APP-Sindicato denuncia nova manobra do governo Ratinho Jr. para fechar cursos que oferecem ensino técnico gratuito

APP-Sindicato denuncia nova manobra do governo Ratinho Jr. para fechar cursos que oferecem ensino técnico gratuito

Documento publicado pela Seed utiliza critérios não previstos na legislação para impedir, de forma automática e sem o conhecimento da comunidade escolar, a abertura de turmas em 2026

Roni Miranda, secretário da Educação, e o governador Ratinho Jr. - Foto: Geraldo Bubniak/AEN

Para tentar fugir da repercussão negativa causada pelo anúncio de fechamento de cursos técnicos gratuitos, de formação profissional, oferecidos na rede pública estadual de ensino, a Secretaria da Educação (Seed) do governo Ratinho Jr. está determinando o cumprimento de regras e critérios não previstos na legislação para provocar o fechamento automático de cursos, sem que a comunidade tenha conhecimento prévio e possa se organizar para tentar impedir o encerramento da oferta.

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A APP-Sindicato tomou conhecimento da situação e formalizou uma denúncia no Ministério Público solicitando providências imediatas, diante da gravidade do caso e seus impactos sociais, principalmente para as comunidades periféricas. No documento, o sindicato aponta que o Informativo nº 044/202, expedido pelo Departamento de Educação e Proteção Escolar (DEP) da Seed, viola o direito à educação ao condicionar a abertura de turmas iniciais e de continuidade para o ano letivo de 2026 à análise de frequência escolar do ano anterior e a estabelecer a possibilidade de rejeitar matrícula ou rematrícula de estudantes com baixa frequência.

De acordo com informativo, a autorização de turmas iniciais para o início do ano letivo de 2026, nos Colégios Agrícolas Estaduais e Centro Estadual de Educação Profissional que ofertam a Educação Profissional, integrado ao Ensino Médio e na forma subsequente, está obrigatoriamente subordinada ao atendimento de critérios como taxas de abandono abaixo ou igual a 25%, na média dos últimos cinco anos letivos, e de no mínimo 85% de frequência média no semestre.

“Trata-se de medida ilegal, desprovida de base normativa e ilógica do ponto de vista pedagógico, pois pretende condicionar a abertura de um curso novo, com alunos novos, ao desempenho de outro curso ainda em andamento, o que é incompatível com o direito público subjetivo à educação, a autonomia pedagógica das escolas e os princípios da razoabilidade e da gestão democrática previstos na Constituição Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996)”, explica o departamento jurídico da APP-Sindicato.

Ato é ilegal

Na denúncia, a APP-Sindicato destaca que o informativo contém vício formal de legalidade, pois não existe resolução, portaria ou decreto que autorize a adoção da frequência anterior como critério para abertura de novas turmas ou matrícula. 

“Em termos objetivos, a SEED, por meio do DEP, inverte a lógica constitucional do direito à educação, transformando um indicador de gestão interna (frequência) em filtro de exclusão de novos alunos, o que afronta o princípio da razoabilidade, o direito à continuidade e universalidade do ensino e a própria finalidade pública da administração educacional”, aponta a denúncia.

O entendimento é de que utilizar a frequência em curso anterior não é parâmetro legítimo nem aceitável  juridicamente para limitar o direito de acesso de novos estudantes, pois cria uma barreira administrativa arbitrária, dissociada de critérios pedagógicos e contrária à lógica de expansão da rede pública.

“Na prática, tais regras têm servido para restringir o número de turmas abertas e negar vagas a alunos, com base em critérios não previstos em lei, configurando discriminação institucional e exclusão indireta de estudantes, especialmente em regiões de maior vulnerabilidade social”.

Impactos sociais

Além dos problemas legais, a APP-Sindicato manifestou ao MP preocupação com os impactos sociais, como fechamento artificial de turmas, especialmente em áreas periféricas, redução de jornada e de contratos de professores(as), o aumento da evasão escolar e violação de metas de acesso e permanência previstas no Plano Nacional de Educação e insegurança jurídica para diretores(as) e equipes pedagógicas, obrigados(as) a cumprir um ato sem validade normativa.

Diante dos fatos relatados, o sindicato pede que seja expedida uma recomendação administrativa para que a Seed suspenda imediatamente os efeitos do informativo, não utilize a frequência anterior como critério para matrícula ou abertura de turmas e assegure que nenhum estudante seja privado de vaga.

A solicitação inclui ainda, entre outros pontos, a realização de fiscalização preventiva junto aos Núcleos Regionais de Educação, para evitar o fechamento de turmas e a negativa de matrículas. Caso a recomendação não seja atendida de forma voluntária, a APP-Sindicato reivindica que o MP ingresse com uma Ação Civil Pública para defender e garantir o direito coletivo à educação e a legalidade administrativa.

Mobilização das comunidades

O fechamento de cursos, turnos e até escolas inteiras tem sido uma dos métodos da gestão do governador Ratinho Jr. (PSD) para tentar promover o desmonte das políticas públicas que asseguram o direito à educação gratuita e de qualidade aos(às) paranaenses. Escolas do Campo, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e também os cursos da Educação Profissional estão entre os principais atacados. 

Em fevereiro de 2024, a APP-Sindicato noticiou a mobilização de estudantes de Francisco Beltrão que protestaram contra o fechamento do curso técnico em Segurança do Trabalho, que era ofertado desde no Colégio Estadual Reinaldo Sass. 

Em maio deste ano, o sindicato denunciou que o governador autorizou o encerramento da oferta do curso técnico em Enfermagem que mudou a vida da ex-diarista, Valessa dos Santos Silva, de 43 anos, moradora da periferia de Londrina.

A reportagem destacou que essas decisões do governo impedem principalmente que jovens e adultos das periferias tenham uma profissão, possam mudar de vida e provoca desemprego de professores(as), No caso de Valessa, logo após concluir o curso oferecido gratuitamente na rede pública estadual, ela passou em um concurso público e foi convocada para assumir uma vaga de auxiliar de enfermagem na prefeitura do município.

Muitas destas ações do governo só foram revertidas com mobilização da sociedade e ações na Justiça. Um levantamento feito pela APP-Sindicato com dados de agosto de 2023 a agosto de 2024, mostrou que o governo acumulou oito derrotas na Justiça naquele período, sendo obrigado a reabrir a oferta de ensino noturno fechado de forma ilegal, prejudicando centenas de jovens que trabalham durante o dia na agricultura familiar e no comércio.

A vitória mais recente foi na Escola Estadual do Campo Barra Bonita, localizada no município de Três Barras do Paraná. A atuação da APP-Sindicato e a mobilização da comunidade escolar conseguiram barrar a tentativa de fechar escola.

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