Artigo: 21 + 344/345 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres

Artigo: 21 + 344/345 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres

Em seu texto, a dirigente da APP-Sindicato, Cláudia Gruber, revisita datas emblemáticas e destaca sua importância na defesa da vida e dos direitos das mulheres

Foto: Reprodução álbum de família Cláudia Lessin Rodrigues

As datas históricas e suas reflexões – muitas delas marcadas pelas violências que ainda atingem mulheres – norteiam o artigo da secretária executiva de Comunicação da APP-Sindicato, Cláudia Gruber.

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Entre os casos lembrados está o de Cláudia Lessin Rodrigues, uma jovem carioca cuja morte permanece como símbolo da impunidade que vitimiza mulheres há décadas. Assim como ela, milhares seguem sem justiça, revelando a urgência de um ativismo que ultrapassa datas e exige ação permanente.

Cláudia Gruber é professora da rede estadual de ensino e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Leia abaixo a íntegra do artigo.

21 + 344 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres

Dia da Saudade, Dia do Quilo, Dia do Gato Preto, Dia da Pizza, Dia do Riso, Dia de Cosme e Damião… Você já parou para pensar porque existem tantos dias comemorativos? Como eles surgem? Qual o motivo para que aquele dia se torne motivo de comemoração? As razões para que tais datas integrem o calendário são as mais variadas possíveis. Desde relembrar fatos históricos, comemorar o nascimento de pessoas ilustres e até mesmo para fortalecer a identidade cultural e religiosa de uma região.

Estas datas podem também servir para a promoção de reflexões a propósito de determinadas situações ou contextos sociais, criando engajamento, despertando olhares mais aguçados e sensíveis quanto ao que se quer destacar.

Há datas que nascem de forma espontânea e acabam se popularizando, já outras são forjadas e oficializadas com o objetivo de serem lembradas e celebradas por toda uma comunidade. Outras datas são engendradas estrategicamente para impulsionar o comércio.  Já as datas internacionais passam por um crivo diferenciado na medida em que precisam de  aprovação nas Assembleias Gerais da ONU (Organização das Nações Unidas). É o caso dos 16 dias de de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, criado em 1991 por 23 líderes feministas de diferentes países, reunidas pelo Centro de Liderança Global de Mulheres (CWGL).

No Brasil, os 16 dias transformaram-se em 21 devido à inclusão de outra data de extremo significado nas pautas anti-violência: o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Tal configuração deu-se para enfatizar a maior carga de violências sofridas pelas mulheres negras em nosso país.

Nestes 21 dias, tanto governos quanto sociedade civil organizada trabalham para a conscientização e denúncia de violências sofridas pelas mulheres. Porém, não basta denunciar, é preciso que sejam cobradas políticas públicas para reverter o quadro assustador de violência contra as mulheres.

Vejamos alguns dados para prosseguir a prosa.

Você sabe quantos feminicídios acontecem por dia no país? Quatro! Foram 1.492 casos registrados em 2024 segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Dessas mulheres mortas, 64% eram negras e, na maioria dos casos, o agressor é ou foi parceiro da vítima (89% dos casos). A casa, que deveria ser um ambiente seguro, configurou-se como o principal espaço de morte (64%). O Paraná aparece em destaque (34,6% dos casos), figurando como o terceiro estado que mais teve aumento nos números de feminicídio ano passado, perdendo apenas para o Piauí e para o Maranhão.     

E estupros? Você faz ideia de quantos ocorrem diariamente? Um a cada sete minutos, em média. Segundo dados do Mapa da Segurança Pública, em 2024, foram 227 notificações diárias, o que representa um aumento de quase 26% de casos nos últimos cinco anos. Destes estupros, 61,3% das vítimas tinham até 13 anos de idade, o que nos leva a um provável perfil dos agressores: pessoas muito próximas às vítimas, familiares como pais, padrastos ou outros graus de parentesco, pessoas que tinham acesso direto e confiança dessas crianças e adolescentes.  Aqui, temos que abrir um parênteses para as chamadas “subnotificações históricas” pois, há muitos casos que não são reportados às autoridades competentes por medo das vítimas e até mesmo pela família ter receio das próprias autoridades, já que pode haver relações familiares conflituosas, sobretudo nos casos que envolvem menores de idade.  

Estupro e feminicídio são violências extremas. Deixam marcas eternas, sejam nas vítimas, sejam nos familiares, pois, não há como esquecer, não há como superar e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Além de marcas físicas, há marcas que se fixam na alma.

