Neste 23 de abril, as tradições se entrelaçam em uma celebração que une fé e literatura. O artigo da secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora Cláudia Gruber, resgata a trajetória de São Jorge, o santo guerreiro que se tornou símbolo de resistência e, no sincretismo brasileiro, personifica a força de Ogum. A data, marcada pela lenda da rosa que brota do sangue do dragão, é hoje o Dia Internacional do Livro, conectando a coragem do soldado à imortalidade de gênios como Shakespeare e Cervantes.
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A autora traça um paralelo potente entre o santo e outro Jorge fundamental para nossa identidade: Jorge Amado. Assim como o guerreiro da Capadócia, o escritor baiano enfrentou perseguições e censura por dar voz aos(às) marginalizados(as).
O texto nos convoca a refletir sobre o papel da leitura na denúncia das desigualdades e na construção de um pensamento crítico e emancipador. Confira a íntegra:
Artigo: Salve, Jorges!
Era uma vez um nobre romano que se tornou soldado e também cristão. Para a época, uma contradição, já que os romanos não eram cristãos e, por esse motivo, Jorge da Capadócia foi preso, torturado e decapitado em 23 de abril de 303 d.C. em Anatólia por ter sido contrário à perseguição feita pelo Imperador Diocleciano aos cristãos daquela época.
A fé inabalável desse jovem espalhou-se rapidamente. Lendas surgiram e assim nascia São Jorge, o santo guerreiro. Santo este que se tornou padroeiro de diversos países como Inglaterra, Portugal, Rússia, Etiópia, Sérvia, Montenegro, Geórgia, Lituânia… e da Catalunha, região autônoma na Espanha. No nosso sincretismo religioso, é Ogum, o orixá do ferro, da tecnologia e da guerra.
A lenda mais conhecida envolvendo Jorge conta que, numa das andanças do soldado, ele se deparou com uma situação muito cruel: uma princesa seria sacrificada para apaziguar a ira de um feroz dragão que vivia aterrorizando uma região da Líbia. Jorge teria feito o sinal da cruz e matou a fera com sua lança. No sangue derramado do dragão, brotou uma roseira e as rosas vindas dela foram ofertadas à princesa.
Há variantes dessa lenda durante a Idade Média e, numa delas, o palco dessa batalha entre Jorge e o dragão é a região de Tarragona, na Catalunha. A devoção a Jorge aumentava de forma fervorosa e no ano de 1456, ele tornou-se oficialmente o Santo Padroeiro da Catalunha. A partir disso, todos os dias 23 de abril, as cidades catalãs enchem-se de rosas e há trocas de flores e também de livros entre as pessoas, pois, na mesma data convencionou-se comemorar o Dia dos Namorados. Pela tradição, homens davam rosas e recebiam livros e mulheres, vice-versa, mas atualmente, não há mais essa distinção.
Essa homenagem específica ao Santo Padroeiro perdurou até 1926, quando começou a ser comemorado também o Dia do Livro, já que 23 de abril marca, coincidentemente, a morte de três grandes escritores: William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Vega, todas em 1616. Assim, misturam-se as datas, com as rosas simbolizando amor e os livros, a cultura.
A data, mesmo não sendo um feriado nacional, cria então um ambiente festivo em toda a região, com barraquinhas vendendo livros e rosas, extrapolando fronteiras e atraindo milhares de pessoas. Por causa dessa tradição, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) instituiu, em 1995, o Dia Internacional do Livro e do Direito de Autor.
Para ampliar a comemoração da data, em 2001, a Unesco declarou Madri como a Capital Mundial do Livro naquele ano. As festividades foram tamanhas que, a partir de 2001, o título começou a ser volante, passando por cidades que se destacaram por projetos de incentivo à leitura. O título fica por um ano com a cidade escolhida. Agora, a partir do dia 23, a capital será Rabat no Marrocos. Quem passará o título para ela será o Rio de Janeiro, a primeira cidade de língua portuguesa que recebeu tal honraria. Esse título foi concedido à cidade carioca pela criação das Bibliotecas do Amanhã, espaços de leitura modernos e interativos espalhados pelos bairros da cidade, e também por seu gigantesco patrimônio literário e cultural.
Patrimônio este que conta com a Biblioteca Nacional, fundada em 1810 por Dom João VI com um acervo de 60 mil obras trazidas pela Família Real em 1808 e que hoje conta com mais de 10 milhões de itens, dentre eles a primeira edição de Os Lusíadas, de Camões (1572). É considerada a maior biblioteca da América Latina e a oitava do mundo, segundo a Unesco. E, é nas prateleiras dessa mesma biblioteca que estão exemplares raros e também manuscritos de Jorge.
