No artigo, a autora Cláudia Gruber evidencia que o valor simbólico dessas datas vai além da pausa no trabalho: elas ajudam a sociedade a reconhecer suas raízes, memórias e identidades.
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Cláudia também aponta que, embora haja avanços na literatura e na legislação que prevê o estudo da cultura afro-brasileira nas escolas, ainda existe um longo caminho para consolidar uma educação verdadeiramente comprometida com a igualdade racial.
Convidamos você a conhecer o artigo completo da professora da rede estadual de ensino e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Confira:
Todos os Dias Deveriam ser 20 de Novembro
Novembro é agora o mês com mais feriados no calendário. Temos o Dia de Finados (02), a Proclamação da República (15) e o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (20). O primeiro, um feriado religioso, o segundo, um feriado cívico e o último, uma reparação histórica. Além dos feriados nacionais, também temos os estaduais e municipais e pontos facultativos, sendo o Carnaval um deles.
Na maioria das vezes, quando se tem um feriado no país, não se pensa muito no motivo para que o mesmo exista. Bastou ser feriado, é o que importa. As polarizações são sempre as mesmas: de um lado, há críticas pelo fechamento de comércios e serviços e de outro quem celebra seus lucros. Independente do que se celebra, a visão mercadológica prevalece e os números pipocam, ainda mais quando há feriados prolongados.
Consultorias como a Mercer Mellt analisam dados financeiros e cravam que a quantidade de feriados revela a produtividade de um país e dentro dessa lógica, quanto menos feriados houver, mais lucros o país terá. Será?
O senso comum critica o número de feriados no Brasil e o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra foi e continua sendo alvo de polêmicas. No Brasil, hoje, são 12 feriados, já nos vizinhos como Colômbia (18), Chile (15) e Argentina (15), o número é maior. É necessário entender aqui que feriado não é apenas uma pausa no trabalho, mas sim, uma data que carrega significados para a comunidade.
Dos feriados religiosos passando pelos feriados cívicos, ambos carregam sentimentos de pertencimento e fortalecimento da cultura do país. Rituais e simbologias são resgatados, realimentados e repassados de geração em geração. Com o 20 de novembro não poderia ser diferente. Quando da primeira celebração desta data enquanto feriado, no 20 de novembro de 20024, a fala da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, trouxe-nos a necessidade de discutirmos com mais afinco ainda nossa identidade racial: “Celebrar a consciência negra é lembrar quem somos, de onde viemos e o que significa sermos um país de maioria negra, respeitando e promovendo a diversidade e a valorização de todos os brasileiros e brasileiras.” (grifos nossos).
Mesmo sendo um país de maioria negra, a lógica da branquitude sempre se fez presente em nossa história e criou estereótipos da negritude que perpassam em nossa cultura e foram naturalizados com o passar dos tempos.
Como não podia ser diferente, fizemos um breve passeio em nossa literatura e para entender essa configuração precisamos voltar lá no Romantismo (1836-1881) que é, de fato, a escola literária que unifica a literatura no Brasil pois traz elementos e características que buscam criar uma identidade nacional para o novo país. Havia nele uma visão idealizada de diversos temas e nenhum tipo de crítica social no que se produzia, já que sua função principal foi traçar um panorama de época e costumes que trouxesse elementos para corroborar a identidade nacional que estava sendo forjada. Dentre suas principais características estavam o nacionalismo, com a valorização da cultura local, da natureza e do país; a idealização da mulher, do amor, a figura do herói, o sentimentalismo e a subjetividade.
Há nos personagens românticos um embranquecimento quase obrigatório, sobretudo dos protagonistas, inclusive na vertente indianista, explorada por José de Alencar. Seu indianismo trouxe ao leitor os povos originários com nuances europeias, apresentou-os pelo viés do mito do “bom selvagem” de Rousseau e os colocou, em muitas situações, quase sempre em condições de igualdade com os brancos, como se todos convivessem na mais pura harmonia pois, havia a necessidade de se criar um herói genuinamente nacional e figuras como Peri e Ubirajara cumpriram essa tarefa. Já a figura feminina, sempre é bela, frágil, gentil, educada, como Iracema, a virgem dos lábios de mel que, mesmo não sendo “branca”, tem o comportamento de uma dama.
