Artigo: Já sei que a Odete Roitman não morreu, mas quem matou Edward Ratchett? Você sabe?

Artigo: Já sei que a Odete Roitman não morreu, mas quem matou Edward Ratchett? Você sabe?

Texto da dirigente da APP-Sindicato, Cláudia Gruber, celebra o Dia Nacional do Livro, e entrelaça enredos da dramaturgia e da literatura à escassez do hábito da leitura

Foto: Gerada por IA

O mistério das novelas se espelha nos enredos dos livros neste 29 de outubro, Dia Nacional do Livro. Da chegada da Família Real e a fundação da Biblioteca Nacional à realidade das escolas públicas do Paraná, Cláudia Gruber reflete sobre como o excesso de plataformas digitais tem afastado leitores(as) do livro impresso e os(as) aproximando do dinamismo das telas.

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A professora Cláudia, secretária Executiva de Comunicação da APP-Sindicato, convida seus(suas) leitores(as) a redescobrir o prazer da leitura, um hábito que nasce na infância e deve ser cultivado na escola e pelas famílias, e que continua a nos envolver em cada novo enredo.

Já sei que a Odete Roitman não morreu, mas quem matou Edward Ratchett? Você sabe?

Você sabia que quando a Família Real chegou no Brasil, em 1808, trouxe consigo, em torno de, 60 mil livros, além de mapas e manuscritos? Esse acervo serviu como base para a criação da Biblioteca Real, inaugurada no dia 29 de outubro de 1810. Data esta que se tornou o Dia Nacional do Livro, numa colônia onde, provavelmente, mais de 90% das pessoas eram analfabetas. Informação essa que só foi possível termos conhecimento (limitado) mais de seis décadas depois, com o primeiro censo. 

O primeiro censo que  houve no Brasil data de 1872 e, na época, registrou-se uma população de 9.930.478 habitantes. Destes, 82% eram analfabetos, oriundos das camadas mais pobres e periféricas da sociedade, que incluiam negros, pardos e “caboclos”. A recém criada Diretoria Geral de Estatística (DGE) apresentou os primeiros dados do novo país, dividindo a população de acordo com sexo, cor da pele, estado civil, nacionalidade, religião e o estado de livres e escravos, considerando como analfabetos aqueles totalmente incapazes de ler e escrever. Aqui, devemos levar em consideração que escolas e acesso a materiais impressos eram exclusividade da elite, onde basicamente os homens brancos eram os principais beneficiados pois, senhoras e mocinhas eram relegadas aos afazeres domésticos, às prendas do lar, não interessando ou importando que tivessem algum nível de escolaridade. 

De lá para cá, muitas coisas mudaram, inclusive a forma com que se estuda o perfil do povo brasileiro. Mas, há dados que continuam muito aquém do ideal, sobretudo no que diz respeito ao hábito da leitura pelos brasileiros. 

Numa sociedade multifacetada e repleta de estímulos criados pelas redes sociais,  surge um acentuado desinteresse pelo hábito da leitura de livros impressos. Alegações como falta de tempo, preço do produto ou preferência por realizar outras atividades servem apenas como subterfúgio para justificar tal  comportamento que vai muito além do desinteresse. Ler é uma tarefa que exige esforços, exige conhecimento, paciência e concentração para que o cérebro possa assimilar as mais diferentes informações que chegam ao leitor. Ler também exige um repertório mínimo de conhecimentos que possam fazer com que a leitura seja profícua e também crie emoções distintas.     

A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura, realizada  pelo Instituto Pró-Livro em 2024, tem como objetivo central: “conhecer o comportamento do leitor medindo intensidade, forma, limitações, motivação, representações e as condições de leitura e de acesso ao livro – impresso e digital – pela população brasileira na atualidade”.  Ela traz dados detalhados como perfil do leitor, quantidade de obras lidas, hábitos e gostos de leitura. 

Ao analisarmos tal pesquisa, algumas questões nos chamaram a atenção diante dos dados apresentados, sendo a primeira delas a redução do número de leitores em um período de quatro anos: 6,7 milhões. O principal fato apontado para essa diminuição é a falta de tempo (33% dos entrevistados) porém, não gostar de ler aparece logo na sequência (32%) e isso é extremamente  preocupante.

Desenvolver hábitos de leitura é algo que deveria ocorrer logo na primeira infância e se aprofundar na escola, mas outros hábitos concorrem com a formação do leitor e a internet vem, a cada dia mais, ocupando um lugar de relevância na vida cotidiana. Para muitas pessoas, independente da idade, é muito mais atrativo e interativo navegar nas redes sociais como forma de entretenimento e até mesmo buscar por conhecimentos. 

A pesquisa considera como leitor: “aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos últimos três meses” e apenas 27% das pessoas entrevistadas leram mais de uma obra completa nos três meses anteriores à pesquisa. Outra pesquisa (Average books read per year by country 2025)  listou os países com mais horas de leitura em 2024. Os que mais leram, pela ordem: Estados Unidos (375 horas), Índia (352 horas), Reino Unido (343 horas) e França (305 horas). Já o Brasil teve uma média de 125 horas, abaixo dos vizinhos Colômbia (147) e Chile (144). 

Vincent Jouve analisa que: “Ler, de certa forma, é reencontrar as crenças e, portanto, as sensações da infância.” (2002, p.117) Por esse motivo, caberia à escola um papel fundamental no enamoramento das crianças pelos livros e sua formação como leitores, estando o professor como o centro desse processo. Crianças que lêem se transmutam, tornam-se o Pequeno Polegar, o lobo mau, a bruxa, a fada ou o gigante, sentem que existe dentro de um livro um mundo aberto a aventuras e explorações. Elas também vão aprendendo que existem vazios, que há uma quantidade de sentimentos não tão nobres mas que, como humanos que somos, vamos sentir. A leitura é também um ritual de passagem pois, em uma obra podemos ler várias coisas ao mesmo tempo, aprendendo com elas. 

