma das histórias eternizadas por Déa é a do argentino José Alfredo. Filho de mãe brasileira, o cabeleireiro veio para o Brasil em 1984 e por dificuldades não conseguiu terminar os estudos. 

Por não ter finalizado os estudos, José contou a Déa que perdeu diversas oportunidades. Quando informado do fechamento de turmas da EJA, o argentino só expressou sua revolta.“Como podem fazer isso com a gente? Como podem nos tratar como números? Somos pessoas”.

Já a história de Stefani representa a realidade de mais de 11 milhões de mulheres (dado da Fundação Getúlio Vargas de 2023) que vivem a maternidade solo. Stefani, que engravidou aos dezessete, teve que abandonar os estudos após engravidar. 

Hoje, aos 27 anos, a estudante leva seus filhos todas as noites para assistir a aula e pretende cursar administração. “Quero algo melhor para a vida”, diz Stefani em trecho do livro.

“Não tenho dúvidas de que ela é capaz. No entanto, a realização deste sonho depende da continuidade da oferta da EJA. O esforço existe, nos mostrando a falácia da meritocracia – a faculdade, uma casa confortável, comida na mesa das crianças… tudo isso em risco por uma vil canetada”, comenta a escritora em trecho da história.

Quem é Déa?

Déa Aguiar é escritora e profissional da humanização em saúde. Autista, mãe atípica da Maria Luiza, da Sofia e Caio, a autora é filha de professora, que concluiu a graduação no dia em que a neta completava 1 ano de idade. 

Segundo a autora, herdou o dom da escrita de seu avô paterno, um baiano que fugiu de casa aos dez anos e nunca conseguiu estudar como gostaria. Porteiro no Ministério da Educação e Cultura, em Brasília, onde criou seis filhos(as), o avô de Déa escreveu crônicas para jornais da época.

A escritora acredita que a educação e a arte são ferramentas poderosas para combater abusos da ignorância. 

“Quero que saibam que vejam que suas histórias tem valor, que são importantes. É uma forma de empoderá-los e fortalecê-los. De alguma forma, pessoas que antes estavam à margem, invisibilizadas, hoje são eternas”, completa. 

Exclusão impulsiona o Ideb

O governo Ratinho Jr. já fechou 76,8 mil vagas de ensino noturno no estado, sendo 13 mil só nas 207 escolas que já foram militarizadas. Eliminando esses(as) estudantes, o índice de rendimento, um dos itens utilizados pelo MEC para calcular a nota do Ideb, passou de 0,82 em 2017 para 0,96 em 2021, destaca a reportagem.

Mas este foi o único avanço significativo observado nos indicadores, já que os dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que avaliam o aprendizado de Matemática e Língua Portuguesa, mostram que desde 2005 as escolas estaduais de Ensino Médio se mantiveram no mesmo patamar. 

Ou seja, ao invés de implementar políticas públicas para melhorar as condições de aprendizagem e de permanência dos estudantes trabalhadores(as), a gestão de Ratinho Jr. escolheu aprofundar um problema social em troca de indicadores manipulados para usar na propaganda oficial e que favorecem a imagem pessoal do governador.

Considerando o Censo Escolar 2022, a nova onda de militarização ameaça os sonhos de quase 8 mil estudantes do ensino noturno. 

Já na EJA, 2.277 matrículas estão sob a ameaça de serem fechadas. A APP teve acesso à base de dados, que reúne números do Censo Escolar das 127 escolas. Juntas, as unidades possuem mais de 90 mil matrículas. Desse total, mais de 6 mil alunos(as) têm 18 anos ou mais.

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