APP-Sindicato pede o arquivamento do projeto de lei que proíbe cotas nas universidades do Paraná

APP-Sindicato pede o arquivamento do projeto de lei que proíbe cotas nas universidades do Paraná

Sindicato encaminhou ofício à Presidência da Alep destacando que, além de inconstitucional, proposta representa grave retrocesso social e educacional

Políticas de cotas e ações afirmativas abrem portas para pessoas negras, indígenas e outros grupos da sociedade - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/Arquivo

A APP-Sindicato encaminhou um ofício à Presidência da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) em que pede o arquivamento do Projeto de Lei 25/2026, que proíbe a adoção de cotas e políticas afirmativas em instituições de ensino superior públicas ou que recebam verbas públicas no Estado do Paraná. O Sindicato também elaborou uma nota de repúdio em que classifica a iniciativa parlamentar como um grave retrocesso social e educacional.

>> Receba notícias da APP no seu Whatsapp ou Telegram

“As notícias e análises públicas sobre o PL apontam que o seu efeito é extinguir cotas raciais em universidades estaduais e também atingir instituições federais situadas no Paraná. Na prática, isso impacta políticas consolidadas há décadas”, argumenta o texto. Para a APP-Sindicato, a proposta é um ataque direto às políticas de inclusão no ensino superior e apresenta indícios relevantes de inconstitucionalidade e de conflito federativo.

Para a secretária de Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo da APP-Sindicato, Celina Wotcoski, as cotas são fundamentais para a reparação histórica das populações negra e indígena, que ainda hoje são atingidas por séculos em que foram excluídas da sociedade e das ações estatais.

Celina Wotcoski, Secretária de Promoção de Igualdade Racial e Combate ao Racismo da APP-Sindicato – Foto: Bruna Durigan / APP-Sindicato

“Esse PL é um retrocesso, uma vez que cota não é esmola, é uma reparação histórica. É uma dívida que o Estado brasileiro tem com as pessoas negras, quilombolas e indígenas. Essa proposta precisa ser arquivada imediatamente, pois além de inconstitucional, vai na contramão de tudo o que já foi feito em relação à promoção da igualdade racial no Brasil”, finaliza Celina.

Na nota de repúdio, a APP-Sindicato reforça que a defesa das cotas e das ações afirmativas é, acima de tudo, a defesa da justiça social, da igualdade de oportunidades e do compromisso constitucional com a redução das desigualdades.

“A tentativa de vedar tais instrumentos representa não apenas um grave retrocesso social e educacional, mas também uma investida sem fundamentos, que busca barrar uma política de justiça social destinada à correção de distorções produzidas por séculos de exclusão. Ao atacar as cotas e as ações afirmativas, o projeto pretende aprofundar o racismo estrutural e a concentração de oportunidades, comprometer a diversidade e a pluralidade no ambiente acadêmico e enfraquecer o caráter público, democrático e inclusivo das instituições de ensino”, aponta a nota. Leia a íntegra no final da matéria.

TJ-SC suspendeu proposta similar

De autoria do deputado estadual Ricardo Arruda (PL), a proposta pretende proibir, no Estado do Paraná, a adoção de “políticas de reserva de vagas” e “qualquer forma de cota ou ação afirmativa” (inclusive “vagas suplementares e medidas congêneres”) para o ingresso de estudantes e também para a contratação de docentes, técnicos(as) e outros(as) profissionais em instituições de ensino superior públicas ou que recebam verbas públicas. Em caso de descumprimento, o projeto fixa uma multa de cerca de R$ 143 mil (1.000 UPF/PR).

Um projeto de lei semelhante foi aprovado, em dezembro do ano passado, pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) e sancionado pelo governador do estado. Em janeiro deste ano, a lei foi suspensa pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC), sob o entendimento de que tais medidas contrariam os princípios de igualdade material e o combate ao racismo. Decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) também já asseguraram a constitucionalidade das cotas raciais e das ações afirmativas como ferramentas legítimas de promoção da justiça social.

Nota de repúdio ao projeto de lei que proíbe cotas nas universidades públicas do Paraná

A APP-Sindicato manifesta seu veemente repúdio ao Projeto de Lei 25/2026, de autoria do deputado estadual Ricardo Arruda (PL), que pretende proibir a adoção de políticas de reserva de vagas, bem como qualquer forma de cota ou ação afirmativa, para o ingresso de estudantes e para a contratação de docentes, técnicos(as) e demais profissionais em instituições de ensino superior públicas ou que recebam verbas públicas no Estado do Paraná.

As políticas de cotas raciais e as ações afirmativas abrem portas para pessoas negras, indígenas e outros grupos da sociedade que historicamente foram impedidos de entrar – e até de existir – nos espaços de poder e produção de conhecimento. São instrumentos consolidados de enfrentamento ao racismo e de promoção da equidade. Fundamentam-se na Constituição Federal e são respaldadas por decisões do Supremo Tribunal Federal, que reconhecem sua constitucionalidade e sua relevância para a superação das desigualdades históricas e estruturais que marcam a sociedade brasileira.

A tentativa de vedar tais instrumentos representa não apenas um grave retrocesso social e educacional, mas também uma investida sem fundamentos, que busca barrar uma política de justiça social destinada à correção de distorções produzidas por séculos de exclusão. Ao atacar as cotas e as ações afirmativas, o projeto pretende aprofundar o racismo estrutural, a concentração de oportunidades, comprometer a diversidade e a pluralidade no ambiente acadêmico e enfraquecer o caráter público, democrático e inclusivo das instituições de ensino.

A defesa das cotas e das ações afirmativas é, acima de tudo, a defesa da justiça social, da igualdade de oportunidades e do compromisso constitucional com a redução das desigualdades. Por isso, a APP-Sindicato encaminhou à Presidência da Assembleia Legislativa do Paraná pedido de adoção das medidas regimentais para o arquivamento do Projeto de Lei nº 25/2026 e conclama todas as pessoas e organizações da sociedade comprometidas com os direitos humanos a se posicionarem contra a proposta, que ameaça direitos conquistados e fragiliza a construção de uma educação inclusiva e igualitária.

Direção Estadual da APP-Sindicato

Curitiba, 3 de março de 2026

:: Leia também

>> Racismo contra parlamentares negras evidencia abolição inacabada e desafios da luta antirracista

>> Produção especial da APP-Sindicato divulga práticas antirracistas para as escolas

>> APP-Sindicato recebe o escritor Ozias Inocencio para diálogo sobre relações étnico-raciais na educação

Por uma educação antirracista

Assumir que o racismo não é um problema da população negra, mas de toda a sociedade, e que a escola tem papel fundamental para transformar essa realidade, é uma urgência.

Por isso, educadores(as) e toda a comunidade escolar precisam assumir o seu protagonismo na implementação das leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena no ensino básico.

Confira abaixo sugestões de conteúdo e algumas pistas para que você construa sua própria jornada como um(a) educador(a) antirracista e implemente essa prática em sala de aula, na sua escola.

>> Acesse: Conteúdos para trabalhar em sala de aula sobre educação antirracista

MENU