O Jorge agora é outro. É o Amado pois, falar de livros é falar dele. Jorge e os livros estão intrinsecamente ligados. Sua fartura literária é algo excepcional e, como o santo guerreiro, também passou por martírios. Baiano, nascido em 1912, sempre foi um espírito livre, dedicando-se à literatura desde a adolescência.
Em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a conviver com grupos revolucionários, lembrando que o contexto histórico da época é o da Revolução de 1930. Seu primeiro livro, O país do Carnaval, escrito em 1932, trazia a frustração de um intelectual barsileiro, com formação europeia, em participar da vida política do país. Começam aqui, suas críticas políticas e sociais, despertando a atenção da censura da época. Cacau (1933), o segundo livro, teve exemplares apreendidos e depois liberados com a ajuda de Graça Aranha.
Preso junto com Graciliano Ramos, em 1936, foi solto meses depois sem acusações formais. Era o início da sua perseguição política. No ano seguinte, Capitães de Areia, obra que retrata a vida de menores de rua, teve 808 exemplares queimados em praça pública em Salvador e outros mais apreendidos pelo governo do Estado Novo. A obra era acusada de subversão e comunista, sendo Jorge preso novamente.
Solto, resolveu viver na Argentina, onde ficou até 1945, com a queda do Estado Novo. Foi eleito deputado federal de São Paulo, pelo Partido Comunista mas, teve seu mandato cassado em 1948. Vai embora para mais longe, indo viver na Europa, evitando ser preso pela terceira vez. Lá, conheceu e fez amizades com intelectuais e artistas como Jean Paul Sartre, Federico Fellini, Simone de Beauvoir, Pablo Picasso, dentre outros.
Jorge e Zélia, sua esposa, viveram na Europa por quatro anos. Ao voltar para o Brasil, em 1952, desligou-se da vida política e teve uma vida literária intensa a partir de então. Surgem os clássicos que trazem a força e a voz feminina: Gabriela Cravo e Canela (1958), Dona Flor e seus dois maridos (1966), Teresa Batista Cansada de Guerra (1972) e Tieta do Agreste (1977). Foram 49 livros ao longo de sua carreira. Obras diversificadas que vão de romances, contos, novelas a biografias e memórias, passando também pela literatura infantil. Em todas elas, há sempre um cunho social e uma visão de mundo que clama por justiça e igualdade.
Assim como o Santo Guerreiro, Jorge sempre esteve ao lado dos necessitados, dando-lhes voz. Foi o que ele fez em Capitães de Areia (1937), ao retratar a vida de menores de rua em Salvador. A obra escandalizou a sociedade da época, ao desvelar mazelas sociais que o governo tentava esconder. Não há como o leitor não se emocionar com as histórias dessas crianças, em especial de Pedro Bala e Dora pois, começamos a observar o mundo através dos olhos deles. Jorge coloca-nos em contato direto com um universo distinto e cheio de mistérios e armadilhas, deixando-nos apaixonados por esses meninos e fazendo com que nos questionemos a respeito das muitas desigualdades sociais que eles vivem. Ora são seres livres e corajosos, ora frágeis e desamparados, num cotidiano repleto de vulnerabilidades que perdura até os dias de hoje.
Dora é a única menina dentre os capitães de areia e, no início, era vista como um objeto de cobiça, um troféu, causando brigas entre os meninos, mas aos poucos, ela passa a ser aceita e se torna uma deles, cuidando e os acolhendo como uma mãe o faria. Mas, essa presença acolhedora dura pouco e vai lhes mostrar como a vida pode ser ainda cruel quando encontra com seu oposto, a morte.
Após a perda de Dora, o grupo começa a se desintegrar, os meninos vão tomando outros rumos. Um deles vai até fazer parte do bando de Lampião. Já Pedro Bala, inspirado pelas lutas do pai, transforma-se numa liderança sindical revolucionária. Talvez tenha sido esse o principal motivo da perseguição à obra quando de sua publicação.
Lá fora é a liberdade e o sol. A cadeia, os presos na cadeia, a surra ensinaram a Pedro Bala que a liberdade é o bem maior do mundo. Agora sabe que não foi apenas para que sua história fosse contada no cais, no Mercado, na Porta do Mar, que seu pai morrera pela liberdade. A liberdade é como o sol. É o bem maior do mundo. (Amado, 2008, p. 203, grifos nossos)
Fica a sugestão de leitura para este 23 de abril.
Salve, Jorges!
Artigo de Cláudia Gruber, mestra em Estudos Literários pela UFPR, professora aposentada do Curitiba Sul e secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato.
Referência Bibliográfica: AMADO, Jorge. Capitães de Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.



