Há tamanha branquitude nas personagens que até a protagonista de A Escrava Isaura (Bernardo Guimarães), era uma escrava “branca”:
A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não saberíeis dizer se e leve palidez ou cor de rosa desmaiada. O collo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça ineffavel o busto maravilhoso. Os cabellos soltos e fortemente ondulados se despenhão caracolando pelos hombros em espessos e luzidíQS rolos, e^ como franjas negras escondião quasi completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. (GUIMARÃES, p. 10, 1875, grifos nossos)
Já no Naturalismo, personagens negros passam a ser mais frequentes porém, na maioria das vezes, a forma se mostra, num primeiro momento, negativa. Aluísio de Azevedo, mesmo sendo um abolicionista e tendo criticado a escravidão no Brasil, explorou em seus personagens questões controversas como a hipersexualidade e a lascívia de Rita Baiana em O cortiço. Ou então os personagens negros não são dignos de finais felizes como Raimundo, em O mulato. No Pré-Modernismo, ora aparecem de forma infantilizada, ora de forma incapacitante ou então submissa, com a função de servir aos Ioiôs e Iaiás, como é o caso da personagem de Tia Nastácia na série do Sítio do Picapau Amarelo. Por mais que Monteiro Lobato tenha tentado colocar na voz da personagem os conhecimentos e histórias populares e lhe dar a maternidade de Emília, ainda assim ela não passa de uma serviçal (ótima cozinheira) e, muitas vezes, é retratada de maneira estereotipada pelo próprio autor. Tal qual foi feito com seu caboclo Jeca Tatu, em Urupês (1914), onde a intenção era fazer uma crítica social aos problemas dos homens do campo mas, ele descreve um personagem indolente, doente e preguiçoso.
Poderíamos continuar puxando este fio, passando pelo Modernismo e suas fases até chegarmos à literatura contemporânea, onde já teremos além de personagens negros, também escritores negros como Jeferson Tenório (O avesso da pele) e a icônica Carolina Maria de Jesus (Quarto de despejo: Diário de uma favelada).
O caminho para chegarmos a esses autores é longo, mas poderia ser cheio de reflexões feitas cotidianamente nas nossas escolas porém, que acabam relegadas somente à data do 20 de Novembro, sendo que o racismo é diário e constante no espaço que deveria ser igualitário e acolhedor porém, para alguns, pode se transformar em espaço de dor e sofrimento.
Era tão bom quando os professores tinham autonomia em parar suas aulas e conversar com seus alunos quando algum caso de racismo ou outra forma de preconceito surgia no ambiente escolar, sem que essa conversa fosse vista como doutrinação. Agora, a escola só se preocupa com metas e plataformas. Mesmo havendo legislação que prevê a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e também indígena em todas as escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio (Lei nº 10.639/2003), não é isso que acontece nas disciplinas de Artes, Literatura e História de forma sistemática.
É óbvio que apenas conversas pontuais em sala de aula não irão resolver problemas relacionados a racismo ou outros tipos de preconceito no ambiente escolar, mas elas se fazem necessárias para que sejam pensadas e feitas aulas com uma abordagem mais ampla e consistente sobre tais temáticas. Tais conversas podem servir como um ponto de partida para o debate e também podem aprofundar essa discussão, levando nossos jovens e crianças a terem uma visão mais crítica e humanitária das relações sociais e que também tenham o entendimento de como se estrutura nossa sociedade, podendo assim combater efetivamente o racismo e outros tipos de preconceito.
Há muitas possibilidades de iniciarmos um bom debate em sala de aula. Desde as situações que ocorrem no próprio ambiente escolar até quando realizamos a análise de uma piada ou comentário carregado de preconceitos. Quando nos questionamos porque a TV e/ou a mídia carregam de sensualidade as mulheres negras ou quando lhes atribuem papéis de empregas domésticas, babás, cozinheiras, faxineiras. Ou ainda: quando os bandidos ou moradores em situação de rua são negros. A literatura, o cinema, a teledramaturgia podem ser fontes inesgotáveis de possibilidades de trabalho. Exemplos não nos faltam para esse debate. Mas, é preciso querer fazer esse debate.
Aqui, mais do que nunca, a frase de Angela Davis faz sentido: “Numa sociedade racista, não basta ser não-racista; é necessário ser antirracista.”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: GUIMARÃES, Bernardo. A Escrava Isaura. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1875. CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos 1750-1880. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2009.











