Como diz o bom velhinho: "Um bom conto é pico certeiro na veia" (Dalton Trevisan)*

Como diz o bom velhinho: “Um bom conto é pico certeiro na veia” (Dalton Trevisan)*

* Por Cláudia Gruber

Exposição Velho: Profissão Solidão, de Graça Craidy

O primeiro pico (conto) foi ainda na adolescência e depois disso, nunca mais parei. Já foram tantos, que perdi a conta!

Dalton é o tipo de escritor que leva o leitor aos extremos: ou ele o ama ou o odeia. Tamanha a carga dramática de seus textos. Muitos críticos dizem que ele se repete, que sempre escreve as mesmas histórias, que usa sempre os mesmos personagens, na sua  eterna Curitiba.

Mas, o que tem a ver a obra de Dalton Trevisan com o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a pessoa Idosa, comemorado dia 15 de junho?  Proximidade de datas?  Já que esse ano, o contista completa 97 anos em 14 de junho. 

Em 2014, Trevisan dava como “encerrada” sua carreira literária com O beijo na nuca.  Mas, quem diz que parou? Sabemos que há caderninhos circulando nas mãos de um grupo seleto de leitores com textos inéditos ou reescritos. Verdadeiras joias!  

Por isso, resolvemos revisitar suas obras e vemos que suas temáticas abordam as problemáticas que a sociedade busca ignorar, empurrar  pra debaixo do tapete: o machismo, a violência contra as mulheres, a pedofilia, a prostituição, o universo das drogas, do alcoolismo, do crime e também a velhice. 

Trevisan é um cronista de sua época. Retrata hábitos e costumes de praticamente sete décadas da sua Curitiba ficcional. Numa linguagem única e extremamente sintética, repleta de ironias e de um humor ácido e corrosivo, desfilam joões e marias em suas eternas guerras conjugais. Mas, engana-se quem pensa que esses personagens não envelhecem. 

Mesmo com um narrador frio e imparcial, muitas vezes irônico, que  põe à mostra todas as fragilidades e infelicidades criadas por tais relações afetivas ou pessoais, vemos que há uma pessoa extremamente atenta e sempre pronta a dar voz àqueles que não têm voz.   Uma vez que seus personagens são sempre os marginalizados, os pobres, os excluídos, os esquecidos, os violentados socialmente. 

Como dissemos, a velhice é um tema recorrente em seus livros e seus “velhos e velhas”  nos trazem situações grotescas, vexatórias, engraçadas, ácidas, irônicas e melancólicas que nos levam a refletir sobre o que é o envelhecer.  Vejamos alguns exemplos: 

  “A velhinha meio cega, trêmula e desdentada:

— Assim que ele morra eu começo a viver.” (2000);   

“Velho: uma caneca trincada de louça, o nome Saudade quase apagado.” (1997); 

“Chegue meu velho. Desculpe a boquinha torta.

Dente só uso fora de casa.” (1997); 

Tais situações mostram-nos o que a carga da idade acarreta às pessoas e o quanto se faz importante protegermos e cuidarmos de quem nos cuidou e nos protegeu. 

No Brasil, temos o Estatuto do Idoso (Lei 10.741, de 01/10/2003) que ampara pessoas acima de 60 anos, buscando lhe assegurar prioridade a direitos básicos que já estão garantidos na Constituição Federal.  

Isso fez-se necessário pois, ocorrem inúmeros abusos e violências das mais diversas aos nossos idosos.  Violências essas que vão desde o abandono, à negligência, passando para casos de violência psicológica, material e financeira; culminando com a violência física.

É inconcebível que uma sociedade trate seus idosos de tal maneira, privando-os de cuidados essenciais para quem tanto já trabalhou e contribuiu com ela. Por isso, o Dia 15 de junho, criado pela ONU,  serve como um dia de alerta para as sociedades refletirem sobre  tais abusos. Para que as gerações mais jovens parem e discutam como estão tratando seus idosos e como querem vir a ser tratadas quando envelhecerem, já que o tempo passa para todos, inclusive na ficção. 

*Cláudia Gruber é professora da rede estadual e Secretária Executiva de Comunicação da APP-Sindicato

 

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