O artigo de Luiz Fernando Rodrigues — à época secretário de Comunicação da APP-Sindicato — resgata os bastidores da mobilização dos educadores(as) em abril de 2015. O relato detalha a organização da categoria diante do movimento que culminou na manifestação histórica e na repressão deflagrada pela gestão do então governador Beto Richa.
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Em seu depoimento, o funcionário de escola enfatiza a resiliência dos(as) trabalhadores(as), que enfrentaram severas adversidades para resistir ao “Pacotaço”, conjunto de medidas que previa retrocessos à previdência e cortes em investimentos. O texto funciona como um prólogo à memória institucional e política, reforçando a necessidade de preservar o legado dessa data para que a determinação em defesa dos direitos conquistados permaneça viva.
Confira o artigo na íntegra:
Curitiba, 29 de abril de 2015… um relato esquecido.
11 anos do massacre!
11 anos de massacre!
Jamais esquecerei aquela noite de 28 para 29 de abril de 2015. Por volta de meia-noite deixamos o acampamento para retornar no dia seguinte pela manhã. Dois caminhões pequenos de som estavam estacionados em frente a Alep para ajudar na organização da multidão que esperávamos para aquela manifestação.
Cheguei em casa, tomei um banho, mandei mensagens para a imprensa com informações do dia. Logo após deitar, recebo ligação de pessoas do acampamento pedindo socorro. Os policiais estavam arrastando as pessoas pela rua para retirar os nossos caminhões de som. Liguei para algumas pessoas da imprensa e retornei ao Centro Cívico. Nádia e eu tentávamos acalmar as pessoas e, ao mesmo tempo, pensar como iríamos organizar a multidão no dia seguinte sem um carro de som. Decidimos pedir outro caminhão.
Já era madrugada de 29 de abril e avisamos o pessoal que estacionasse o caminhão há algumas quadras dali. Subi até lá e pedi para ligar o som. Caso a polícia tentasse impedir a chegada eu começaria a gritar no microfone. Numa manobra arriscada com um trio elétrico gigante, o motorista conseguiu furar o bloqueio e estacionar ao lado da praça. Correria dos policiais que logo chegaram e deram voz de prisão para o motorista e técnicos de som. Após muita briga e negociação, combinamos que o caminhão sairia dali. Foi escoltado até a saída da cidade para terem certeza de que não voltaria.
Decidimos então mudar a mobilização para a praça do Homem Nu, com outro carro de som. Por volta das 11h, quando a caminhada chegou até a praça, novamente a polícia fez bloqueio e tentou impedir a nossa chegada. O clima já era tenso e foi ficando pior. A frente do caminhão pessoas simplesmente se juntaram, levantaram as viaturas da PM e as tiraram do caminho. Em cima do caminhão de som, apontei o caminho e pedi ao motorista que avançasse. Bombas de gás choveram. Depois de intervenção de deputados, conseguimos convencê-los da importância do carro de som pra tentar impedir mais confusão e o caminhão pode avançar.
Hoje revivi esse momento que talvez as câmeras não registraram e poucas pessoas sabem. O que se viu após isso todos sabem: 4 horas de intenso ataque aos nossos direitos e aos nossos corpos. Mais de 200 feridos e nossa aposentadoria roubada por canalhas que se esconderam em um camburão dias antes e, agora, seguros votavam tranquilamente os projetos do Beto Richa (PSDB) pela retirada de direitos dos servidores. Após aquele cenário de guerra, percorremos hospitais e emergências médicas à procura de pessoas feridas, enquanto advogados tentavam localizar pessoas presas.
Sim, parece cena de um filme. E essas cenas não saem da mente, mesmo após mais de uma década, centenas de sessões de terapia, medicação para dormir e para tentar superar tudo aquilo.
Estamos aqui, porém, para fazer memória, continuar na luta e dizer a qualquer governante ou parlamentar que eles passam, mandatos acabam e na história eles sempre estarão do lado de quem sujou as mãos de sangue e pólvora contra o povo.
Luiz Fernando Rodrigues, funcionário de escola, era secretário de comunicação da APP-Sindicato em 29 de abril de 2015



















