APP divulga manifesto pelo fim da violência contra as escolas e por uma educação humana e humanizadora

APP divulga manifesto pelo fim da violência contra as escolas e por uma educação humana e humanizadora

“Quando um aluno mata o mestre por um prazer macabro, é porque estamos sem norte”

Em 25 de novembro, duas escolas situadas no município de Aracruz (Espírito Santo) foram vítimas de ataques que resultaram em 4 mortes e 12 feridos. O autor dos atentados, um adolescente de 16 anos, tinha sido mobilizado pelo extremismo de direita. Agora, nestas últimas duas semanas, fomos surpreendidos com duas novas ações extremas: um adolescente, com apenas 13 anos, esfaqueou uma professora e feriu outras duas; um jovem de 25 anos invadiu uma creche e matou 4 crianças. Desde então, sucedem-se denúncias da falta de segurança e de possíveis atos violentos em escolas de várias regiões do país. 

Estarrecida e incrédula, a sociedade pergunta-se do porquê dessas atitudes. Os que entendem os(as) educadores(as) como símbolo de dignidade de uma nação entendem que “quando um aluno mata o mestre por um prazer macabro, é porque estamos sem norte”, como afirma Carla Jimenez no artigo “O fascismo matou Tia Bete”.

Paradoxalmente, a educação que deveria libertar o humano tem sido usada como espaço da violência e da barbárie, situações estas que se intensificaram durante o governo anterior, que debochou do sofrimento, da dor alheia e da morte de milhares por Covid.

Infelizmente o fenômeno não é novo. Mas o que os dados têm demonstrado é que se intensificou no período do governo Bolsonaro. Evidencia-se uma relação entre os ataques às escolas e a escalada do ultraconservadorismo e do extremismo de direita no país, a falta de controle e/ou criminalização desses discursos e práticas no período de Bolsonaro no governo, bem como sua difusão através de meios digitais. 

Não há como negar que o fascismo se instalou aqui. São muitos(as) os(as) vereadores(as), deputados(as), senadores(as) e governadores(as) que foram eleitos com pautas extremistas, como a defesa de armamento da população. Além deles(as), radialistas, apresentadores(as) de TV, pastores(as), padres, entre outras pessoas formadoras e divulgadoras de opinião, expressam suas pautas justiceiras e são incapazes de respeitar diferenças. Agem para aprofundar a dor de nascer e crescer num país tão violentamente desigual.

Completa esse quadro a viralização e espetacularização que a violência ocupa nas redes sociais. Plataformas digitais que privilegiam o anonimato estão acessíveis a todos(as) e tem nos(as) adolescentes e jovens seu público cativo. Adolescentes e jovens que se sentem inadequados(as) e sem perspectivas tendem a reproduzir a violência expressa nestes canais.

Esse jogo mortal de violência tem cooptado cada vez mais adolescentes e jovens nos últimos anos. No processo de destruição do Estado, da educação e do trabalho, esses(as) viram-se sem perspectivas de futuro e de sentido para a vida. Não obstante, o processo da pandemia acirrou as diferenças de classe, produziu mais desigualdade e reduziu a socialização das pessoas. Crianças, adolescentes e jovens têm na sociabilidade um fator importante de construção de identidade e de alteridade. Além disso, o fato de ficarem em casa os(as) expôs a um tempo grande em frente às telas, consumindo o que as redes sociais lhes ofereciam.

Também é importante evidenciar a influência da necropolítica para o acirramento deste contexto. A necropolítica ganhou contornos extremos durante a pandemia. Ela reforçou uma dinâmica de desconstrução das relações de bem-estar, da sociabilidade e de um projeto civilizatório, que atingiu principalmente os(as) adolescentes e jovens, justamente os(as) mais suscetíveis, assim como alguns políticos(as).

Se não bastasse, esta forma nefasta de política reforçou o autoritarismo, a exclusão e a morte. O Estado a serviço do capitalismo cria zonas de exclusão e produz mortes violentas. Vejamos os índices de balas perdidas e as mortes de inocentes nas periferias por agentes do Estado. E quem morre é em sua maioria a juventude negra e pobre, cujo presente e futuro vêm sendo destruídos por políticas da mesma extrema-direita, que destrói empregos, direitos trabalhistas, previdenciários, etc.

O resultado desse conjunto complexo e polêmico é uma cultura macabra de violência, em que se marca a data para eliminar alguém e em seguida ganhar as redes sociais. Nesta situação, ecoam e ganham aceite na sociedade os clichês que muitos(as) políticos(as) e a imprensa sensacionalista insistem em apontar como saídas, como a redução da maioridade penal, o armamento da população, a policialização e militarização das escolas. 