Há casos de violência contra mulheres que se tornaram emblemáticos e tiveram repercussão nacional tamanho o grau da crueldade a que foram submetidas as vítimas. Um deles em especial sempre me chamou a atenção, o caso de Cláudia Lessin Rodrigues. Era criança quando vi esse outdoor aqui em Curitiba, em 1978.

Outdoor em Curitiba no ano de 1978

 Não entendia por que as pessoas não podiam esquecer aquele nome. Só sabia que tínhamos o mesmo nome: Cláudia. 

Anos mais tarde, fui conhecer a história por trás desse nome. Cláudia Lessin Rodrigues era uma jovem carioca de classe média alta, havia frequentado bons colégios, gostava de cinema, música clássica e literatura. Na época em que foi morta, vivia altos e baixos com o namorado e estava se tratando de uma depressão. Como toda jovem, curtia uma balada e num sábado, dia 23 de julho de 1977, foi convidada para uma festa no apartamento do jovem herdeiro da fábrica de relógios Mondaine, Michel Frank. Lá, também se encontrava um amigo do herdeiro, o cabeleireiro das socialites – Georges Kour.

O que era para ser uma festa, na verdade era o que se chamava, na época de “função” ou “cheiração” (ponto para consumo e tráfico de drogas). Durante aquele final de semana, entraram e saíram pessoas sem parar de lá e dizem que Cláudia ficou no local de “bobeira”, observando e se divertindo com a movimentação. No domingo, os dois amigos e a moça saíram para caminhar e foram até um local chamado chapéu do pescador, na Avenida Niemeyer. Lá, eles tentaram estuprar a jovem, só que ela reagiu. 

Cláudia foi então violentada e morta por asfixia. Teve o rosto desfigurado para não ser reconhecida. O seu corpo foi amarrado com arame e preso a uma mala cheia de pedras para poder ser arremessado do chapéu do pescador ao mar. Porém o cadáver ficou enroscado no platô e acabou sendo encontrado no dia seguinte (25 de julho) na encosta. 

Houve testemunhas de momentos pontuais da situação que se desenrolou no local, o que levou rapidamente à polícia aos envolvidos na morte de Cláudia. Mas, como o caso envolvia pessoas ricas e famosas, as investigações foram atrapalhadas por depoimentos contraditórios. O caso ainda é recheado por laudos médicos contestados, artimanhas e subornos que propiciaram a Michel Frank fugir para Zurique, na Suíça. Lá, ele viveu por doze anos até ser morto com seis tiros. Já Georges Kour, entregou-se à Justiça, perante a qual deu a sua versão do caso. Segundo ele, Cláudia teria morrido por causa de uma overdose de cocaína no apartamento de Michel e que eles, sem saber o que fazer, tentaram apenas ocultar o cadáver. O cabeleireiro foi julgado e absolvido do crime de homicídio mas condenado por ocultação de cadáver. Detalhe: no exame toxicológico feito no corpo da vítima não havia qualquer traço de drogas, sequer indício neste sentido.

Tanto durante as investigações quanto no transcorrer do processo, a imagem passada de Cláudia pelos acusados era a de uma jovem fútil, cheia de vícios, imatura e, inclusive,  adepta a orgias sexuais. Alguém que não tinha limites! Até o seu pai a descreveu como a filha problemática, para quem ele pagava terapia. Como não podia deixar de ser, o velho discurso de que a culpada pela violência sofrida é sempre a vítima.

Assim como Cláudia, milhares de mulheres foram mortas e seus assassinos ficaram impunes ou tiveram as suas penas drasticamente reduzidas pois, na época em que Lessin foi morta, não se falava no delito de feminicídio. Até porque a infração somente foi tipificada em 2015 pela Lei nº 13.104/2015, mesmo diploma que tornou um crime hediondo. 

Precisamos cuidar e proteger as nossas mulheres e meninas. Precisamos falar sem medo e tampouco pudor sobre violência contra as mulheres e as formas de coibi-las. Precisamos, sobretudo, que estes 21 Dias de Ativismo não parem por aí. Precisamos que eles se  transformem em 365 Dias de Ativismo todos os anos. 

Para saber mais:

Pod Cast: O Caso [Últimos Passos] : Criatura Multimídia: Amazon.com.br: Audiolivros 

O caso Cláudia, 1979, Brasil, Ficção policial/drama, O Caso Claudia

 

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