Ler para seus alunos, ler com seus alunos deveriam ser atividades relevantes para todos os professores, independente da disciplina. Mas, que tempo sobra para a leitura quando se tem Redação PR, Inglês PR, Desafio PR, Matific, Robótica PR,… para serem trabalhados em sala de aula? Ah! Mas, tem o Leia PR! Lá, há ótimas sugestões de leitura, se houver uma internet decente, é claro! Seria uma ferramenta bem interessante se não fosse a obrigatoriedade que se impõe à leitura, com metas a serem cumpridas; fazendo do que seria um processo de enriquecimento de conhecimentos num processo meramente mecânico pois, o que de fato interessa é um Power BI todo verdinho e não um livro realmente lido. 

Você sabe o que acontece quando se lê um livro? Além de desencadear todo um processo neurofisiológico, já que há o funcionamento do aparelho visual e de diferentes funções cerebrais; o leitor passa por experiências de libertação, preenchimento, renovação, fascínio e perturbação. Realiza viagens no tempo e no espaço, conhece novas “pessoas” sem precisar sair do lugar pois, “O charme da leitura provém em grande parte das emoções que ela suscita. Se a recepção do texto recorre às capacidades reflexivas do leitor, influi igualmente – talvez, sobretudo – sobre sua afetividade.” (JOUVE, 2002, p. 19)

Uma leitura só terá sentido se houver o encontro do livro com o leitor. Tal encontro pode ser acidental mas, também pode ser instigado, provocado por alguém. Diz a pesquisa Retratos da Leitura que mais de 20% dos leitores tiveram indicações de leitura feita pelos professores, reafirmando assim a importância de se estreitarem tais laços em sala de aula. 

Chamou-nos também a atenção, o fato de que, mesmo vivendo numa era digital, os audiolivros ainda são pouco consumidos – apenas 23% dos entrevistados já ouviu um. Já os e-books foram lidos por 62% das pessoas mas, destes, 68% confessam que há uma interrupção muito grande da leitura para consultarem mensagens no celular ou verem algum outro conteúdo na internet. A tentação é mais forte e tais “paradinhas” interrompem o ritmo de leitura e dificultam a concentração. 

Já com o livro impresso o tempo de leitura aumenta e as distrações diminuem. Além disso, quando se lê um livro impresso, há uma facilidade maior em se imaginar melhor os espaços e personagens a partir da sua descrição, o que possibilita um vínculo maior com a obra.  

Certos livros como A saga Harry Potter (J.K. Rowling), O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry) ou O Alquimista (Paulo Coelho) acabaram caindo no gosto popular e seguem até hoje liderando as listas dos mais lidos, porém ainda é a Bíblia Sagrada a obra mais citada pelos entrevistados. Num país que é viciado em telenovelas, independente do gênero lido, o importante é que se leia. 

É inegável que o brasileiro curte telenovelas e para os livros, é difícil competir com elas. Há algo muito maior que a magia de um bom enredo, de bons atores atuando e isso faz até mesmo com que um país chegue a parar para descobrir quem matou Odete Roitman (os vilões são sempre tão mais cativantes, não é mesmo?). Poderíamos aqui iniciar uma nova análise sobre a teledramaturgia e sua importância para a formação de determinadas identidades culturais brasileiras. Esse é um assunto que rende um bom debate sociológico e antropológico. 

Mas, estamos falando de livros, de como surgiu o Dia do Livro no Brasil e também sobre a importância da leitura, por isso, voltemos a eles. Em alguns livros temos assassinatos tão ou mais intrigantes que o de Odete. Só para aguçar a curiosidade de quem gosta de um bom mistério,  há dois livros que nos provocam do começo ao final, tornando-nos verdadeiros detetives. Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie, e O nome da Rosa, de Umberto Eco, são clássicos do mistério que nos envolvem em tramas mirabolantes e nos surpreendem com seus desfechos. 

O primeiro é um clássico do gênero policial e tem como protagonista o inigualável Hercule Poirot, detetive belga que usa apenas sua massa cinzenta para solucionar os mais intrincados mistérios e assassinatos que, via de regra, seguem uma mesma sequência de ações. Aqui, seu desafio será descobrir quem matou o temido Edward Ratchet. Linguagem leve e acessível, traz sempre cenários exóticos ou tradicionais. Já O nome da Rosa além das peripécias detetivescas  do monge Guilherme Baskerville com seu fiel escudeiro Adso, temos também verdadeiras aulas de História e Filosofia, no estilo Eco. Ambientado numa abadia medieval italiana, não temos apenas um assassinato, mas sete. 

Estes são aqueles livros que nos fisgam logo no começo e é difícil parar a leitura até descobrirmos quem está por trás do(s) assassinato(s). Ao lermos, vamos elaborando teorias, elencando suspeitos, dando álibis para aqueles personagens que nos cativam e, quando temos tramas tão bem amarradas e articuladas como a destes dois livros, as surpresas finais não poderiam ser melhores. Por isso, seria interessante dar um tempo e  desgrudar das telinhas, abrir um livro e ler mais, explorar universos cheios de emoções,  mistérios e aventuras? Fica a dica!

Ah! Agora, já sei que Odete Roitman não morreu mas, quem matou Edward Ratchett? Você sabe? Que tal descobrir? 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

JOUVE, Vincent. A leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2002. 

Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 

Average Books Read Per Year by Country 2025 

DICAS DE LEITURA:

CHRISTIE, Agatha. Assassinato no expresso do oriente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 

ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 

Texto de Cláudia Gruber, secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, professora de Língua Portuguesa e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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