Combate à violência contra escolas exige abordagens múltiplas e integradas e não polícia na porta

Combate à violência contra escolas exige abordagens múltiplas e integradas e não polícia na porta

Apenas repressão policial não vai resolver o problema, pois os ataques às escolas reproduzem a violência social

Colocar policiais na entrada não vai resolver o problema da violência contra as escolas. É o que demonstram estudos feitos nos EUA, onde os ataques às escolas são mais frequentes e intensos, assim como as medidas para combatê-los. Lá, especialistas apontam que há poucas evidências de que novas tecnologias de segurança e presença policial possam impedir ou mesmo diminuir ataques.

Embora alguns estudos sugiram que ter agentes armados na escola pode desencorajar brigas entre adolescentes, o impacto da medida sobre a ocorrência e a letalidade de massacres é discutível.

Pesquisa publicada em 2019 na revista científica Journal of Adolescent Health, que revisou 179 episódios de tiroteios em escolas americanas entre 1999 e 2018, concluiu que manter guardas armados na escola não impediu que os ataques acontecessem, nem reduziu o número de vítimas.

Outro estudo financiado pelo Instituto Nacional de Justiça dos EUA e publicado em 2021 mostrou que o número de mortes em escolas com guardas armados foi quase três vezes maior. Dois dos mais sangrentos ataques nos EUA aconteceram em escolas com policiais armados – foram 17 mortos no ataque em Parkland e dez no ataque em Santa Fe.

Especialistas apontam também que além de não resolver o problema da violência contra as escolas, a presença de agentes armados elevaria o número de faltas dos estudantes, especialmente entre alunos das camadas mais vulneráveis da população.

Ação integrada

Mais que repressão, a solução do problema exige abordagens múltiplas e integradas, com a participação dos governos e de profissionais da educação, saúde e assistência social. “Não é simples. Não adianta colocar um policial fardado na porta da escola. Não dá para jogar na polícia essa responsabilidade”, afirma Vanda Santana, secretária Educacional da APP.

Vanda analisa que a sociedade cria comportamentos violentos por meio da concorrência e da disputa. Esses mecanismos se reproduzem nas escolas, que por sua vez podem mostrar que é possível conviver com respeito, cooperação e solidariedade.

“Para que a escola seja efetivamente humanizada e humanizadora, com qualidade social, é necessário ter organização do tempo e do currículo para promover respeito mútuo entre os alunos, aprendendo e ensinando a conviver, trocando experiências e adquirindo saberes da vida”, afirma Vanda.

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor, já nos ensinou Paulo Freire. A frase explica em parte a violência contra as escolas, que exige uma reflexão coletiva.

Referências

Parte dessa reflexão deve considerar o que acontece nos EUA. Desde o massacre na Columbine High School, em 1999, houve 377 ataques desse tipo naquele país. E o problema vem aumentando – 2022 teve o maior número de ataques, com 47 casos. Isso mostra que lá a violência contra as escolas segue em alta, apesar de investimentos bilionários para contê-los.

Depois de uma mínima histórica em 2020, devido ao fechamento das escolas, os ataques voltaram em um novo patamar nos EUA em 2021, com o registro de 42 casos. Como lá, o isolamento social, o uso intensivo de redes sociais e a perda do contato físico com os colegas também aconteceu no Brasil e pode ser outro elemento a explicar o salto nos ataques.

No ano passado, o Congresso dos EUA aprovou um pacote de US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) para ajudar as escolas a se equiparem contra violência armada, mas câmeras, interfones e detectores de metais se mostraram incapazes de resolver o problema.

Em 2016, a Johns Hopkins University concluiu que há pouca evidência de que novas tecnologias de segurança possam impedir ou diminuir ataques. O mesmo se dá com o aumento do policiamento nas escolas.

Propostas

Se a presença armada não resolve a violência contra as escolas, outras medidas adotadas nos EUA tiveram efeitos positivos e podem funcionar também no Brasil. Uma delas é criar canais para denúncias por estudantes. Estima-se que em 80% dos ataques alguém na escola conhecia os planos de ataque e poderia denunciar antecipadamente.

A criação dos canais de denúncia dever ser acompanhada pela formação de equipes de avaliação de ameaças, que são grupos escolares multidisciplinares responsáveis por verificar as suspeitas e ajudar o estudante com comportamento potencialmente violento antes que qualquer ato aconteça.

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