Estudos têm demonstrado que esse não é o caminho para a superação da violência que chega às escolas e as atravessa. Se assim fosse, no período Bolsonaro, quando estas políticas foram intensificadas, os casos de violência deveriam ter diminuído, o que não aconteceu. Para se ter uma dimensão de como essas medidas não funcionam, infelizmente, em setembro de 2022 um atirador matou uma adolescente em uma escola militarizada na Bahia. 

Nos EUA, de onde muitos agem como cegos aprendizes desta cultura assassina, aumenta-se cada vez mais a  “segurança” nas escolas, sem que isso contribua para impedir atos extremos. Os(as) norte-americanos, muito antes de nós, também têm sido reféns da propaganda da indústria de armas na TV, parlamentos e púlpitos de igrejas. 

Solidarizamo-nos com a dor de todas as educadoras e educadores vítimas dessa violência social alimentada por atos de ódio, de criminalização dos espaços de ensino somadas à perda da esperança como resultado da destruição da política e dos valores civilizatórios, impulsionados pela extrema-direita de caráter fascista. 

São atos que estão entranhados na sociedade brasileira de matriz escravocrata, higienista e de extermínio de classe. Mas os atos de ódio sempre são precedidos de discursos de ódio. No Brasil hoje, discursos de ódio ganham audiência, likes e votos, e isso mostra uma sociedade profundamente adoecida. 

Para compreender o extremismo destes discursos, também é fundamental identificar a ideia de supremacia branca, masculina e heteronormativa que tem sido um de seus elementos constitutivos. Não por menos que a maioria das vítimas de ataques fora da escola são mulheres, negros(as) e população LGBTI. Estes discursos, cotidianamente, mentem e criminalizam a educação e a escola pública, seus(suas) educadores(as) e estudantes. Como rastilho de pólvora ganham dimensão nas redes sociais.

Lembremos sempre: Segundo o relatório O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental, “as denúncias feitas por conservadores têm provocado adoecimento docente, ataques e ameaças de morte aos atores envolvidos”.

O documento tem o cuidado de utilizar a expressão violência contra as escolas” e não “violência escolar”, pois o agente da violência não é a instituição escolar. “Contudo, é inegável que as violências nas escolas – um fenômeno que contempla inúmeras expressões – colabora com a emergência do extremismo de direita e a consequente cooptação de adolescentes e jovens. Portanto, há uma retroalimentação que precisa ser enfrentada”, aponta o relatório. 

É urgente e necessário desbarbarizar a educação, para usar uma expressão de Adorno. A barbárie continuará persistindo enquanto persistirem as condições que geram estas violências, ainda que o problema da violência seja complexo e não se explique por um ou outro fenômeno, mas por um conjunto de fenômenos. 

Para desbarbarizar a educação e superar a violência que atinge o espaço escolar, é preciso colocar o problema como efetivamente ocorre. Admitir a existência das várias formas de violências fora e dentro da escola é o início do caminho para buscar alternativas de enfrentamento destas situações. 

Também é necessário que a escola seja tomada pelo sentido democrático; uma educação para a democratização e cidadania. Nesse sentido, é preciso ampliar a gestão democrática, atuar com um currículo explícito e oculto que promova a cultura da paz, da não violência e da mediação de conflitos, oferecer formação adequada aos(às) profissionais da educação para atuarem nas situações que exigirem mediação, contar com uma rede de proteção célere em fazer os acompanhamentos quando demandados(as) pelas escolas, com um serviço de inteligência policial que consiga identificar potenciais situações de violência, entre outras medidas.

Por último, é nossa tarefa construir uma escola humanizada e humanizadora e de qualidade social, de crítica às atuais relações sociais de exclusão, produção de desigualdades e alienação. Uma educação verdadeiramente humanizadora se realiza no exercício radical e cotidiano de novas relações solidárias de reconhecimento do outro, múltiplo e diverso. 

Neste sentido,

… Educadores(as) são imprescindíveis para ajudar a fazer nascer um país menos desumano. 

… o Estado tem o dever civilizatório de nos respeitar e valorizar, dando o exemplo. 

…o Sistema de Justiça tem o dever punir as ações, os discursos e as plataformas que os divulgam,

para que as ações extremas sejam contidas.

Chega de violência nas escolas!

Queremos e lutaremos por uma sociedade e, por conseguinte, uma escola mais humana e humanizadora.

Curitiba, 31 de março de 2023

Conselho Estadual da APP-Sindicato

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